Mexilhão-dourado: como um molusco da Ásia virou um problema milionário no Brasil
Espécie se prende a tubulações e equipamentos de usinas; gastos anuais do setor elétrico com prevenção e controle chegam a US$ 9,97 milhões, segundo levantamento
Um molusco de água doce originário da Ásia se tornou um problema milionário para as hidrelétricas brasileiras. O mexilhão-dourado se fixa em estruturas submersas, forma grandes colônias e pode bloquear tubulações, filtros e sistemas de resfriamento das usinas.
De acordo com Guilherme Moreno Taveira, Renato Grillo e Jefferson Nascimento de Oliveira em “Mexilhão Dourado: O Avanço da Espécie em Reservatórios Brasileiros“, o setor elétrico nacional gasta US$ 9,97 milhões por ano com prevenção e controle da espécie. O impacto também alcança a captação de água, a pesca, a aquicultura e a navegação.
Conhecido pelo nome científico Limnoperna fortunei, o organismo chegou à América do Sul em 1991. Foi transportado na água de lastro de navios cargueiros até o estuário do Rio da Prata, na Argentina. Essa água é utilizada pelas embarcações para ajudar a manter sua estabilidade.
No fim dos anos 1990, o mexilhão alcançou o Brasil por embarcações que circulavam na hidrovia Paraná-Paraguai. Desde então, espalhou-se por rios e reservatórios do Sul, Sudeste, Centro-Oeste e partes do Nordeste.
Por que ele se espalha?
A espécie combina características que facilitam sua expansão. Suas larvas circulam livremente na água, enquanto estruturas chamadas bissos permitem que o molusco se prenda a superfícies rígidas. A circulação de embarcações, as conexões entre hidrovias e a construção de reservatórios também favorecem a dispersão.
Uma vez instalado, o mexilhão forma camadas sobre as estruturas. Esse acúmulo recebe o nome de bioincrustação e exige intervenções para manter os equipamentos funcionando.
Problema vai além das usinas
Os danos não ficam restritos à geração de energia. A presença do molusco pode comprometer estruturas utilizadas para captar água e equipamentos ligados à pesca e à navegação. Nos ambientes naturais, sua expansão também preocupa pela interferência na fauna aquática nativa. A capacidade de reprodução e dispersão torna o controle um desafio permanente.
É possível eliminar o invasor?
A erradicação completa em ambientes já ocupados é considerada improvável com os métodos disponíveis. Por isso, as ações procuram reduzir os danos e impedir a chegada da espécie a outras áreas.
Entre as técnicas utilizadas estão raspagem, jateamento de alta pressão, filtração e tratamentos específicos nas instalações. Pesquisas com nanomateriais e soluções biotecnológicas buscam novas formas de dificultar a fixação.
A limpeza de embarcações e equipamentos antes do transporte entre rios e reservatórios está entre as medidas preventivas. Na piscicultura, a verificação sanitária das cargas de alevinos também ajuda a evitar a dispersão de larvas.
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