Celular ao volante segue como ameaça no trânsito de Goiânia
Mais de 40 mil motoristas foram flagrados enquanto usavam o aparelho celular em 2025; infração é gravíssima, rende multa de R$ 293,47 e sete pontos na CNH
O uso do telefone celular enquanto dirige segue como um dos principais fatores de risco no trânsito de Goiânia. Dados da Secretaria Municipal de Engenharia de Trânsito (SET) mostram que, somente em 2025, 40.057 motoristas foram flagrados dirigindo veículo segurando, manuseando ou utilizando o celular, uma infração considerada gravíssima pelo Código de Trânsito Brasileiro (CTB). O comportamento está diretamente associado a acidentes e mortes, segundo especialistas em mobilidade urbana.
De acordo com o Departamento Estadual de Trânsito de Goiás (Detran-GO), utilizar o celular ao volante é infração gravíssima, com multa no valor de R$ 293,47 e sete pontos na Carteira Nacional de Habilitação (CNH). A penalidade se aplica a qualquer forma de manuseio do aparelho durante a condução, incluindo ligações, envio de mensagens, uso de redes sociais ou ajustes no GPS com o veículo em movimento.
Apesar das punições previstas em lei, a prática segue banalizada no dia a dia do trânsito urbano. Para o especialista em mobilidade urbana Marcos Rothen, o uso do celular ao volante pode ser encarado hoje como um vício.
“As pessoas, muitas vezes, quando acessam o celular, perdem a noção do que está acontecendo. E o uso do celular por motoristas e motociclistas vem crescendo, antes eram apenas as ligações, depois vieram as mensagens de texto e agora os vídeos. Todos esses usos são fontes de distração por parte dos motoristas”, afirma.
Segundo Rothen, motoristas e motociclistas distraídos pelo celular já figuram entre as principais causas de acidentes graves, tanto nas cidades quanto nas rodovias. “Além de ser perigoso nas cidades ele também é nas estradas onde as velocidades são maiores. Facilmente vamos encontrar situações em que o motorista esqueceu que estava dirigindo e causou ou quase causou um acidente”, relata.
O especialista conta, inclusive, uma experiência pessoal: “Eu mesmo quase fui atropelado por uma motorista que parou no semáforo, começou a mexer no celular e deixou o carro andar, só percebeu quando eu bati no carro”.
Além dos acidentes, o uso do celular impacta diretamente a fluidez e a previsibilidade do trânsito. Conforme o especialista, é comum observar veículos trafegando abaixo da velocidade da via, realizando movimentos em zigue-zague, fechadas bruscas e arrancadas repentinas.
“E ainda tem os que pegam o celular quando o semáforo está vermelho e esquecem da “vida”, aí abre o sinal e o condutor continua manuseando o celular e nem se dá conta de que o sinal abriu, com isso atrapalha os outros. Uma situação que exige cuidado também é dos carros que estão saindo das garagens, eu sempre olho para ver se o motorista está usando o celular e se ele tiver eu dobro os meus cuidados”, pontua.
O Detran-GO orienta que, para evitar o uso inadequado do celular, o condutor deve manter atenção total à via. A recomendação é colocar o aparelho no modo silencioso e deixá-lo fora do alcance durante a condução. Caso seja necessário utilizar o GPS, o ideal é programar o trajeto antes de sair, ajustar músicas previamente e avisar contatos que estará dirigindo. “Essas atitudes reduzem distrações e aumentam a segurança no trânsito”, reforça o órgão.
Ainda segundo o departamento, o celular só pode ser manuseado com o veículo totalmente estacionado e desligado, em local seguro, como postos de combustível, estacionamentos ou recuos da via, inclusive em situações de emergência. Qualquer interação com o aparelho durante o movimento caracteriza infração.
Para Marcos, o enfrentamento do problema exige um conjunto de ações que envolvem educação para o trânsito, campanhas permanentes e fiscalização efetiva.
