Ceia sob novo limite, o Natal de quem usa canetas emagrecedoras
Medicamentos como canetas emagrecedoras que reduzem o apetite mudam a relação com a comida e expõem os riscos dos exageros típicos das festas de fim de ano
O Natal sempre foi marcado pelo exagero à mesa no Brasil. Pratos cheios, repetição liberada e sobremesa sem culpa fazem parte da tradição. Mas, para quem entrou na era das canetas emagrecedoras, especialmente o Mounjaro, essa lógica começa a falhar. A ceia farta já não garante prazer e, em muitos casos, virou motivo de apreensão.
Nas redes sociais, memes ironizam o tema, mas a realidade é séria. Entre usuários dessas medicações, multiplicam-se relatos de desconforto após frituras, intolerância a doces e refeições interrompidas logo nas primeiras garfadas. Em clínicas de nutrição, cresce o número de pacientes que chegam às vésperas das festas com a mesma dúvida: será possível encarar a ceia tradicional ou o corpo vai “frear” antes da metade do prato?
O efeito não é psicológico. Medicamentos como Mounjaro, Ozempic e Wegovy alteram profundamente o funcionamento do organismo. Eles reduzem o apetite, aumentam a sensação de saciedade e retardam o esvaziamento do estômago. Isso significa que comer como antes, especialmente em grande volume ou com alto teor de gordura, deixa de ser apenas um exagero social e passa a representar risco à saúde.
Segundo a nutricionista Maria Luiza Reis, um dos maiores equívocos associados ao uso desses medicamentos é a ideia de que eles “protegem” contra exageros alimentares.
“Então a gente tem um risco maior, que é a falsa sensação de segurança, porque a pessoa acredita que pode comer sem limite porque a caneta, de certa forma “segura”, ou seja, a caneta é extremamente eficaz ao ponto de aguentar toda aquela resistência daquela ‘comilança’”, afirma. E na prática, isso pode levar a um desconforto gastrointestinal, uma piora da relação com a comida e até mesmo o abandono por alguns efeitos adversos.
O Mounjaro atua principalmente na regulação do apetite, no aumento da saciedade e no retardo do esvaziamento gástrico. Isso não significa, no entanto, que o organismo deixe de sofrer os impactos metabólicos dos excessos, sobretudo em períodos festivos, quando o consumo de alimentos gordurosos, doces e álcool tende a aumentar.
Na prática clínica, dezembro costuma dividir os pacientes em dois perfis: os que se planejam antes das confraternizações e respeitam os limites do tratamento, e os que acreditam que podem “comer como se não houvesse amanhã”, com a confiança de que a medicação dará conta das consequências.
Para Reis, esse segundo grupo corre mais riscos. “O medicamento, ele é uma ferramenta. Ele não é algo que a gente vai utilizar para driblar a conduta contra determinados exageros. Ele atua no foco principal, mas não vai anular esses efeitos metabólicos que o corpo sente.”
Entre os sintomas mais frequentes estão náuseas, sensação de estufamento, refluxo e vômitos. Eles aparecem, principalmente, quando a pessoa consome grandes quantidades de comida ou preparações muito gordurosas, algo comum nas ceias tradicionais.
“Esses medicamentos atuam retardando o esvaziamento gástrico e aumentando a saciedade. Então, quando a pessoa ultrapassa esse limite, o organismo costuma responder. Esses sintomas, eles não fazem parte do processo normal, mas indica que, por exemplo, que o padrão alimentar, ele não está adequado ao tratamento”, explica a especialista.
Embora não exista uma proibição formal de alimentos, a nutricionista reforça que quantidade e ritmo são tão importantes quanto a escolha do que vai ao prato. Comer devagar, respeitar a saciedade e evitar longos períodos de jejum são cuidados básicos, mas frequentemente negligenciados.
Ao pensar no prato ideal para a ceia, Maria Luiza afirma que não existe perfeição, e sim estratégia. “O ideal é que esse indivíduo comece com proteínas mais magras, como, por exemplo, peixes, aves, carnes menos gordurosas e, claro, bastante vegetais e saladas que vão ajudar na sociedade no controle glicêmico.”
Depois, pequenas porções dos acompanhamentos tradicionais podem ser incluídas. O foco não está na restrição extrema, mas na ordem, na quantidade e na consciência.
A sobremesa não precisa ser proibida. Deve ser encarada como exceção e consumida em pequenas quantidades, preferencialmente após uma refeição equilibrada, o que ajuda a reduzir picos glicêmicos e desconfortos. Já o álcool exige atenção redobrada.
“Em excesso, ele pode piorar náuseas, causar hipoglicemia, especialmente naquele indivíduo que é diabético, ele pode sobrecarregar o fígado. A orientação mais segura é moderação, ingestão lenta e nunca ingerir em jejum”, alerta.
Outro ponto de preocupação é o uso dessas canetas sem acompanhamento médico e nutricional. Maria Luiza destaca que, sem orientação, muitos pacientes pulam refeições, ingerem pouca proteína ou exageram acreditando que não haverá consequências. O resultado pode ser deficiência nutricional, perda de massa muscular e prejuízos à saúde a médio e longo prazo.
Mercado clandestino amplia riscos no uso das canetas emagrecedoras em Goiás
Esse cenário se agrava com a expansão do mercado clandestino. Dados da Polícia Rodoviária Federal (PRF) mostram que, entre janeiro e novembro de 2025, mais de 2.220 canetas emagrecedoras foram apreendidas nas rodovias de Goiás.
Somente nos primeiros 15 dias de novembro, outras 700 unidades foram interceptadas. Segundo a PRF, os medicamentos eram transportados ilegalmente e fora das condições adequadas de refrigeração, o que compromete sua eficácia e segurança.
A nova etiqueta social de quem usa canetas emagrecedoras

Durante décadas, o Natal brasileiro foi marcado por um código quase obrigatório: prato cheio, repetição e sobremesa como sinal de celebração. Para quem usa medicamentos como Mounjaro, Ozempic ou Wegovy, essa etiqueta informal começa a ser revista — e o desafio vai além da comida.
A mudança mais perceptível não está apenas no apetite, mas na dinâmica social. Quem usa as canetas costuma ouvir perguntas, piadas ou cobranças veladas à mesa: “Só isso?”, “Vai repetir?”, “Nem vai provar?”. A recusa, antes associada à falta de educação, passa a ser uma necessidade fisiológica.
Esse novo cenário exige ajustes também no comportamento coletivo. A saciedade chega mais cedo, o ritmo das refeições muda e o prazer deixa de estar ligado ao excesso. Em muitos casos, insistir em comer além do limite não gera satisfação, mas desconforto físico e frustração.
Especialistas apontam que o maior desafio das festas não é o prato, mas o contexto. Confraternizações estimulam o consumo automático, guiado mais pelo ambiente do que pela fome real. Para quem usa essas medicações, respeitar o próprio corpo significa, muitas vezes, contrariar expectativas sociais.
A adaptação envolve aprender a dizer não sem culpa e a encerrar a refeição antes do “esperado”. Também passa por mudar o foco da celebração: menos tempo em torno da comida e mais atenção às conversas, aos encontros e ao significado do momento.
Essa transformação sinaliza uma mudança cultural em curso. À medida que as canetas emagrecedoras se popularizam, o conceito de ceia perfeita deixa de estar ligado ao volume e passa a ser associado ao bem-estar. O Natal continua sendo celebração, mas já não exige exagero para existir.