Goiás registra mais de 4 mil casos de intoxicação por remédios em 2024
Casos saltam em 70% e ocupa a segunda colocação no ranking de ocorrências de intoxicação registradas no estado
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O uso indiscriminado de medicação pode gerar intoxicação, sudorese, diarreia, vômito, tontura, palpitação, mudança de comportamento, sedação e até a morte. Dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan Net) do Ministério da Saúde apontam que, entre 2020 e 2024, o número de casos de intoxicação por medicamentos em Goiás teve um salto de 70%.
Os números revelam uma escalada preocupante: 2.625 casos em 2020, 3.189 em 2021, 3.831 em 2022, 4.449 em 2023 e 4.474 em 2024. No total, o estado registrou 18.568 ocorrências de intoxicação por medicamentos no período, ficando atrás apenas dos incidentes envolvendo animais peçonhentos, que somaram 50.693 casos. No ranking aparecem em terceiro lugar as intoxicações por drogas de abuso, como maconha, crack e cocaína, com 3.142 registros no período.
Além disso, segundo dados do Hospital Estadual da Criança e do Adolescente (Hecad), cerca de mil crianças sofreram intoxicação por remédios entre 2023 e 2024 em Goiás. Vale ressaltar que de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), as crianças são mais vulneráveis a eventos adversos com fármacos.
A crescente demanda por medicamentos psicoativos é um dos fatores que contribuem para esse cenário. O coordenador de Políticas Sobre Álcool e Drogas da Secretaria da Saúde de Goiás (SES-GO), Paulo Henrique Costa, destaca que esse fenômeno está diretamente ligado ao aumento de transtornos mentais na população.
“O crescimento dos transtornos mentais, como ansiedade, depressão e estresse, levou a um aumento no uso de psicofármacos (calmantes, antidepressivos e ansiolíticos). Pessoas em sofrimento emocional, por vezes, recorrem à automedicação ou ao uso excessivo de medicamentos sem orientação médica, o que eleva o risco de intoxicação”, pontua.
Além da automedicação, intoxicações acidentais ocorrem devido à ingestão errada de fármacos, seja por erro na dosagem, confusão entre medicamentos ou pelo acesso de crianças a substâncias sem supervisão.
Para conter esse problema, a Vigilância Sanitária tem intensificado as fiscalizações sobre a prescrição e comercialização de medicamentos. A superintendente de Vigilância Sanitária e Ambiental da SES-GO, Eliane Rodrigues, explica que, embora os medicamentos sejam substâncias lícitas, o fácil acesso favorece seu uso indevido.
“As receitas são concedidas de forma numerada, então nós conseguimos rastrear aquela autorização de receita para saber se ela não foi falsificada, adulterada. No mercado, a venda é somente sob essa prescrição controlada”, explicou. “O que acontece é que muitos ilícitos ocorrem nesse mercado. Pessoas conseguem acesso ao medicamento mesmo sem receita.”
Para reforçar o controle, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) lançou, em julho de 2024, o Sistema Nacional de Controle de Receituários (SNCR), que cria um banco de dados único para monitoramento das receitas de medicamentos controlados. A adoção obrigatória do sistema está prevista para o meio deste ano.
Diante de uma suspeita de intoxicação medicamentosa, é essencial buscar orientação imediata. O Centro de Informação e Assistência Toxicológica do Estado de Goiás (CIATox) oferece atendimento 24 horas, através do Disque Intoxicação (0800 646 4350), fornecendo suporte tanto para profissionais de saúde quanto para o público geral.