Comércio e indústria trilham caminhos opostos neste ano

Publicado por: Lauro Veiga Filho | Postado em: 11 de maio de 2022

As vendas do comércio e a produção industrial continuaram a trilhar caminhos inversos em março, com alguma reação no varejo e um retrocesso continuado na outra ponta, reafirmando a perda de importância relativa da indústria na economia brasileira e igualmente em Goiás, onde o setor tem enfrentado dificuldades nítidas e não tem conseguido apresentar crescimento já há algum tempo. Na saída de fevereiro para março deste ano, as vendas do varejo ampliado avançaram 7,4% no Estado, com alta de 19,1% na comparação com março do ano passado. A produção industrial, ao contrário, recuou 0,2% diante de fevereiro e caiu 1,9% em relação a março do ano passado.

O comportamento mais favorável das vendas do comércio tradicionalmente varejista e o ampliado, agregando concessionárias de veículos e motos, lojas de autopeças e de materiais de construção, tem a ver ainda com as distorções produzidas pela pandemia, que achatou as bases para comparação. Adicionalmente, o crescimento do crédito para as famílias parece dar sustentação a setores onde o crediário tem maior importância nas decisões de consumo, enquanto aqueles setores, a exemplo dos supermercados, que dependem mais diretamente da renda não têm apresentado números positivos.

Incluído na primeira categoria, o segmento de tecidos, vestuário e calçados chegou a apresentar salto de 162,6% na comparação com março do ano passado, o que levou a uma alta acumulada no primeiro trimestre de 31,8%. Nos 12 meses encerrados em março deste ano, o volume de vendas no setor registrou elevação de 34,7% diante de uma redução de 21,7% nos 12 meses terminados em março do ano passado. Considerando apenas o terceiro mês de 2021, as vendas de tecidos, roupas e calçados haviam despencado 33,2% diante de igual período de 2020. Portanto, boa parte do aumento registrado agora deveu-se principalmente a uma base muito reduzida para comparação.

“Suspiro” ou crescimento?

As vendas de materiais e equipamentos para escritório, bens de informática e comunicação, onde o crédito desempenha papel de maior peso em termos relativos, experimentaram alta de 51,5% em março deste ano, frente ao mesmo mês de 2021, subindo 22,0% no primeiro trimestre (e repetindo quase o mesmo ritmo no acumulado em 12 meses até março). O aumento de 23,1% anotado pelas vendas de móveis e eletrodomésticos veio na sequência de dois meses de baixa severa (-16,3% e -13,3% em janeiro e fevereiro, sempre em relação aos mesmos meses do ano passado). O desempenho recente não chegou a compensar as perdas dos meses anteriores, tanto que o volume vendido pelas lojas daqueles setores continuava em baixa de 3,2% no primeiro trimestre, com retrocesso acumulado de 11,4% em 12 meses. Os indicadores disponíveis permitem colocar em perspectiva os dados do varejo, surgindo dúvidas em relação à consolidação daquelas variações como tendência daqui para frente, especialmente diante da alta dos juros, do desemprego ainda muito elevado, das taxas inflacionárias ainda em aceleração e das perdas de renda sofridas pelos trabalhadores.

Balanço

  • O impacto da renda mais baixa sobre o consumo surge com maior nitidez no setor de supermercados e hipermercados. O volume vendido pelo setor caiu 5,2% em janeiro, recuou 0,3% em fevereiro e desabou 7,4% em março, sempre em comparação com os mesmos meses de 2021. No trimestre, as vendas baixaram 4,4% e registravam queda de 7,7% nos 12 meses até março deste ano.
  • As vendas de veículos, motos e autopeças aparentam crescimento vigoroso, crescendo 25,6%, 12,8% e 29,4% respectivamente em janeiro, fevereiro e março, com avanço acumulado de 22,9% no trimestre e de 39,0% em 12 meses. O segmento foi um dos mais afetados pela crise, além de ter sofrido, mais recentemente, de certo represamento nas vendas em função da falta de peças e componentes eletrônicos, o que atrasou pedidos que podem estar sendo desovados agora.
  • A alta de 12,1% nas vendas de materiais de construção, por sua vez, veio na sequência de um tombo de 17,6% em fevereiro. O segmento perdeu fôlego nitidamente, depois de ter sido movimentado por vendas em menor escala realizadas pelas famílias para reformas e ampliações. As vendas nesta área sofreram baixa de 5,3% no trimestre.
  • Comparadas a fevereiro de 2020, na fase pré-pandemia, as vendas do varejo restrito apresentavam em março deste ano variação modesta de 0,9%, com alta ligeiramente inferior a 15,1% no caso do varejo ampliado. Num horizonte mais largo, no entanto, os números de comércio goiano continuam ainda muito ruins. O melhor momento do varejo ampliado foi anotado em julho de 2013 e as vendas registravam perdas de 19,3% considerando os níveis atingidos em março deste ano, quase uma década depois. No varejo restrito, o tombo chegava a 27,2% em relação a fevereiro de 2014.
  • A produção industrial em Goiás já havia inaugurado o ano com perda de 5,5% na comparação de janeiro com dezembro de 2021, avançou levemente em fevereiro, numa variação de apenas 0,3%, e recuou 0,2% em março. Na comparação com meses idênticos de 2021, a produção cresceu 2,1% e 1,8% em janeiro e fevereiro, perdendo 1,9% em março, reduzindo a variação acumulada no primeiro trimestre para 0,5%. Em 12 meses, persistia uma redução de 2,9%.
  • Entre altas e baixas, a indústria goiana sequer conseguiu voltar aos níveis de fevereiro de 2020, persistindo queda de 5,1%. Comparada a outubro de 2019, quando registrou seu melhor resultado na série histórica, a produção caiu 9,8%.
  • Os primeiros sinais para abril, considerando a indústria brasileira como um todo, não são ainda lisonjeiros. Os dados da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) mostram redução de 2,9% na produção do setor em relação a abril do ano passado, saindo de 190.907 para 185.449 veículos, numa variação de apenas 0,4% frente a março passado (quando a indústria chegou a montar 184.786 unidades). No primeiro quadrimestre deste ano, comparado ao mesmo período de 2021, a produção caiu 13,6% (de 788.680 para 681.587 veículos).
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