Dívida milionária do Paço agrava tratamento de radioterapia no Araújo Jorge em Goiânia
Dívidas somam mais de R$ 37 milhões no Fundo Municipal de Saúde e comprometem o funcionamento do único serviço de radioterapia do Estado
Pacientes em tratamento contra o câncer no Hospital Araújo Jorge, em Goiânia, enfrentam uma rotina marcada por longas horas de espera para sessões de radioterapia, situação que se arrasta há meses e tem relação direta com problemas estruturais e financeiros da unidade. Como já denunciado pelo Jornal O Hoje, há relatos de pacientes que aguardam mais de cinco horas para realizar procedimentos que duram, em média, entre 15 e 20 minutos, ampliando o sofrimento físico e emocional de quem já está fragilizado pela doença.
Dívida herdada e repasses em atraso pressionam a rotina do hospital
O cenário se agrava diante da dívida acumulada da Prefeitura de Goiânia com o hospital, que ultrapassa R$ 37,2 milhões em repasses do Fundo Municipal de Saúde. Em nota enviada à reportagem, o Hospital Araújo Jorge informou que o valor em aberto é composto por R$ 26,6 milhões referentes a emendas e incentivos e outros R$ 10,6 milhões relativos a serviços prestados diretamente ao Sistema Único de Saúde (SUS). Os débitos abrangem o período de 2020 a 2024 e, segundo a própria administração municipal, são anteriores à atual gestão, mas seguem impactando a rotina da instituição filantrópica.
Em resposta ao O Hoje, a Secretaria Municipal de Saúde de Goiânia (SMS) afirmou que a atual gestão herdou R$ 24,3 milhões em dívidas com o Hospital Araújo Jorge. Ainda segundo a pasta, no ano passado foi firmado um acordo com a instituição, estabelecendo um cronograma de pagamento do montante em 25 parcelas, com valores que variam entre R$ 700 mil e R$ 1 milhão. Até o momento, já teriam sido repassados R$ 8,9 milhões ao hospital, e a SMS garante que os pagamentos seguem sendo realizados conforme o cronograma estabelecido.
A secretaria também esclareceu que os valores transferidos ao Hospital Araújo Jorge pelo Fundo Municipal de Saúde variam de acordo com a produtividade da instituição, o que influencia diretamente o volume mensal dos repasses. Apesar disso, na prática, os reflexos da limitação financeira aparecem nos corredores do hospital, onde pacientes debilitados relatam cansaço extremo, dores intensas e desgaste emocional após longas horas de
Longas esperas agravam sofrimento de pacientes em tratamento oncológico no Hospital Araújo Jorge

A aposentada Maria Rosa, de 65 anos, em tratamento contra um mieloma múltiplo na coluna, afirma que raramente é atendida no horário agendado. “Meu horário é sempre às 13h, mas quase nunca consigo fazer a sessão nesse horário. Muitas vezes só entro perto das seis da tarde. Ficar sentada tanto tempo, com dor, é muito difícil”, relata. Segundo ela, os profissionais se esforçam, mas a estrutura não acompanha a alta demanda.
Atualmente, o setor de Radioterapia do Araújo Jorge opera com apenas três aceleradores lineares para atender, em média, cerca de 315 pacientes por dia, com funcionamento das 6h até as 3h da madrugada. Por se tratar do único serviço de radioterapia em Goiás, a unidade recebe pacientes de todas as regiões do Estado. Tratamentos mais complexos demandam mais tempo de uso dos equipamentos, o que provoca atrasos sucessivos ao longo do dia, mesmo com a tentativa de organização por meio de murais informativos.
Estrutura limitada e alta demanda desafiam o único serviço de radioterapia do Estado
Em nota, o hospital reconheceu as limitações e ressaltou que os recursos repassados pelo SUS não são suficientes para cobrir integralmente os custos e a manutenção do serviço. A instituição afirmou ainda que adota medidas para minimizar os impactos, como ajustes nos fluxos de atendimento, otimização das agendas e captação contínua de recursos por meio de doações. Também informou que estão em andamento processos para aquisição de dois novos aceleradores lineares e ampliação do parque tecnológico, por meio de programas federais como o Pronon e o Persus.
Com 70 anos de atuação, o Araújo Jorge destacou que os atrasos não decorrem de falhas profissionais e reforçou o compromisso em garantir um atendimento seguro, eficiente e humanizado. Ainda assim, pacientes e familiares cobram uma atuação mais efetiva do poder público e defendem que a regularização dos repasses financeiros é essencial para melhorar a estrutura, reduzir o tempo de espera e assegurar dignidade a quem enfrenta a dura batalha contra o câncer.
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