Presidências de Câmara e Senado só se decidem após posse de Lula
Novo ministério vai definir reeleição de Alcolumbre e Motta, além do impeachment de integrantes do STF, por isso, as articulações de agora pouco ou nenhuma influência vão ter nos acordos de última hora, com o novo 1º escalão em atividade, as alianças de 2028 e 2030 em andamento e os cargos sendo distribuídos a rodo
Mal passou a ressaca do 2º turno e já era discutida a composição das Mesas Diretoras do Senado e da Câmara dos Deputados. Com Lula (PT) reeleito, ficaram mais fáceis outras reconduções presidenciais, as de Davi Alcolumbre (União Brasil-AP) e Hugo Motta (Republicanos-PB). Porém, essas últimas três (a de Alcolumbre é dupla, pois o 01 do Senado acumula o comando do Congresso Nacional) dependem daquela 1ª. Ainda não se sabe para quem Lula vai distribuir os cargos de 1º escalão, os ministérios e órgãos às vezes até mais poderosos que eles, como as chefias de agências reguladoras, o topo dos bancos públicos e as vagas em tribunais tipo STF, STJ e TCU.
As siglas do Centrão resolveram não resolver coisa alguma e nos dois turnos ficaram mais divididos que tora de salame fatiado. Mesmo que a federação União Progressista, com PP e UB, tenha oficialmente apoiado Flávio Bolsonaro (PL-RJ) nas três semanas entre as votações, não vai punir os desobedientes. Então, Lula deve fazer a feira ao compor o novo 1º escalão. Além de PP e UB, deve cooptar o Republicanos do governador bolsonarista Tarcísio de Freitas (SP), o PSD que competiu com Lula ao lançar o goiano Ronaldo Caiado, o MDB do governador Daniel Vilela (GO) e até nanicos do gênero Podemos, Avante, Solidariedade e PRD, que elegeram congressistas. Indicam nomes em janeiro e votam em quem Lula quiser em fevereiro.
Atualmente, Lula quer Alcolumbre e Motta. Para encarar o 1º, a oposição no Senado escolheu o mesmo de 2023, Rogério Marinho (PL-RN), que em 2027 deve perder do mesmo jeito. Para postar no Instagram, é uma beleza, os cortes terão milhões de views, curtidas e compartilhamentos. Na vida prática, o PL vai ficar sem cargos na mesa, apesar de sua bancada ser a maior. As comissões, vitais no funcionamento da Casa, serão comandadas pelos vencedores. E o PL vai continuar lambendo embira sem saliva, como em 2023/24. A mesma bogagem pode ser repetir na Câmara, cujos componentes são ainda mais permeáveis ao toma-lá-dá-cá-do-samba-do-parlamentar-doido. O partido da família Bolsonaro não dispõe de quadros competitivos para peitar Motta em igualdade de condições.
Com Motta, jamais iria a votação o impeachment de Lula
Com a nova equipe, que será definidora das reeleições de Alcolumbre e Motta, vai se definir o futuro da composição do Supremo Tribunal Federal, por exemplo. Em eventual vitória de Marinho, no dia seguinte à sua vitória, 2 de fevereiro de 2027, deve ser lida a mensagem em que a cabeça do ministro Alexandre de Moraes estará colocada a prêmio. No caso de Alcolumbre ser mantido, a única possibilidade de Moraes cair seria em acordo prévio de armação da forca. No entanto, pelo andar das articulações, o governo conta que o atual presidente do Senado prescinde desses conchavos para se reeleger. Com Motta à frente da Câmara, jamais iria a votação o impeachment de Lula; com alguém do PL, seria imediatamente.
Portanto, as articulações de agora terão pouca ou nenhuma influência nos acordos de última hora, na tarde de 1º fevereiro, uma rara segunda-feira em que aquela Casa ficará lotada. Com o novo 1º escalão em atividade, as alianças de 2028 e 2030 em andamento e os cargos sendo distribuídos a rodo, o Executivo vai escolher os presidentes do Legislativo, sobretudo para evitar o sangramento no Judiciário. A sobrevivência dos ministros do STF e da oposição de modo geral estará acima das esperanças de algum ingênuo que aguarda a vitória da pauta alheia à demagogia, com projetos sérios e necessários ao País.
