Mercado de trabalho ainda exclui pessoas trans no Brasil
Mesmo com avanços legais, população trans segue excluída do emprego formal
Por que, mesmo após avanços legais no reconhecimento da identidade de gênero, pessoas trans e travestis continuam enfrentando tanta dificuldade para acessar o mercado formal de trabalho no Brasil? A pergunta se impõe no contexto do Dia Nacional da Visibilidade Trans, em 29 de janeiro, e ajuda a dimensionar a distância entre direitos reconhecidos na legislação e a experiência cotidiana dessa população.
Levantamento publicado em 2023 pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada mostra que apenas 25% das pessoas trans estavam empregadas formalmente no Brasil, índice 6,8 pontos percentuais inferior ao da população geral. A desigualdade se aprofunda quando observada sob o recorte de gênero: entre mulheres trans, o percentual cai para 20,7%, enquanto entre homens trans chega a 31,1%.
A exclusão também se reflete na renda. O rendimento médio mensal de trabalhadores trans no emprego formal foi de R$ 2.707, cerca de 32% abaixo da média nacional, estimada em R$ 3.987. A concentração dessa população em setores como comércio, serviços gerais, hotelaria e alimentação, marcados por baixos salários e menor proteção trabalhista, evidencia um padrão recorrente de precarização. Segundo o instituto, a combinação entre discriminação em processos seletivos, ausência de políticas de inclusão e preconceito institucional ajuda a explicar esse cenário enfrentado por pessoas trans.
Discriminação limita o acesso de pessoas trans ao emprego formal
Para mulheres trans e travestis, a situação é ainda mais crítica. Estimativas da Associação Nacional de Travestis e Transexuais indicam que cerca de 90% recorrem à prostituição em algum momento da vida como alternativa de subsistência, diante da falta quase absoluta de oportunidades no mercado formal de trabalho.
No campo jurídico, especialistas avaliam que a distância entre avanços normativos e a realidade cotidiana permanece significativa. “Muitos casos de desrespeito ao nome social continuam ocorrendo tanto em serviços públicos quanto no setor privado, o que demonstra que o desafio vai além da regulamentação”, afirma Tamiris Melo, mestra e professora de direito. Segundo ela, práticas discriminatórias no ambiente profissional, como recusas de contratação ou tratamento constrangedor, seguem sendo frequentes. “É fundamental que organizações e profissionais entendam que negar oportunidades com base na identidade de gênero configura violação de direitos humanos. O direito ainda tem papel estratégico tanto na proteção quanto na promoção da inclusão, especialmente por meio de fiscalização, educação jurídica e combate à transfobia institucional“, continua.
As consequências da exclusão extrapolam o mercado de trabalho e atingem diretamente a saúde mental da população trans. Para a psicóloga Francinne Strobel, os indicadores econômicos revelam apenas parte da realidade. “O preconceito não se manifesta apenas em agressões diretas; ele aparece em olhares, recusas de oportunidades e invalidações da identidade, o que corrói o bem-estar emocional”, explica. De acordo com ela, a repetição dessas experiências contribui para quadros de ansiedade, depressão e baixa autoestima.
O reconhecimento da identidade de gênero, incluindo o uso correto do nome social e o respeito à expressão de gênero, é apontado como fator central para a construção da autoestima e da segurança emocional. “A capacitação de equipes, campanhas de conscientização e medidas de proteção contra discriminação são fundamentais para garantir permanência estudantil e ampliar oportunidades futuras. Educação gera pertencimento”, conclui.
A persistência da exclusão indica que o reconhecimento formal de direitos não foi suficiente para alterar práticas institucionais, rotinas corporativas e critérios de acesso ao emprego. Para a população trans, o desafio atual não está mais na ausência de normas, mas na capacidade do Estado, das empresas e da sociedade de transformar garantias legais em inclusão concreta, contínua e efetiva.
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