Chapa do governo está definida? Não enquanto Caiado se define
Governador é firme em suas posições e repete que de forma alguma vai desistir da candidatura à Presidência da República, mas ele mesmo acostumou seu público com a valorização da praticidade
O candidato de Ronaldo Caiado (PSD) a governador em 2026 foi escolhido cinco anos antes, quando chamou Daniel Vilela (MDB) para ser seu vice. Nesta terça-feira, definiu que a chapa terá três senatoriáveis, um de cada grande partido da base, Gracinha Caiado (União Brasil), Zacharias Calil (MDB) e Vanderlan Cardoso (PSD). Tudo certo, né? Bom, mais ou menos. Ainda falta observar o comportamento do eleitor brasileiro com a polarização para presidente da República. Pelo andar da bicicleta cargueira, a polarização vai voar de B-52 e quem ficar fora terá de correr atrás a pé.
Ao escolher seu candidato para concorrer com Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o antecessor, Jair Bolsonaro (PL), queria atribuir ao filho Flávio (PL), senador pelo Rio de Janeiro, apenas a missão de mostrar que a família não poderia ficar fora. Nas semanas anteriores, falava-se em chapa da direita com o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), para presidente e diversas alternativas para acompanhá-lo, como seus colegas de Goiás (Caiado), Minas Gerais (Romeu Zema) e Paraná (Ratinho Jr.). Até o presidente nacional do PP, senador Ciro Nogueira (PI), sonhava com a vaga. Epa!, cadê a palavra Bolsonaro nessas articulações? Havia ficado fora. Jair deu um tranco no esquecimento de seus supostos aliados e, sem consultar qualquer deles, lançou Flávio.
O que Bolsonaro mais quer, Caiado topa
O filho de Jair chegou a falar em ser substituído por alguém que respeitasse a biografia do pai e continuasse suas obras, além de a 1º de janeiro de 2027 indultar a turma do 8 de Janeiro, Jair incluído (Caiado topa, como repetiu na Avenida Paulista em São Paulo, no último domingo). Até aí, eram altas as possibilidades dos governadores da direita. No entanto, começaram a aparecer pesquisas, cada qual melhor que a outra para Flávio. A ideia de Jair dera mais certo do que qualquer perspectiva otimista. Quando os concorrentes internos na direita acordaram, perceberam que o pesadelo era real: se quisessem mandato, teriam de ser candidatos ao Senado em suas respectivas bases.
Essa conclusão não servia para Caiado, que em todas as oportunidades confirmou a pretensão de concorrer à Presidência da República ou a nada. Ficar no cargo até dezembro? De forma alguma, Daniel já está pronto para assumir. Ser candidato a senador? De jeito nenhum, Gracinha já está pronta para se candidatar. Ser vice de Flávio Bolsonaro? Calmaê, pera lá, a vinda do escolhido a Goiás para conversar com Caiado não foi para tratar disso. Mas tratou? Além dos dois, apenas as paredes dos palácios para contar – e elas, até onde se sabe, não têm escuta, muito menos falas.
Esperou 16 anos para disputar mandato majoritário
Desde que começou na política, ainda servindo aos produtores rurais como líder classista, Caiado é muito cioso quanto às aparições nas urnas. Para ele, deve-se entrar na disputa para ganhar, pois do contrário seria trair seu eleitor com jingles e outras invencionices tentando convencer de possibilidades irreais. É um homem prático, firme em suas decisões, deixa os devaneios para quem deseja a derrota, sobretudo para cargos majoritários.
Nos longos períodos à frente de partidos (PFL, DEM e não se sabe se está presidente do PSD), Caiado não nutria a ilusão dos abestados que queriam ser prefeitos e não contavam com qualquer chance. Ele mesmo poderia ter sido candidato a governador ou a senador quatro vezes (1998, 2002, 2006, 2010) e preferiu dar o tiro quando o alvo estava a seu alcance, o que ocorreu nas últimas três eleições, nas quais obteve três cargos majoritários com triunfos retumbantes, senador em 2014, governador em 2018 e 2022, ambos em 1º turno.
Nada há de errado em tentar ou desistir
Nada há de errado ou feio em aplicar para si o que recomenda aos demais. A chapa está com candidatos múltiplos, ou seja, já ultrapassou em pretendentes (três) o número de vagas ao Senado (duas). Cada partido pode lançar dois nomes, seu PSD já tem Vanderlan, pode ter Ronaldo Caiado. Seria ruim para o Estado ter marido e mulher em duas das três cadeiras no Senado? Essa resposta quem deve dar é o eleitor – nas urnas. Não apenas em Estados periféricos, até no poderoso São Paulo já houve casal exercendo mandato no Senado ao mesmo tempo: Eduardo Suplicy (PT) e Marta Suplicy (PT, MDB).
Nada há de errado em Gracinha ser suplente de Ronaldo. Os próprios caiadistas dizem nos bastidores que, em caso de vitória de Flávio, o governador de Goiás seria ministro da Segurança Pública para repetir no País a revolução da tranquilidade que conquistou no Estado. Também nada há de errado em Gracinha ir a deputada federal e o marido ao Senado, conforme já houve em diversos Estados e em Goiás mesmo, com Irapuan Costa Jr. e Lúcia Vânia.
Nada há de errado em ser vice de Flávio, que ganharia muito com o companheiro de chapa sendo do agro, estando de bem com o interior de São Paulo, Minas, Paraná e Rio Grande do Sul. Um vice sem desgaste com o discurso da segurança bem feita e eficaz, poupando vidas e patrimônio.
Nada há de errado em Caiado manter a busca pela realização do sonho de ser presidente da República. Esta pode ser a última chance, não apenas pela idade e a saúde, igualmente porque o lado do espectro ideológico que defende está sem um líder natural.
Portanto, nada está definido até Ronaldo Caiado se definir. Difícil, viu. E não tem até agosto. Talvez até tenha, hein… (Especial para O HOJE)