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segunda-feira, 26 de janeiro de 2026
Financeiro instável

Aposentadoria insuficiente empurra idosos ao endividamento em Goiás

Gastos com saúde, alimentação e contas básicas consomem a maior parte da aposentadoria e empurram idosos ao crédito

Renata Ferrazpor Renata Ferraz em 26 de janeiro de 2026
Aposentadoria
Gastos com saúde, alimentação e contas básicas consomem a maior parte da aposentadoria/Foto: Freepik

A aposentadoria, que deveria representar estabilidade e descanso após décadas de trabalho, tem se mostrado insuficiente para garantir dignidade financeira aos idosos. Uma pesquisa da Serasa, em parceria com o Instituto Opinion Box, revela que 46% dos aposentados brasileiros consideram o valor do benefício insuficiente para manter o padrão de vida, enquanto 60% seguem trabalhando para complementar a renda. Em Goiás, esse cenário se reflete diretamente no aumento do endividamento e da inadimplência entre pessoas com mais de 60 anos.

Segundo o economista Leonardo Ferraz, a perda do poder de compra está diretamente ligada à forma como os benefícios são reajustados. “A aposentadoria é corrigida pelo INPC, enquanto a maioria dos produtos e serviços do dia a dia é reajustada pelo IPCA. Esses índices não crescem no mesmo ritmo, e é justamente nessa diferença que o aposentado perde poder de compra ao longo dos anos”, explica. Ele ressalta ainda que a maioria dos beneficiários recebe apenas um salário mínimo, reajustado anualmente, enquanto despesas essenciais seguem aumentando mês a mês.

No dia a dia, o dinheiro da aposentadoria mal cobre as despesas básicas. Contas de água, energia, alimentação e, principalmente, medicamentos consomem quase toda a renda mensal. “Os gastos que mais pressionam o orçamento dos aposentados são alimentação, saúde, especialmente remédios, consultas e planos de saúde e moradia básica, como aluguel, energia e água”, destaca Ferraz. Como consequência, muitos idosos precisam escolher o que pagar e o que deixar para depois, uma decisão que frequentemente resulta em atraso de contas e uso recorrente de crédito.

A realidade de Ebis Batista, de 79 anos, ilustra esse cenário. Ele recebe um salário mínimo de aposentadoria todos os meses e depende exclusivamente desse valor para manter a casa onde mora sozinho. Logo que o dinheiro cai na conta, Ebis organiza as prioridades: farmácia, contas de consumo e supermercado. No entanto, o valor raramente é suficiente para cobrir tudo.

Hipertenso, com epilepsia e necessidade de reposição de vitaminas devido à idade, o idoso gasta parte significativa da renda com medicamentos de uso contínuo. Para conseguir se manter, ele compra remédios a prazo em uma farmácia de confiança, comprometendo antecipadamente o orçamento dos meses seguintes. Além disso, todas as despesas da casa, água, energia e alimentação que ficam sob sua responsabilidade.

O lazer, segundo ele, já não cabe no orçamento. Quando precisa comprar algum bem durável, como eletrodomésticos, a solução é parcelar. Recentemente, ao ter a televisão queimada, Ebis recorreu a um carnê com mais de 24 parcelas. “No fim, a gente paga quase duas”, lamenta. Para complementar a renda, ele recolhe latinhas, garrafas PET e realiza pequenos serviços pela vizinhança.

Aposentadoria, gastos essenciais e endividamento crescente

De acordo com a pesquisa, 50% dos aposentados já recorreram a crédito para pagar contas, sendo que 35% utilizam empréstimos para despesas consideradas essenciais. Em muitos casos, o idoso ainda ajuda financeiramente filhos e netos, o que agrava ainda mais a situação.

Para Leonardo Ferraz, a continuidade no mercado de trabalho não é apenas uma escolha, mas uma imposição econômica. “A renda é insuficiente e, por isso, grande parte dos aposentados continua trabalhando para complementar o orçamento. Mas esse cenário também revela falta de planejamento financeiro ao longo da vida e ausência de programas públicos que incentivem a educação financeira voltada para essa faixa etária”, avalia.

Esse desequilíbrio impacta diretamente a inadimplência. Dados recentes indicam que mais de 60% dos idosos recorrem a algum tipo de crédito, incluindo empréstimos consignados. Em Goiás, 67,3% das famílias estão endividadas, e em Goiânia esse índice chega a 71,8%. Entre os idosos, as principais dívidas envolvem contas básicas, cartão de crédito e empréstimos.

O economista alerta para os efeitos de longo prazo desse modelo. “Os riscos econômicos são claros: crescimento da desigualdade, maior pressão sobre os serviços públicos e sobre o sistema de saúde, já que muitos idosos precisam voltar a trabalhar em idade avançada. Isso reduz o bem-estar social e aumenta os problemas de saúde física e mental na terceira idade”, afirma.

A própria Serasa aponta que 44% dos aposentados afirmam que o risco de endividamento aumentou após a aposentadoria, e 33% enfrentam dificuldades para manter as contas em dia. O cenário levanta um alerta: sem mudanças estruturais, o futuro da Previdência pode significar deixar idosos à própria sorte.

Em Goiás, iniciativas como renegociação de dívidas via Procon, ações da Defensoria Pública para limitar descontos abusivos e programas de auxílio social amenizam parte do problema. Ainda assim, especialistas defendem que soluções duradouras passam por políticas públicas que garantam renda adequada, acesso à saúde e proteção efetiva contra o superendividamento.

Enquanto isso não acontece, para milhares de aposentados como Ebis, a aposentadoria segue sendo apenas o ponto de partida de uma luta diária para fazer o dinheiro durar até o fim do mês.

Leia mais: Pequenos empreendedores têm até 30 de janeiro para renegociar dívidas com a União

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