O que aconteceu com Zé Pilintra na Quarta-feira de Cinzas?
Narrativa popular das religiões afro-brasileiras associa a data à morte simbólica e à transformação espiritual da entidade da malandragem
Na cultura popular e nas religiões afro-brasileiras, a Quarta-feira de Cinzas não representa apenas o fim do Carnaval e o início da Quaresma no calendário cristão. Para muitos devotos, a data também está associada a uma das narrativas mais conhecidas envolvendo Zé Pilintra, entidade espiritual ligada à chamada linha da malandragem.
A história, difundida em tradições orais e pontos cantados nos terreiros, relata que Seu Zé teria sido morto durante o Carnaval. A cena é descrita como uma noite de temporal na Quarta-feira de Cinzas, com a notícia estampando jornais e se espalhando pelas ruas. A narrativa destaca a ironia de que o malandro, conhecido por não temer adversários, teria sido surpreendido por uma mulher, frequentemente identificada como Maria Navalha.
Mais do que um episódio trágico, o relato é interpretado pelos praticantes como um marco simbólico. A “morte” representaria o encerramento de um ciclo de boemia e excessos carnavalescos, abrindo caminho para uma transformação espiritual. A partir desse momento, Zé Pilintra deixaria de ser apenas uma figura ligada às ruas para assumir plenamente sua condição de entidade de luz, guia e protetor.
Quem é Seu Zé

Zé Pilintra tem origem no Catimbó-Jurema, tradição religiosa do Nordeste brasileiro, e foi incorporado à Umbanda e ao Candomblé como mestre e guia espiritual.
Nas representações mais conhecidas, aparece vestido de terno branco, gravata vermelha e chapéu panamá — símbolos associados à elegância, à malandragem e à presença marcante.
Dentro dos terreiros, é considerado intermediário entre o mundo espiritual e o material, atuando como conselheiro. Sua atuação está ligada à orientação em questões do cotidiano, como trabalho, dificuldades financeiras, conflitos pessoais e abertura de caminhos.
Devotos atribuem a ele características como franqueza, senso de justiça e proteção aos marginalizados. A linha da malandragem, da qual faz parte, trabalha temas relacionados à vida prática, disciplina, responsabilidade e escolhas individuais.
Nesse contexto, a Quarta-feira de Cinzas ganha um significado adicional: além de marcar o início de um período de reflexão no cristianismo, simboliza também renovação, resistência e continuidade da fé após os excessos do Carnaval.