Consumo das famílias atinge nível mais baixo em quase duas décadas

Publicado por: Lauro Veiga Filho | Postado em: 03 de dezembro de 2021

A divulgação ontem dos resultados do Produto Interno Bruto (PIB) no terceiro trimestre deste ano causou uma corrida dos operadores de mercado, consultores e analistas econômicos às calculadoras diante dos sinais cada vez mais evidentes de estagnação e perda de fôlego da atividade econômica no segundo semestre deste ano. O volume de bens e serviços produzidos pelo País não cresce há dois trimestres e vem recuando com a economia pressionada pela escalada inflacionária, pelos riscos à frente associados à mais recente variante do Sars-CoV-2, pelo baixíssimo dinamismo do mercado de trabalho, com grande avanço da informalidade e da subocupação, derrubando a renda dos trabalhadores e, claro, sua capacidade de consumir bens e serviços.

Na comparação com o trimestre imediatamente anterior, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o PIB recuou 0,4% no segundo trimestre e 0,1% no terceiro – quer dizer, “andou de lado”, como dizem os operadores financeiros. Alguns grandes bancos e outros nem tão grandes assim já revisam as projeções para 2021, sugerindo variação já abaixo dos 5,0% previstos anteriormente, mais próxima de 4,8% ou 4,7% (o que, na verdade, não fará muita diferença – o importante a anotar é, de fato, a degradação observada para a economia ao longo do semestre). As apostas para 2022 flutuam entre variação de apenas 0,5%, num desaquecimento vigoroso, e recuo na mesma proporção, em torno de 0,5%. Mais uma vez, o dado relevante é que nem mesmo os mercados “compram” a retórica ensandecida do senhor Paulo Guedes, o “posto Ipiranga” – aquele que vende de tudo.

Nesse processo de enfraquecimento da atividade econômica, a alta dos juros vai agravar o cenário daqui para frente ao encarecer o custo do crédito para empresas e para as famílias, que já enfrentam níveis de endividamento elevados. Para complicar, o consumo das famílias, grande motor da economia, continuou derrapando. Nos dois últimos trimestres, oscilou entre o recuo de 0,2% anotado no segundo trimestre (em relação ao primeiro) e elevação de 0,9% no terceiro. Como os números foram muito ruins em 2020, o volume de bens e serviços consumidos pelas famílias havia saltado 10,5% no segundo trimestre e avançou 4,2% no terceiro trimestre, já indicando desaceleração.

Antes da pandemia…

A série de índices do IBGE, ajustados sazonalmente (ou seja, com exclusão de fatores que ocorrem em períodos específicos do ano e que poderiam afetar a comparação e análise dos dados), mostra que o consumo das famílias havia sofrido baixa de 6,1% entre o terceiro trimestre de 2019 e o mesmo período do ano passado. O avanço observado até o mesmo período deste ano, portanto, repôs apenas parcialmente as perdas acumuladas na fase anterior, deixando uma perda ainda de 2,2% desde o terceiro trimestre de 2019. Comparado ao quarto trimestre daquele mesmo ano, persiste uma redução de 2,1% – quer dizer, as famílias não conseguiram retomar ainda os mesmos níveis de consumo alcançados antes da pandemia. As perdas podem ser mais sensíveis se considerado outro indicador. A participação do consumo das famílias no PIB total atingiu 59,8% considerando os valores acumulados entre janeiro e setembro deste ano, o menor percentual desde 2000 (ou seja, em quase 21 anos).

Balanço

  • A fatia do consumo familiar no PIB tem murchado desde 2019, quando atingiu 64,9% (ainda no acumulado entre janeiro e setembro, para permitir a comparação com este ano). Nos mesmos nove meses de 2020, a participação havia baixado para 62,5%. Entre 2019 e 2021, a queda correspondeu a 5,08 pontos de porcentagem. É possível estimar qual poderia ser o consumo potencial das famílias caso tivesse sido mantido o mesmo percentual registrado há dois anos e, portanto, a perda da capacidade de consumir ao longo do período.
  • Em valores nominais, o PIB acumulado entre janeiro e setembro deste ano aproximou-se de R$ 6,422 trilhões, o que significa dizer que 64,9% desse total corresponderia a qualquer coisa ao redor de R$ 4,166 trilhões. Mas o consumo total das famílias ficou limitado a R$ 3,839 trilhões, sugerindo perdas de aproximadamente R$ 326,64 bilhões. Neste exercício, fica implícita uma redução nominal de 7,8% no potencial de consumo, o que deverá impor limites à capacidade de reação da economia.
  • A demanda no terceiro trimestre foi enfraquecida ainda pela paralisação virtual do investimento, que sofreu recuo de 0,1% em relação ao trimestre anterior. Embora apresente índices vigorosos em relação ao ano passado, o investimento (ou formação bruta de capital fixo, no economês adotado pelo IBGE e por todo o mercado) já havia caído 3,0% na passagem do primeiro para o segundo trimestre e deixou de crescer, portanto, há pelo menos seis meses.
  • Comparado aos mesmos períodos do ano passado, o investimento havia saltado 33,1% no segundo trimestre e avançou 18,8% no terceiro, demonstrando alguma perda de fôlego. É preciso analisar o histórico do setor durante um período mais longo para uma visão mais aproximada do que está ocorrendo nesta área. Na série com ajuste sazonal, o investimento havia registrado baixa de 33,1% entre o terceiro trimestre de 2013 e o segundo trimestre do ano passado, quando alcançou o nível mais baixo desde o primeiro trimestre de 2009.
  • Entre o segundo trimestre do ano passado e o primeiro deste ano, o investimento chegou a saltar 36,6% (mais ainda se encontrava praticamente 8,6% abaixo dos níveis registrados em 2013). Ao final do terceiro trimestre deste ano, voltou a baixar 3,1% (na comparação com o primeiro trimestre de 2021) e passou a acumular retração de 11,4% frente ao mesmo trimestre de 2013.
  • “Ao que tudo indica, virar a página da crise da Covid-19 não é tão trivial quanto alguns supunham. Não por acaso, as principais potências globais estão desenhando políticas para uma recuperação sustentável”, comenta o Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi). O cenário para a indústria de transformação tem sido ainda mais grave, complementa o instituto. Neste ano, a atividade no setor “não cresceu um trimestre sequer”, colecionando perdas de 0,4%, de 2,5% e de 1,0%, respectivamente no primeiro, no segundo e no terceiro trimestres, na comparação com o trimestre imediatamente anterior.
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