Uso de remédios sem prescrição pode causar intoxicação e agravar doenças
Pesquisa indica que nove em cada dez brasileiros tomam medicamentos sem prescrição; especialistas recomendam cautela mesmo com produtos de venda livre
Uma estudante de 12 anos passou mal após ingerir um medicamento de tarja preta para ansiedade levado por uma colega à escola, em Caiapônia, no interior de Goiás. O comprimido pertencia ao avô da outra aluna e foi consumido no ambiente escolar.
O caso, ocorrido na segunda-feira, 19 de outubro, chama a atenção para os riscos do uso de medicamentos sem orientação profissional, prática que pode provocar reações adversas e intoxicações. Segundo informações divulgadas, a estudante foi levada pelos responsáveis a uma unidade hospitalar e se recuperou.
A situação não é isolada no Brasil. Uma pesquisa do Instituto de Ciência, Tecnologia e Qualidade (ICTQ), realizada em 2024, aponta que nove em cada dez brasileiros tomam medicamentos sem prescrição. Embora a prática seja comum para aliviar sintomas cotidianos, o uso inadequado pode trazer consequências à saúde.
A farmacêutica Kassia Souza alerta que um medicamento prescrito para determinada pessoa não é necessariamente seguro para outra, já que a escolha e a dosagem dependem de fatores como idade, condições de saúde e uso de outras substâncias.
De acordo com Kassia, a automedicação pode provocar efeitos indesejados, agravar problemas de saúde e atrasar o diagnóstico de doenças que exigem acompanhamento profissional. Por isso, mesmo quando o objetivo é aliviar sintomas considerados simples, é importante avaliar os riscos e buscar orientação adequada.
Hábito frequente entre brasileiros
O levantamento do ICTQ aponta que a automedicação é comum em casos de dor de cabeça, gripe, resfriado, febre e dores musculares. Nessas situações, muitas pessoas recorrem a analgésicos e antitérmicos com base em experiências anteriores ou indicações de familiares e amigos.
Embora alguns medicamentos sejam vendidos sem receita, isso não significa que estejam livres de riscos. Os medicamentos isentos de prescrição (MIPs) são destinados ao alívio de sintomas leves e de curta duração, desde que utilizados conforme as orientações da bula. Se os sintomas persistirem ou piorarem, é necessário procurar avaliação profissional.
Kassia destaca que a escolha do medicamento deve considerar as particularidades de cada pessoa. Um produto que funcionou para alguém pode não ser adequado para outra. O farmacêutico também pode orientar sobre doses, contraindicações, interações e cuidados durante o tratamento.
Doses incorretas podem causar intoxicação
A quantidade ingerida e a combinação de diferentes substâncias influenciam os riscos. Doses acima das recomendadas podem causar toxicidade, enquanto quantidades insuficientes podem comprometer a eficácia do tratamento. Além disso, algumas combinações aumentam a possibilidade de efeitos adversos ou alteram a ação dos medicamentos.
Ansiolíticos e opioides, por exemplo, podem provocar dependência física e psicológica quando utilizados inadequadamente. Já determinados anti-inflamatórios podem causar complicações no estômago e nos rins, dependendo da substância, da dose e das condições de saúde do paciente.
Os antibióticos exigem atenção especial. O uso sem indicação, em doses incorretas ou por tempo diferente do recomendado favorece a resistência bacteriana. Com isso, algumas bactérias deixam de responder adequadamente aos medicamentos, tornando infecções mais difíceis de tratar e podendo prolongar internações.
Cuidados para prevenir riscos
Para evitar complicações, a orientação é não utilizar medicamentos prescritos para terceiros, respeitar as instruções da bula e procurar profissionais de saúde antes de iniciar ou modificar um tratamento. Também é importante guardar os produtos em locais seguros, fora do alcance de crianças e adolescentes.
Em caso de suspeita de intoxicação, a pessoa deve procurar atendimento médico imediatamente. Não se deve provocar vômito nem recorrer a receitas caseiras para tentar reverter os efeitos. Sempre que possível, a embalagem do medicamento deve ser levada ao serviço de saúde para ajudar na identificação da substância ingerida.
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