Executivo chama de governabilidade; o Legislativo, de praticidade
A bancada goiana no Congresso apoiou Flávio Bolsonaro com maioria na Câmara e unanimidade no Senado (Wilder Morais e Gustavo Gayer, ambos do PL, e Gracinha Caiado, do União Brasil). Dos deputados, apenas os petistas Adriana Accorsi e Rubens Otoni, mais Flávia Morais (PDT) ficaram com Lula. Porém, basta a Lula estalar os dedos e a galera do Centrão se rende a cargos e emendas. É o que o Executivo chama de governabilidade; o Legislativo, de praticidade; e o eleitor, de sem-vergonhice mesmo. Com a adesão aos partidos, a esse quarteto fiel a Lula se somarão apoios do União Brasil (que elegeu Bruno Peixoto, José Nelto e Silvye Alves), do MDB (de Flávia Morais e Célio Silveira), o Podemos (Glaustin da Fokus), o PRD (Lucas Calil), o Republicanos (Marussa Boldrin), o PSD (Lucas do Vale e Daniel Agrobom), o PP (Adriano do Baldy).
Única que vai resistir aos encantos de dinheiro e poder do Executivo é o PL

De todas as siglas com parlamentares, a única que vai resistir aos encantos de dinheiro e poder do Executivo é o PL (Fred Rodrigues, Magda Mofatto, Major Vitor Hugo, Fábio Sousa). Enquanto a família Bolsonaro estiver no partido, ele seguirá contrário à esquerda. Caso siga a tradição de seu presidente nacional, Valdemar Costa Neto, não fica mais quatro anos fora da Esplanada dos Ministérios. Entre os goianos filiados ao Centrão, parecem menos passíveis de aderir a Lula somente Agrobom, as mulheres (Silvye e Marussa) e os Lucas (Calil e do Vale). Bruno deve ficar independente. O partido de Lula elegeu dois, o governo de Lula terá 11. No mínimo. Está assim no país inteiro e essas pessoas vão votar no presidente da Câmara quando seus indicados já tiverem recebido o primeiro salário do Governo Federal. Na Bíblia, o salário do pecado é a morte; na realpolitik do Congresso brasileiro, o salário do pecado é impecável.
Igual acontece no Senado. A bancada goiana tem Gracinha Caiado, que tem exatamente nenhum motivo para continuar no União Brasil, a agremiação que traiu seu marido, Ronaldo Caiado, deixando-o sem concorrer à Presidência da República. Para disputar, ele teve de ir para o PSD, que também não o apoiou, mas ao menos ficou firme na candidatura. Como senador é cargo majoritário, Gracinha pode sair do UB quando quiser, e ela não quer, mesmo sabendo que também será traída na distribuição de cargos na Mesa Diretora e de presidências de comissões. Para mantê-la, o União deve oferecer a Gracinha sua fatia na direção da Casa ou a Comissão de Assuntos Sociais. Ainda assim, é provável que dê tchau aos traíras e a causa não será a continuidade do UB na equipe de Lula, até por ser óbvia a indesmentível vocação governista de Gilberto Kassab, o dono do Diretório Nacional do PSD.
No Congresso, quem ganha leva tudo e quem compõe governa junto
Existe um efeito prático que obriga a haver aliança até entre quem não se tolera, tipo PT e PL, que em Goiás estão juntinhos na chapa de Issy Quinan à Presidência da Assembleia Legislativa. É a ausência de estrutura. No Congresso, quem ganha leva tudo e quem compõe governa junto. Se Marinho perder novamente para Alcolumbre, o PL vai ficar a ver navios sem porto, efeito da gritaria de alguns eleitos na onda do bolsonarismo, como uma inconsequência de que nem o próprio Jair dispunha. Gritar, até porco consegue, diz o ditado, não o ditador. (Especial para O HOJE)
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