Quadrinhos brasileiros vivem fase madura e expansão criativa
Cena independente, academia e novos mercados redesenham a HQ nacional
Celebrado em 30 de janeiro, o Dia Nacional das Histórias em Quadrinhos relembra a primeira HQ brasileira registrada, As Aventuras de Nhô-Quim, criada por Angelo Agostini em 1869. Mais de 150 anos depois, a produção nacional vive um momento de renovação, impulsionada por artistas independentes, fanzines, financiamentos coletivos, prêmios regionais e pesquisas universitárias.
Segundo dados da Nielsen BookScan e do Observatório do Livro, o mercado de quadrinhos cresceu mais de 32% entre 2020 e 2024, com aumento expressivo de quadrinhos nacionais e de títulos independentes. A produção de HQs no Brasil vive um período de forte expansão, com destaque para a cena independente, o crescimento das graphic novels de temas sociais e a consolidação de autores já reconhecidos no exterior.
A profissionalização desse mercado também ajuda a explicar o crescimento contínuo. Segundo Alysson Drakkar, coordenador de Design Gráfico e Moda, a expansão atual vai além do aumento de leitores. “Os quadrinhos brasileiros estão se beneficiando de uma cadeia criativa mais estruturada. Plataformas digitais democratizam o acesso, editoras independentes ocupam nichos que antes não existiam e artistas conseguem construir carreira sem depender apenas dos grandes selos. Essa mudança no ecossistema tem elevado tanto a qualidade quanto a diversidade das obras”, afirma.
Além disso, o fortalecimento acadêmico tem ampliado a legitimidade cultural da nona arte. Universidades criam grupos de estudo, disciplinas e projetos de extensão voltados aos quadrinhos. Para Alysson, essa aproximação com a pesquisa dá solidez ao mercado. “Quando a academia passa a olhar para os quadrinhos como objeto de estudo, ela contribui para formar novos profissionais, preservar memória e estimular análises críticas. Isso gera um ciclo de fortalecimento que impacta diretamente na produção nacional e cria bases mais sólidas para o futuro do setor”, explica.
Premiações como o Troféu HQMIX reforçam a vitalidade criativa nacional, enquanto artistas brasileiros ganharam novo impulso internacional, como Bilquis Evely, vencedora do Eisner Awards em 2025, considerado o maior prêmio de quadrinhos do mundo. Ao mesmo tempo, a maior presença de obras brasileiras em festivais e listas, aliada ao fortalecimento de editoras independentes e de modelos como o financiamento coletivo, abriu um novo cenário para produções autorais.
Para Alysson, o momento é de consolidação e maturidade do mercado. “Estamos vivendo uma fase especialmente fértil. Temos obras premiadas, novos talentos surgindo todos os anos e uma cena independente pulsante. Os quadrinhos brasileiros nunca estiveram tão diversos, tão politizados e tão conectados com debates contemporâneos”, reafirma.
Quadrinhos goianos
Em Goiás, o movimento quadrinístico acompanha o ritmo nacional de crescimento. A cena local tem sido marcada por coletivos criativos, eventos de cultura pop e iniciativas universitárias que fortalecem a formação de novos artistas. Nos últimos anos, o estado se consolidou como um polo de produção autoral, com destaque para feiras como a GO!HQ, o Artist’s Alley da Campus Party Goiás e encontros organizados por editoras independentes. Esse ecossistema ampliou a circulação de obras, aproximou público e artistas e impulsionou o surgimento de estilos e narrativas próprias do Centro-Oeste, como a quadrinista Cátia Ana, com o personagem gatito, Vitor Karrijo, com Ícarus, e o Edgar Franco, conhecido como ciberpajé.
Segundo Alysson, esse crescimento tem relação direta com o amadurecimento da comunidade criativa. “Goiás vive um momento único: temos artistas experimentando novos formatos, professores que integram HQs ao ensino e uma cena independente que movimenta cultura, economia e pesquisa. A diversidade temática e a abertura para pautas sociais e ambientais se refletem tanto no interesse dos leitores quanto no engajamento dos novos autores”, afirma. O docente também destaca o papel das instituições de ensino e eventos culturais na formação de leitores críticos e criadores mais profissionalizados.
Alysson reforça ainda que o estado tem ganhado visibilidade fora de suas fronteiras. “Hoje vemos autores goianos sendo convidados para mesas nacionais, participando de coletâneas e concorrendo a prêmios importantes. Isso mostra que a produção local não é apenas relevante, mas competitiva e inovadora”, avalia. Para ele, o próximo passo é ampliar políticas de fomento e espaços de exposição, criando um ciclo sustentável entre formação, produção e reconhecimento, e consolidando Goiás como uma das regiões mais vibrantes do quadrinho brasileiro.
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