Coluna

A operação do Mossad que “lembra” a busca pelo assassino Lázaro em Goiás

Publicado por: Marcelo Mariano | Postado em: 21 de junho de 2021

Marcelo Mariano*

Assim como Lázaro, o líder do grupo terrorista Setembro Negro despistou seus caçadores diversas vezes
Assim como Lázaro, o líder do grupo terrorista Setembro Negro despistou seus caçadores diversas vezes | Foto: Pablo Jacob/Agência O Globo

Em 1973, o Mossad, serviço secreto de Israel, enviou uma equipe de espiões, que contava com o judeu brasileiro Zvi Steinberg, a Lillehammer, uma pequena cidade da Noruega, para capturar Ali Hassan Salameh, líder do grupo terrorista Setembro Negro.

Mas o que isso tem a ver com a busca pelo assassino Lázaro Barbosa em Goiás? Pouca coisa, admito. Por isso, no título, coloco a palavra “lembra” entre aspas. É válido, porém, fazer uma reflexão sobre essas duas operações.

Diferentemente de Lázaro, que tem quase 300 policiais à sua procura, Salameh tinha menos de 30 agentes do Mossad. Uma equipe bem menor, mas altamente treinada, como conta Eric Frattini no livro “Mossad, os carrascos do Kidon: a história do temível grupo de operações especiais de Israel”.

Por outro lado, assim como Lázaro, Salameh, que comandava o grupo responsável pelo massacre contra atletas israelenses nas Olimpíadas de Munique em 1972, despistou seus caçadores diversas vezes.

“Em junho de 1973, Salameh iniciou uma campanha de desinformação com os israelenses”, escreve Frattini em seu livro. “As estações de inteligência israelense começaram a informar o Mossad de que Ali Hassan Salameh fora visto em Paris, Londres, Zurique e em um país escandinavo.”

“No final de julho desse mesmo ano”, prossegue o autor, “os agentes da Ira de Deus [nome da operação para assassinar os envolvidos no massacre de Munique] estavam exaustos devido às contínuas viagens por toda a Europa na tentativa de localizar o responsável pelo Setembro Negro”.

Os agentes, então, chegaram a Lillehammer, cidade de 20 mil habitantes, onde, nos últimos 40 anos, não tinha se registrado um único assassinato. Na noite de 21 de julho de 1973, o Mossad acabou com toda essa calmaria.

No meio da rua, os agentes mataram um homem que acreditavam ser Ali Hassan Salameh, mas era Ahmed Bouchiki, um garçom argelino que voltava para casa depois de ver um filme com sua esposa norueguesa grávida.

Israel reconheceu que Bouchiki não era terrorista só em 1996. Torill, sua viúva, e Malika, sua filha, receberam uma indenização. No dia do assassinato, alguns agentes conseguiram fugir. Outros, foram presos.

Segundo Frattini, este foi “um dos maiores desastres de que se tem lembrança em toda a história do Mossad”. Salameh, na verdade, estava na Suécia e, quando tomou conhecimento do ocorrido em Lillehammer, soube que o alvo era ele.

O Mossad só conseguiu matar o líder do Setembro Negro em 1979, no Líbano. Espera-se, claro, que não demore tanto tempo para capturar Lázaro nem que ele fuja para outro lugar – no momento em que escrevo, as buscas continuam.

Para os que pedem rapidez dos policiais, convém lembrar que, mesmo em equipes altamente treinadas, pode haver erro, especialmente em caso de precipitação baseada em informações equivocadas. Embora seja tão difícil cobrá-la em um momento como esse, a paciência é o que resta.

*Assessor internacional da Prefeitura de Goiânia, vice-presidente do Instituto Goiano de Relações Internacionais (Gori) e autor do livro “Introdução ao Oriente Médio: um guia em dez perguntas sobre uma das regiões mais importantes e complexas do mundo”. Escreve sobre política internacional às segundas-feiras.

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