terça-feira, 19 de maio de 2026

Consultas por crédito do BNDES salta 312% no primeiro trimestre em Goiás

Lauro Veiga Filhopor Lauro Veiga Filho em 18 de maio de 2026

Já em pleno bombardeio do Irã por Israel e pelos Estados Unidos, as empresas com operações no Estado, ou pelo menos uma parcela delas, correram ao balcão do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) em busca de crédito para financiar novos projetos, levando a uma disparada no valor total das consultas encaminhadas ao banco de fomento no primeiro trimestre deste ano. As séries estatísticas do banco não permitem avaliar quais setores, em cada Estado, lideraram esse processo, mas sugerem um apetite até certo ponto inusitado por novos investimentos, dada a conjuntura muito mais complicada e turbulenta por conta da guerra e pelo consequente choque gerado sobre os custos de combustíveis e demais insumos.

As consultas seguiram tendência semelhante no restante do País, mas num ritmo menos vigoroso do que aquele observado para Goiás. Os números sugerem que o setor privado – ou parte dele – de alguma forma antecipava, até ali, perspectivas de melhoras num horizonte de mais longo prazo, a se considerar o tempo de maturação de projetos na área industrial – ainda que alguns formatos de investimento demandem prazos mais curtos, a exemplo da modernização de fábricas e da troca de equipamentos e sistemas por correspondentes mais atualizados.

Quaisquer que tenham sido as razões por trás desse processo, o fato concreto é que as consultas ao BNDES cresceram pouco mais de quatro vezes em Goiás, saltando pouco mais de 58% em todo o País em valores atualizados até março deste ano com base no Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), aferido pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A porção goiana nas consultas avançou de R$ 720,319 milhões nos primeiros três meses do ano passado, algo como 0,85% do total nacional, para R$ 919,152 milhões em igual trimestre deste ano, correspondendo a 2,20% do total. Registrou-se, no caso, um aumento de 312,2%.

 

A alta em março

Um segundo “detalhe” chama a atenção. Ainda em Goiás, quase 59% daquele incremento foram registrados apenas em março, mês que concentrou ainda 51,3% do valor total das consultas realizadas no primeiro trimestre deste ano. Corrigidas pelo IPCA, as consultas subiram pouco mais de oito vezes, saindo de R$ 119,694 milhões em março do ano passado para R$ 965,162 milhões, quer dizer, nada menos do 706,4% a mais. Pode-se supor que as empresas teriam procurado se antecipar a alguma eventual piora no mercado de crédito, diante dos desafios trazidos pela conjuntura internacional. Por enquanto, trata-se de mera hipótese a ser ainda testada pelos fatos.

 

Balanço

Os dados para todo o resto do País mostram que março respondeu por 71,6% do crescimento acumulado no primeiro trimestre, embora os valores das consultas naquele mês tenham representado 36,6% do total no trimestre. Entre janeiro e março deste ano, o BNDES recebeu um total de R$ 85,038 bilhões em consultas encaminhadas por empresas de todos os Estados, em alta de 58,2% frente a R$ 53,762 bilhões nos mesmos três meses do ano passado, a valores de março deste ano. Houve uma variação absoluta, neste caso, de R$ 31,276 bilhões.

Apenas em março, o valor das consultas disparou, avançando de R$ 8,780 bilhões no ano passado para R$ 31,158 bilhões em igual mês deste ano, num incremento de 254,9% em termos reais, quer dizer, depois de descontada a inflação. A comparação entre os dois períodos mostra um aumento de R$ 22,378 bilhões.

O resultado nacional foi o mais alto, em termos reais, desde o primeiro trimestre de 2014, quando as consultas haviam alcançado qualquer coisa ao redor de R$ 91,671 bilhões. Os números murcharam a partir dali com a decisão deliberada de reduzir a relevância do BNDES no financiamento de longo prazo no País, situação que começou a ser revertida a partir de 2023.

O setor de infraestrutura respondeu por mais da metade do crescimento acumulado no primeiro trimestre deste ano, frente a idêntico período do ano passado, com protagonismo do segmento de transporte rodoviário, turbinado pelas concessões realizadas num período mais recente, além de atividades auxiliares do setor de transportes.

Na soma geral, os projetos de infraestrutura somaram consultas de R$ 35,982 bilhões entre janeiro e março deste ano, crescendo 82,4% em relação ao total anotado no trimestre inicial de 2025, ao redor de R$ 19,726 bilhões. Houve um incremento, no setor, de R$ 16,256 bilhões em números arredondados.

As empresas de transporte rodoviário apresentaram propostas de financiamento num valor aproximado de R$ 13,393 bilhões nos três meses iniciais deste ano, mais de quatro vezes acima das consultas realizadas no mesmo período do ano passado, na faixa de R$ 3,261 bilhões. Apenas para registro, a alta em termos reais atingiu 323,6%.

A variação foi muitas vezes mais vigorosa no segmento de atividades auxiliares de transportes, que incluem serviços de logística, suporte a operações de movimentação de cargas e passageiros, armazenagem e outras. Num contraponto, a base para comparação havia sido muito baixa nos três meses iniciais de 2025, somando “apenas” R$ 199,995 milhões. O valor das consultas multiplicou-se para R$ 12,041 bilhões, quer dizer, praticamente 60 vezes mais.

Na área de serviços de utilidade pública, as consultas subiram mais de 36 vezes, saindo de R$ 109,059 milhões para R$ 3,988 bilhões – numa comparação mais uma vez afetada pelo nível muito baixo no primeiro trimestre do ano passado.

Houve quedas relevantes, no entanto, ainda no setor de infraestrutura, com quedas reais de 85,2% na área da construção (de R$ 1,692 bilhão para R$ 250,569 milhões), de 50,7% em transporte ferroviário (desabando de R$ 5,829 bilhões para R$ 2,873 bilhões) e de 39,7% para energia elétrica, onde as consultas encolheram de R$ 4,006 bilhões para R$ 2,414 bilhões.

As consultas no setor industrial, numa sinalização positiva, cresceram 23,37% no trimestre, avançando de R$ 17,027 bilhões para R$ 21,007 bilhões, com elevação ainda de 33,69% no setor de comércio e serviços (saindo de R$ 8,327 bilhões para R$ 11,132 bilhões). Mesmo na agropecuária, que enfrenta dificuldades por conta do encurtamento de margens de lucratividade nos grãos (mas com ganhos na pecuária), as consultas cresceram 94,9% diante do primeiro trimestre de 2025, escalando para R$ 8,682 bilhões para R$ 16,917 bilhões.

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