PSD dá a Caiado capilaridade e ganha substância e discurso
Partido do ultracacique Kassab faz onda com outros quatro presidenciáveis, mas com o goiano à frente há mais possibilidade de atingir seus objetivos: liderar o Centrão, reeleger Tarcísio em SP e continuar de bem com Bolsonaro
Tem aquela do governador mineiro segundo o qual a política é igual a nuvem, a cada vez que se olha está de um jeito. Naquela época de Magalhães Pinto (1996), o PSD era diferente. Famoso também por suas relações com a deusa Vera Fischer e o piloto Ayrton Senna, o fundador do Banco Nacional diria hoje que o PSD é igual a um tufão, cada hora está provocando maremoto num lugar. Antes de Goiás, de onde levou Ronaldo Caiado, passou por Rio Grande do Sul e Pernambuco, nesta semana fisgou o de Rondônia e passou meia dúzia os dois governadores que havia feito em 2022.
O sistema arrasa-quarteirão, que Kassab adaptou para arrasa-unidade da federação, filiou o vice-governador de Minas Gerais, o goiano (nascido em Gurupi, antes da separação do Tocantins) Mateus Simões, e o ex-governador José Roberto Arruda, que deseja novamente comandar Brasília. Em meio a tudo isso, com esse tanto de antipetista, o PSD ainda consegue a proeza de continuar com três ministros no governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. E não é demais lembrar que o próprio Kassab é o principal auxiliar de Tarcísio de Freitas em São Paulo, como secretário de Governo.
Ciência política na prática
Caiado vai ter de colocar em prática tudo o que leu de ciência política e teoria administrativa, senão será mais uma sigla a lhe dar apenas canseira. Em verdade, o que leu de Nicolau Maquiavel, o italiano famoso por escrever “O Príncipe”, o governador de Goiás começou a aplicar já na reunião com Kassab. Observe-se que ninguém perdeu coisa alguma, ficou o tal jogo do ganha-ganha. O PSD ganhou um personagem com tudo para ser protagonista, pois tem discurso, credibilidade, a maior aprovação de Executivo no Brasil, a distinção de ser o gestor de segurança pública funciona, além de dominar o nicho do agro como nenhum outro político brasileiro.
Do partido, Caiado adquiriu capilaridade. Foi o campeão das eleições municipais, com 887 prefeitos. Há uma espécie de domínio das regiões mais ricas. No Sudeste, além do goiano vice de Zema, que tomará posse em abril, o favorito para governar o Rio de Janeiro, Eduardo Paes, é do PSD, e tem o próprio Kassab em São Paulo. No Sul, os dois governadores, Ratinho Jr. (PR) e Eduardo Leite (RS). Vai bem até no Nordeste, como no Pernambuco e na Bahia.
Ninguém perdeu, todos ganharam
Caiado vai reunir essa fauna toda? É provável que TODA, não. Mas é certo que algum tanto, sim. No tal jogo do ganha-ganha, Caiado não perdeu seu antigo partido, o União Brasil, que fez federação como PP. Sua mulher, Gracinha Caiado, vai presidir o UB em Goiás e grande parte da reunião das duas siglas vai apoiá-lo. O que o governador goiano mais conseguiu foi ter a seu lado um sujeito de palavra, que honra o que fala, produto em falta no UB nacional. O que Kassab lhe prometeu, e apenas os dois sabem, será cumprido.
Outra missão que PSD e Caiado atingiram quando se acoplaram foi continuar intactos em seu quinhão de bolsonarismo. Os radicais não aceitam qualquer coisa menos que Jair Bolsonaro, seus filhos ou sua mulher, porém o próprio núcleo familiar passa pelo desafio de andar unido – o que é normal para quem convive com parente, os Bolsonaros são seres humanos iguais a nós. Michelle de Paula Bolsonaro preside o PL Mulher nacional e defende com vigor as candidaturas femininas, principalmente ao Senado. Por isso, acaba de arrumar encrenca com o ex-vereador carioca Carlos Bolsonaro, que mudou de endereço eleitoral para ser candidato ao Senado em Santa Catarina. Ali já estava a deputada federal Carol de Toni, que nesta quarta-feira (4) avisou que vai deixar o PL para ter a chance de concorrer com Carlos. Entre os dois, quem Michelle prefere? Começa com C. E não é Carlos.
Foi disso que Caiado escapou, de um partido em que o presidente não manda – quem governa o PL é Jair Bolsonaro, mesmo preso. No PSD, o dono é Kassab, que acumula o cargo de CEO, monarca e príncipe-regente. Aos poucos – ou aos muitos –, Caiado vai se ambientando na nova casa, pois de qualquer forma Tarcísio e Kassab dependem dele para ganhar votos no interior de São Paulo (na região de Ribeirão Preto até São José do Rio Preto, divisas com Minas, Goiás e Paraná, Ronaldo Caiado é tão conhecido quanto Tarcísio e muito mais que Kassab).
Em Minas, Caiado também será decisivo, inclusive em cidades importantes como Uberaba. O mesmo vale para Rio Grande do Sul, Paraná, Santa Catarina, os dois Mato Grosso, o Norte inteiro. Além do apoio no campo, Caiado tem a oferecer a esperança de cidades seguras, tranquilidade pretendida de Norte a Sul do País, sobretudo nas capitais nordestinas (Recife, Fortaleza e Salvador), a Grande Rio, a Grande São Paulo, Manaus e Belém. Então, a expectativa é saber quando Kassab vai reconhecer que ganhou na Mega da Virada quase um mês depois do sorteio. (Especial para O HOJE)