sexta-feira, 6 de novembro de 2026
CINEMA

Público volta aos cinemas e impulsiona recorde de bilheterias; saiba o que levou brasileiros às salas

Até outubro, foram vendidos 116,8 milhões de ingressos, maior público acumulado da década; Homem-Aranha foi o filme mais visto do ano

Luana Avelarpor em
Público volta aos cinemas e impulsiona recorde de bilheterias; saiba o que levou brasileiros às salas

Com tantos filmes disponíveis nas plataformas de streaming, o que ainda leva alguém a sair de casa para assistir a uma produção que, em algum momento, poderá chegar à televisão? A resposta começa a aparecer nas bilheterias brasileiras. Até 28 de outubro, os cinemas venderam 116,8 milhões de ingressos, superando os 112,8 milhões registrados durante todo o ano passado. O resultado representa o maior público acumulado até outubro nesta década e mostra que a experiência da tela grande continua encontrando espaço entre os hábitos de lazer.

Segundo a Agência Nacional do Cinema (Ancine), a procura cresceu 19,5% em relação ao mesmo período de 2025. Por trás desse avanço estão grandes lançamentos, produções nacionais e campanhas promocionais. Mas os números também ajudam a entender uma mudança na relação do espectador com o cinema: diante de tantas opções de entretenimento, a decisão de comprar um ingresso passa cada vez mais pelo interesse no filme e pelo custo do programa.

A recuperação ocorre após anos de instabilidade. Em 2023, as salas receberam 102,5 milhões de espectadores até outubro. No ano seguinte, o movimento ficou praticamente igual, com 102,4 milhões, antes de recuar para 97,8 milhões em 2025. Agora, são cerca de 19 milhões de entradas a mais na comparação anual.

O crescimento, porém, não significa que o público tenha abandonado o sofá. Assistir a uma produção em casa continua oferecendo vantagens difíceis de ignorar: não exige deslocamento, permite interromper a sessão e, muitas vezes, representa uma despesa menor. Para o cinema, portanto, atrair espectadores significa oferecer algo que vá além da simples disponibilidade de um filme.

O que faz o público sair de casa?

As maiores bilheterias de 2026 oferecem algumas pistas. “Homem-Aranha: Um Novo Dia”, estrelado por Tom Holland, levou mais de 18,8 milhões de pessoas às salas brasileiras e arrecadou R$ 410 milhões. O longa tornou-se o terceiro filme mais visto da história do mercado nacional.

A procura também foi elevada por “Toy Story 5”, com mais de 8,4 milhões de espectadores, e “Michael”, cinebiografia de Michael Jackson, que ultrapassou 7,5 milhões. “O Diabo Veste Prada 2” se aproximou dos 7 milhões, enquanto “A Odisseia”, de Christopher Nolan, superou 5,3 milhões.

Embora pertençam a gêneros diferentes, esses títulos têm um ponto em comum: chegam acompanhados de expectativa. Alguns apostam na familiaridade com personagens, outros na curiosidade despertada por histórias conhecidas ou pelo trabalho de diretores consagrados.

Há também uma dimensão social nessa escolha. Assistir a um lançamento enquanto ele ainda está em discussão permite participar das conversas sobre a história, comentar cenas e compartilhar impressões. Nem todo filme provoca esse interesse, o que ajuda a explicar por que determinadas produções concentram multidões enquanto outras passam discretamente pelas salas.

O preço também entra em cartaz

Se o interesse pela história influencia a escolha, o valor do ingresso pode definir se ela acontecerá. Uma ida ao cinema envolve despesas que ultrapassam a entrada, sobretudo para famílias ou grupos de amigos. Nesse cenário, promoções podem fazer diferença entre assistir ao filme na estreia ou esperar sua chegada ao streaming.

Foi o que a Semana do Cinema demonstrou em setembro. Com ingressos de R$ 10 e R$ 12, a campanha atraiu 5,64 milhões de pessoas em sete dias, o maior resultado de sua história. A procura ficou cerca de 30% acima do recorde anterior, registrado em fevereiro de 2025.

Uma das principais beneficiadas foi a comédia brasileira “Minha Melhor Amiga”, responsável por aproximadamente 2,1 milhões dessas entradas. Dirigido por Susana Garcia e estrelado por Ingrid Guimarães e Mônica Martelli, o longa ultrapassou 5,8 milhões de espectadores e arrecadou R$ 105 milhões.

O filme se tornou a produção nacional mais vista da década, superando “Ainda Estou Aqui”, de Walter Salles. O desempenho teve peso especial para o cinema brasileiro, que havia enfrentado uma queda de 70% de público nos cinco primeiros meses do ano, em comparação com 2025.

A combinação entre uma produção popular e ingressos mais baratos mostrou o potencial de ampliar o acesso às salas. Também expôs uma dificuldade: uma campanha de preços reduzidos consegue atrair milhões de pessoas, mas transformar esse movimento em frequência habitual exige condições que permaneçam depois da promoção.

Entre a recuperação e o hábito

Os resultados positivos alcançam também a arrecadação. Segundo a consultoria Filme B, os cinemas somavam R$ 2,51 bilhões até 21 de outubro, acima dos R$ 2,33 bilhões registrados em todo o ano passado. Na comparação entre períodos equivalentes, a receita cresceu 29,9%, impulsionada também por sessões premium, com entradas mais caras.

O setor já conta com mais salas do que antes da pandemia. Eram 3.544 em funcionamento no fim de 2025, contra 3.507 em 2019. Naquele ano, porém, o público ultrapassou 176 milhões de espectadores, marca anual que ainda serve de referência para a recuperação do mercado.

A diferença entre ter mais salas e conseguir ocupá-las ajuda a dimensionar o desafio. O sucesso de grandes lançamentos comprova a capacidade de mobilização do cinema, mas não resolve sozinho a dificuldade de atrair espectadores para filmes menores ou sessões fora dos períodos de maior procura.

Para quem gosta de cinema, a questão é mais cotidiana: vale pagar por uma experiência que também poderá estar disponível em casa? Em 2026, milhões de brasileiros responderam que sim. Os números sugerem, porém, que essa escolha não depende apenas do encanto da tela grande. Depende também de encontrar um filme que desperte interesse e um ingresso que caiba no bolso.

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