“Em Goiânia, a percepção dos motoristas e motociclistas é de que a fiscalização é quase inexistente. Para verificar o uso do celular, basta ficar parado numa esquina e quase sempre vai passar um motorista ou motociclista usando o celular. Em alguns lugares do Brasil quando ocorre algum acidente de maior proporção, é feita uma perícia para verificar se o motorista estava usando o celular e como o uso é proibido, o motorista pode ser responsabilizado pelo acidente”, concluiu.
Uso de celular no trânsito passa a ter regras mais claras

As regras que disciplinam o uso de celulares por motoristas e motociclistas em Goiânia passaram a ter aplicação mais clara e rigorosa após a instalação de câmeras de videomonitoramento inteligente na Capital, no ano passado.
Os equipamentos ampliaram a capacidade de fiscalização e ajudaram a embasar a regulamentação anunciada em junho de 2025, que detalha o que é permitido e o que segue proibido durante a condução de veículos.
O sistema conta com câmeras capazes de operar 24 horas por dia, com visão em 360 graus, zoom de longo alcance e tecnologia que permite a captura de imagens mesmo no período noturno. Parte desses equipamentos tem como finalidade identificar infrações de trânsito, como uso do celular ao volante, estacionamento irregular e avanço sobre a faixa de pedestres, condutas que representam risco direto à segurança viária.
Em locais onde não há sinalização específica, a SET informa que as câmeras são utilizadas, para monitoramento do tráfego, além de apoio à segurança pública e viária. A ampliação do sistema, no entanto, fortaleceu o controle sobre comportamentos considerados perigosos e contribuiu para a definição de critérios técnicos na fiscalização.
A regulamentação publicada em 2025 autoriza o uso de suporte fixo para celulares, além de recursos como GPS e viva-voz, desde que o condutor não segure ou manuseie o aparelho durante o deslocamento. O celular não pode permanecer na mão ou no colo, situação que segue caracterizada como infração gravíssima.
O texto também traz orientações específicas para profissionais que utilizam o celular como ferramenta de trabalho, como motoristas de aplicativos, taxistas, entregadores e mototaxistas. Entre as condutas permitidas estão o uso de aplicativos de navegação em suporte fixo, fone em apenas um dos ouvidos e a interação com o aparelho somente com o veículo parado em local seguro e autorizado.
Permanecem proibidas ações como digitar mensagens, acessar redes sociais, tirar fotos, assistir a vídeos ou interagir com o celular fora do suporte durante a condução. Para motociclistas, o uso de fones nos dois ouvidos continua vetado, assim como qualquer operação do aparelho com a moto em movimento.
As regras seguem o Manual Brasileiro de Fiscalização de Trânsito (MBFT), que considera não infração o uso de aplicativos de localização em celulares fixados, desde que não haja manipulação durante a condução.
Liberação ilegal
Na Capital, o prefeito Sandro Mabel (União Brasil) flexibilizou no mesmo mês a regulamentação durante a condução do veículo. Na época informou que “você coloca no suporte, põe seu Waze, seu Maps. Se ele tocar, você aperta e atende no viva-voz e aí, tudo bem, não serão multados.”
Ressaltou que, no entanto, o motorista não poderá digitar ou ficar mexendo no celular com o carro em movimento. “Mas vamos autorizar o uso do suporte. Só não pode estar com o celular na mão ou no colo. Isso é perigoso e vai continuar sendo motivo de multa”, afirmou. Mas as medidas contrariam o CTB, que classifica como infração gravíssima o ato de segurar ou manusear o celular ao dirigir. A recomendação é programar o GPS com o carro estacionado e manter a atenção total na via.
Com o apoio do videomonitoramento, a fiscalização passa a contar com imagens que auxiliam na identificação de infrações e na análise do comportamento dos condutores. O foco, segundo a SET, não se restringe à punição, mas à promoção da segurança no trânsito e à educação dos motoristas e motociclistas, diante do aumento de acidentes associados à distração ao volante.