Etanol recua em Goiás, mas tensão no Oriente Médio ameaça nova alta nos combustíveis
Queda nos preços do etanol anima motoristas goianos, mas risco de bloqueio no Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% do petróleo mundial, pode pressionar gasolina, diesel e inflação
O consumidor goiano vive um momento de alívio momentâneo nas bombas, mas mantém os olhos voltados para o cenário internacional. Enquanto o preço do etanol registra quedas significativas em diversas regiões do Estado, a escalada das tensões no Oriente Médio acende um sinal de alerta para o setor de combustíveis e para o agronegócio. A principal preocupação está no Estreito de Ormuz, rota estratégica por onde circula cerca de 20% de todo o petróleo produzido no mundo. Qualquer interrupção nesse fluxo pode reverter a tendência de baixa observada nas últimas semanas e pressionar a inflação interna.
Nas últimas semanas, motoristas em Goiás foram surpreendidos positivamente pela redução nos valores, especialmente do biocombustível. O litro do etanol hidratado tem variado entre R$ 3,95 e R$ 4,89 em diferentes estabelecimentos do Estado. Em Goiânia e na Região Metropolitana, alguns postos chegaram a vender o produto por R$ 3,99, um recuo considerável frente à média da semana anterior, que superava R$ 5,20.
De acordo com o Sindicato do Comércio Varejista de Derivados de Petróleo no Estado de Goiás (Sindposto-GO), a redução decorre de uma combinação de fatores: queda nos custos de aquisição, níveis de estoque das distribuidoras e forte concorrência local. Soma-se a isso a realização de promoções agressivas por parte de muitos postos, em uma tentativa de reaquecer as vendas, já que o consumo apresentou retração em relação ao mesmo período do ano passado.
Pesquisa da ValeCard indica que, na região Centro-Oeste, Goiás foi a única unidade da federação a registrar queda no preço do etanol em fevereiro (-0,28%). No Distrito Federal, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, o combustível apresentou alta. Especialistas, porém, alertam que a redução ainda não é generalizada e depende das estratégias de repasse adotadas por cada distribuidora, além da localização do posto.
Cenário internacional afeta o valor do etanol
Apesar do alívio local no valor do etanol, o mercado internacional vive dias de forte apreensão desde o último sábado (28), quando novos conflitos eclodiram no Oriente Médio envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã. O foco das atenções é o Estreito de Ormuz, localizado no Golfo Pérsico. A ameaça de fechamento da rota pelo Irã é considerada o principal risco à estabilidade dos preços globais de energia.
Segundo o diretor de Mobilidade e Operações da ValeCard, Marcelo Braga, qualquer restrição prolongada na região afeta diretamente a cotação do barril do tipo Brent. Como o Brasil ainda depende da importação de parte da gasolina e, sobretudo, do óleo diesel que consome, uma alta internacional tende a gerar repasses ao mercado interno, em razão da política de preços atrelada à paridade internacional e ao câmbio.
Até o momento, nenhum reflexo direto do conflito foi percebido nos preços finais em Goiás. Ainda assim, o varejo demonstra preocupação com a reposição dos estoques nas próximas semanas. Caso o petróleo registre alta sustentada, gasolina e diesel devem sentir o impacto primeiro, seguidos pelo etanol.
Embora o etanol tenha dinâmica própria, ligada ao ciclo da cana-de-açúcar e à safra interna, não está imune às crises globais. O biocombustível sofre influência indireta da gasolina: quando o combustível fóssil encarece, cresce a demanda pelo álcool, pressionando seu valor. Além disso, o etanol anidro compõe 30% da mistura da gasolina comercializada no Brasil, criando um elo direto na formação de preços.
O agronegócio goiano também acompanha o cenário com cautela. A instabilidade internacional pode elevar custos de produção de forma ampla. “A possibilidade de alta nos preços do petróleo, dos fertilizantes e do frete internacional preocupa”, aponta o Instituto para o Fortalecimento da Agropecuária de Goiás (Ifag). Para os produtores, o aumento do diesel impacta diretamente a logística e o transporte da safra, enquanto a tensão geopolítica pode encarecer insumos importados e reduzir margens de lucro.
O mercado agora aguarda a intensidade e a velocidade de eventual impacto nas bombas. Internamente, o etanol segue pressionado pela entressafra da cana, período de menor oferta que tende a sustentar preços mais elevados. Por outro lado, a expectativa de um novo ciclo produtivo com mix mais voltado ao álcool pode contribuir para segurar valores no médio prazo.
Ainda assim, a balança permanece sendo o ambiente internacional. Se a escalada militar no Golfo Pérsico persistir, a tendência de queda observada em Goiás pode ser rapidamente revertida por novos reajustes em refinarias e distribuidoras. Para o consumidor, a orientação é aproveitar os preços atuais e acompanhar o noticiário, já que a volatilidade deve marcar o cenário econômico de março.