Apesar do esforço de Lula, aliança com evangélicos pode não prosperar
Líderes religiosos goianos preferem Caiado para fugir da extrema-direita, mas está longe a possibilidade de, em algum momento, apoiarem Lula
Líderes religiosos revelaram um possível caminho que os evangélicos pretendem percorrer no que diz respeito ao direcionamento de apoio a uma candidatura à Presidência da República que não seja considerada extremista.
Em Goiás, o segmento demonstra concordância com o posicionamento do chefe do Executivo goiano, Ronaldo Caiado (UB), e defende apoiar o pré-candidato, que representa uma alternativa que não reflete discursos que dialoguem totalmente com o bolsonarismo, muito menos com os valores defendidos por Lula (PT).

Apesar de um dos principais adversários do presidente da República tentar aproximação com o setor, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) não é tido, de acordo com a opinião de líderes religiosos, como melhor opção para o Palácio do Planalto.
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Caiado passou a ser cotado por evangélicos após o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), sinalizar interesse em se reeleger e, assim, dar a entender a impossibilidade de disputar as eleições presidenciais.
Com base nisso, evangélicos decidiram apoiar o governador de Goiás frente a um cenário eleitoral com a ausência de Tarcísio. Em relação à probabilidade de apoio a Lula, o que se sabe é que parte do eleitorado evangélico vê como acertada a decisão do presidente em indicar o advogado-geral da União (AGU), Jorge Messias, para assumir uma vaga como ministro no Supremo Tribunal Federal (STF).

O apoio à indicação é derivado da ideia de Messias representar o segmento evangélico, mas há quem diga que isso não foi prioridade para Lula ao escolher o advogado, pois o que realmente teria influenciado seria a vasta experiência que o AGU possui na área jurídica.
“Quanto ao nome do indicado ao posto de ministro do STF, Jorge Messias, pelo presidente Lula, o advogado contempla, sim, o segmento evangélico devido à sua formação cristã. Porém, penso que não vai alterar a posição que os evangélicos sustentam em relação ao presidente”, pondera o bispo Oídes do Carmo, presidente da Convenção Estadual dos Ministros Evangélicos das Assembleias de Deus em Goiás (Conemad-GO).
Lula e evangélicos, aliança sem futuro
A longo prazo, o que se observa é que a relação entre evangélicos com o governo Lula pode se desgastar devido à decisão político-econômica do empresariado evangélico neopentecostal em não dialogar com o que chamam de “ideologia refletida nos discursos do petista”.

No Congresso Nacional, é visível a proximidade da chamada bancada da Bíblia com bancadas ruralistas como a do agronegócio, conhecida como bancada do boi, e da defesa armamentista, a da bala, além de alianças com representantes das forças de segurança e militares.
Essa configuração que envolve a inserção de setores religiosos no Congresso e a relação dos evangélicos com bancadas de direita faz com que um possível apoio do segmento ao PT se torne algo caro para os líderes religiosos.
Isso porque a relação da bancada da Bíblia com setores de direita garante aos evangélicos a ascensão ideológica, econômica e mercadológica que faz com que o setor se torne um eleitorado prioritário para qualquer candidato.
Valores diferentes
A ligação deste campo eleitoral com a esquerda também pode custar caro para Lula, que tem um discurso voltado para a melhoria de vida dos pobres e trabalhadores, o que não compactua com ideais das bancadas descritas anteriormente.

Em entrevista ao O HOJE, o filósofo e professor Guilherme Giani explica por que uma forte ligação entre o eleitorado evangélico com Lula não vai para frente. “A tentativa do presidente em se aproximar dos evangélicos é uma tentativa de continuidade e de fortalecimento dessa aliança que se mostra muito difícil de permanecer a longo prazo, justamente porque a representatividade política e econômica desse setor evangélico faz com que dificulte a aliança muito oportunista e lucrativa da Igreja com o lulismo.”
Giani reforça a inviabilidade da relação de uma gestão progressista com campos conservadores e com religiosos. “Para quem se diz representante da esquerda, o apoio dos evangélicos se torna caro, pois o governo pode deixar pautas populares que realmente mudariam a vida do povo brasileiro”, pontua o filósofo. (Especial para O HOJE)