Pragmatismo da centro-direita enfraquece pré-candidatura de Flávio
Foco na formação de bancadas no Congresso afasta partidos de centro do projeto presidencial bolsonarista
Não é novidade que a pré-candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) pouco empolgou os partidos da centro-direita. A escolha do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) em lançar o filho 01 e não o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), desagradou a cúpula do Centrão, que resultou em novas articulações afastadas do nome bolsonarista.
O jornal Folha de S.Paulo revelou que o presidente do PP, senador Ciro Nogueira (PI), se reuniu com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no fim do ano passado. A conversa entre o senador e o presidente foi em torno de um possível acordo: Lula facilitaria a reeleição de Ciro no Piauí e, em troca, o parlamentar afastaria o PP da pré-candidatura de Flávio.
O tom da conversa não foi discutir um apoio mútuo, mas uma atuação eleitoral de cordialidade entre as partes. Lula apoiaria apenas o senador Marcelo Castro (MDB-PI) no Estado, o que ajudaria Ciro a ser reeleito na segunda vaga. Dessa forma, o PP ficaria neutro nas eleições presidenciais.
Além de afastar o PP da pré-candidatura de Flávio, a negociação aumentaria a lista de partidos de centro que se distanciaram do projeto bolsonarista. Outro exemplo é o PSD de Gilberto Kassab, que trabalha para lançar um candidato ao Palácio do Planalto. A legenda intensificou as conversas de candidatura própria desde que o senador recebeu o apoio do pai para ser candidato, e não Tarcísio, que era o favorito de Kassab.
Com três pré-candidatos, os governadores Ronaldo Caiado, Ratinho Júnior (PR) e Eduardo Leite (RS), o PSD também articula para que o MDB caminhe junto da legenda nas eleições deste ano. Os emedebistas são mais um dos integrantes de partidos distantes de Flávio, já que a legenda presidida pelo deputado Baleia Rossi (SP) negocia, além do PSD, com o PT de Lula.
Reflexo do fisiologismo
O cientista político Jones Matos avalia que a conjuntura posta é reflexo do fisiologismo dos partidos de centro-direita. “Os grandes partidos trabalham para manter a bancada que tem no Congresso e também para poder ter força política no próximo governo, seja qual for”, afirma Matos à reportagem do jornal O HOJE.
“Boa parte desses partidos de centro e centro-direita são fisiológicos e participam de qualquer governo, não importando se é de esquerda ou de direita.Se a candidatura do Flávio não se consolidar, a tendência é que ele fique sozinho. Os partidos vão buscar outras alternativas”, destaca Matos.
Para o cientista político, a dificuldade das candidaturas de oposição ao presidente da República é o enfrentamento da máquina pública. “Como a candidatura do atual presidente tem capilaridade e mais força política, evidentemente que o governo tem muito mais a acrescentar para os partidos, até porque está no poder, do que quem for disputar com o Lula. A dificuldade das candidaturas de oposição ao presidente da República é essa.”
Centro se preocupa com o Congresso
Matos analisa que o real interesse dos partidos do Centrão está concentrado na disputa pelo Congresso Nacional. “Os partidos estão tentando se reorganizar para manter ou ampliar as bancadas, especialmente na Câmara dos Deputados, que determina o Fundo Partidário, o Fundo Eleitoral e o tempo de TV de cada partido”, diz o cientista político.
“Todos os partidos vão buscar fazer acordos para garantir a reeleição deste ou daquele senador ou deste ou daquele deputado. Para isso, vão sacrificar candidaturas majoritárias e, talvez, a Presidência da República. Flávio Bolsonaro terá esse desafio, que é convencer esses partidos de que sua candidatura tem viabilidade”, frisa Matos. (Especial para O HOJE)