Coluna

A economia brasileira, a crise na Argentina e o ministro especialista em engolir moscas

Publicado por: Sheyla Sousa | Postado em: 13 de setembro de 2019

Reza
o velho dito popular que em boca fechada não entra mosca. Pois o ministro
favorito dos mercados no Brasil tem se especializado, nas últimas semanas, em
engolir moscas. Afora ataques misóginos, gratuitos e extremamente deselegantes,
o ministro “engole-moscas” decidiu que a Argentina não tem a menor importância
quando se trata de avaliar as perspectivas de crescimento da economia
brasileira. “Desde quando o Brasil precisa da Argentina para crescer?”,
disparou ele num evento em São Paulo no mês passado, quando questionado sobre
os efeitos da crise no país vizinho sobre o País. O desprezo refletia, na
verdade, falta de conhecimento, incapacidade de trabalhar com relações
complexas na área econômica e menosprezo pelos dados, numa arrogância típica de
economistas que dedicam suas vidas a multiplicar a própria fortuna no cassino
financeiro.

Pois
o ministro “engole-moscas” acaba de ser desautorizado pelo trabalho
desenvolvido por duas jovens economistas, estas sim preocupadas com o que os
dados têm a dizer a respeito da crise que voltou a martirizar a Argentina desde
o ano passado. Num trabalho divulgado na sexta-feira no Blog do Ibre, as
pesquisadoras Luana Miranda e Mayara Santiago, do Instituto Brasileiro de
Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV), mostram que sim, a economia
brasileira não só tem muito a perder como vem perdendo desde que nosso vizinho
iniciou seu mergulho por volta de meados do ano passado.

Os
impactos começam pelas exportações, especialmente concentradas em manufaturas,
peças e acessórios para o setor de manufaturas, e vão além, alcançando a
atividade industrial em seu conjunto, o comércio protagonizado por empresas do
setor industrial, o setor de transportes, a arrecadação de impostos e, claro, o
Produto Interno Bruto (PIB) aqui dentro. Paulo Guedes, o “engole-moscas”,
perdeu mais uma preciosa oportunidade de manter-se calado.

Efeitos em
cadeia

Luana,
mestre em economia pela FGV, com especialização em macroeconometria, e Mayara,
formada pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e mestrando em
economia pela mesma FGV, construíram um modelo que permite inferir quanto a
economia brasileira teria crescido não fosse atingida pela crise no país
vizinho. Esse modelo considera a evolução dos volumes exportados pelo Brasil
para a Argentina e da taxa de câmbio real entre os dois países. As
pesquisadoras alimentaram seu modelo econométrico com aquelas variáveis e
identificaram qual a parcela do crescimento da indústria brasileira de
transformação não poderia ser explicada pelo comércio internacional com a
Argentina.Além disso, para projetar os impactos esperados para o terceiro e
quarto trimestres deste ano, estimaram o crescimento esperado para os volumes
das exportações para a Argentina tomando como base o cenário desenhado pelo
Fundo Monetário Internacional (FMI) para a demanda doméstica naquele país. Os
resultados mostram efeitos em cadeia sobre a indústria brasileira, criando
novas dificuldades para uma economia que não tem conseguido deslanchar quase
três anos após o fim da recessão.

Balanço

·  
No
ano passado, conforme os cálculos de Luana e Mayara, o valor adicionado da
indústria de transformação poderia ter crescido 2,2% ou cerca de 0,9 pontos de
porcentagem a mais do que o resultado de fato registrado pelo setor (1,3%).

·  
Para
este ano, diante de uma projeção de 0,2% feita pelo Ibre mais recentemente, o
PIB do setor de transformação teria condições de avançar, em situação normal,
algo em torno de 2,1%. O estrago aqui seria, portanto, de 1,9 pontos de
porcentagem.

·  
“Contudo,
para compreendermos o que isso significa em termos de PIB, precisamos avaliar
os efeitos secundários da indústria de transformação sobre os demais
componentes do PIB pelo lado da oferta, como comércio, transportes e impostos”,
ponderam as duas pesquisadoras.

·  
Luana
e Mayara lembram que a atividade industrial influencia o comércio e os
transportes, já que a produção precisa ser vendida e transportada, além de
impactar a arrecadação de impostos. Em torno de 60% dos impostos arrecadados,
lembram elas, “são provenientes da indústria de transformação”. Muito
evidentemente, quanto mais cresce a indústria, maior o avanço das receitas no
setor público (e vice-versa).

·  
Nessa
análise, o comércio perdeu algo como 0,4 pontos de porcentagem em 2018 e tende
a crescer neste ano um ponto abaixo do que poderia, sem o “efeito Argentina”.
No setor de transportes, o crescimento teria sido 0,3 pontos mais baixo em 2018
e deverá ser 0,8 pontos menor neste ano.

·  
No
caso dos impostos, analisados aqui sob o ponto de vista das contas nacionais
(quer dizer, do PIB), o avanço de 1,4% observado em 2018 poderia ter alcançado
1,8% (0,4 pontos a mais). Para este ano, estima-se elevação de 1,3% ou um ponto
a abaixo do crescimento potencial, dadas as condições presentes na economia
brasileira atualmente.

Ao fim e ao cabo, o PIB, que variou 1,1% em
2018, poderia ter crescido um tiquinho a mais (1,3% ou 0,2 pontos acima do
observado). Para este ano, a diferença tende a ser de 0,5 pontos, com avanço de
1,1% esperado e possibilidade de incremento de 1,6%. 

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