Segunda-feira, 15 de julho de 2024

Coluna

Comportamento dos preços no final do ano mostra tendência de acomodação

Publicado por: Sheyla Sousa | Postado em: 02 de janeiro de 2020

O
ritmo de alta dos preços passou a registrar suave, mas firme desaceleração nas
semanas finais de dezembro, conforme amplamente aguardado, sugerindo uma taxa
de inflação ligeiramente menos pressionada do que a apresentada entre os
últimos 15 dias de novembro e a primeira quinzena do mês seguinte. A tendência
de acomodação deverá “invadir” janeiro, na exata medida de redução nas pressões
exercidas pelos preços das carnes e dos jogos de azar, que chegaram a
apresentar altas de 18,7% e de 37%, respectivamente, na medição pelo Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) do Índice Nacional de Preços ao
Consumidor Amplo-15 (IPCA-15) de dezembro (aferido entre os dias 12 de novembro
a 11 de dezembro do ano passado). Os dois itens, conforme já divulgado,
responderam por 59% na composição do índice geral apurado para aquele período.

A
moderação na velocidade dos aumentos nos preços já podia ser observada nas
medições semanais realizadas pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), responsável
pelo cálculo e divulgação do Índice de Preços ao Consumidor Semanal (IPC-S). Na
verdade, embora seja divulgado semanalmente, o índice reflete a variação dos
preços em períodos de 30 dias, comparados aos preços médios coletados nas
quatro semanas imediatamente anteriores, o que permite avaliar a tendência mais
atual para a inflação.

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O
IPC-S havia saltado de -0,09% no final de outubro para 0,49% no encerramento de
novembro, puxado pelos preços das carnes, dos jogos lotéricos e da energia
elétrica. Neste último caso, seguindo a normalização do regime de chuvas e
consequente recomposição dos reservatórios das usinas, a bandeira “vermelha”,
com a imposição de uma taxa adicional de R$ 4,169 para cada 100 Kw de consumo,
deixou de vigorar, abrindo espaço para quedas nas contas de luz.

Mas
ainda persistiam os impactos da forte aceleração dos preços das carnes,
liderada pela carne bovina, e dos jogos de azar. Essa combinação acabou
elevando o IPC-S para 0,87% nos 30 dias encerrados em 15 de dezembro passado.
Nos 30 dias de dezembro, no entanto, o IPC-S já havia recuado para 0,77% (ou
seja, 0,10 pontos abaixo da taxa registrada duas semanas atrás). A tarifa da
energia residencial, por exemplo, que havia subido 2,52% em novembro, recuou 3,43%
nos 30 dias terminados em 22 de dezembro e passou a registrar queda de 5,32% em
todo o mês de dezembro.

“Normalização”

Ainda
em percentuais elevados, considerando-se a variação média de todos os preços na
economia (e especialmente dos salários), os preços da carne bovina entraram em
desaceleração, com a alta cedendo de 23,18% para 20,65% entre as quatro semanas
terminadas respectivamente nos dias 22 e 30 de dezembro no caso do quilo
docontrafilé; de 21,30% para 17,40% para o quilo da alcatra; e de 14,20% para
13,85% para a carne moída. A acomodação observada nos dados das exportações de
carne bovina ao longo de dezembro reforça o cenário de “normalização” dos
preços domésticos. Nas primeiras cinco semanas de
dezembro, as vendas externas nesta área haviam experimentado baixa de 8,9%
frente a novembro, na média diária apontada pelo Ministério da Economia.

Balanço

·  
O
número fechado para dezembro do IPCA, a ser divulgado pelo IBGE no próximo dia 10
de janeiro, uma sexta-feira, pode trazer “surpresas” mais favoráveis, o que
tende a definir uma inflação próxima a 4,0% para todo o ano passado, índice
ainda inferior ao centro da meta inflacionária de 4,25% estabelecida pelo
Comitê de Política Monetária (Copom) para 2019.

·  
O
IPC-S da Fundação Getúlio Vargas (FGV) encerrou o ano em 4,11%, o que reforça a
expectativa de uma inflação próxima a isso também para o IPCA.

·  
A
entidade divulgou também ontem sua pesquisa sobre os níveis da confiança
empresarial em relação à situação atual e ao futuro próximo da economia,
apontando alguma melhoria nos indicadores – o que tem sido percebido por
comentaristas e pela imprensa em geral como a sinalização de uma retomada mais
potente da atividade econômica.

·  
Na
verdade, trata-se de uma leitura bastante otimista dos números, para dizer o
mínimo. O Índice da Situação Atual (ISA), que tenta aferir a visão das empresas
entrevistadas em relação ao dia a dia da economia, saiu de 90,6 pontos em
dezembro de 2018 para 94,5 pontos no mesmo mês do ano passado.

·  

o Índice de Expectativas (IE) recuou ligeiramente entre os dois períodos,
passando de 101,2 para 100,1 pontos, e sempre esteve à frente do ISA, movido
aparentemente muito mais por um desejo de melhoras na economia do que por
fatores mais concretos.

·  
O
Índice de Confiança (IC), que combina os dois indicadores anteriores, avançou
de 95,9 para 97,1 pontos. Para entender o que esses números querem dizer, é
preciso relembrar que, na escala definida pela FGV, índices acima de 100 pontos
sinalizam otimismo em relação tanto à situação atual quanto à expectativa
futura. Abaixo desse ponto, eles indicam pessimismo. Ao redor dos 100 pontos,
sugerem um cenário neutro (nem otimista, nem pessimista).

·  
Na
série da FGV, aqueles indicadores não conseguiram mais superar a barreira dos
100 pontosdesde meados de 2013. O indicador de expectativa, de fato, esteve ligeiramente
acima daquele nível entre o final de 2018 e o começo de 2019 e novamente em
novembro e dezembro passados, indicando muito mais um cenário “neutro”.
Parafraseando Cauby Peixoto, se a confiança subiu ninguém sabe ninguém viu (mas
todos falam).