Crise na economia contribuiu para ajuste nas contas externas

Publicado por: Lauro Veiga Filho | Postado em: 30 de julho de 2021

O déficit na conta de transações correntes do País despencou 78,3% nos 12 meses encerrados em junho deste ano frente aos 12 meses imediatamente anteriores, reforçando as análises que há tempos já apontavam as características mais ou menos inéditas da crise instalada na economia brasileira desde o começo da segunda metade da década passada. No caso, o ineditismo tem a ver com a sobra de dólares no País, expressa no volume elevado de reservas em moedas fortes, condição não observada nas crises anteriores, geradas em grande parte exatamente pela falta de dólares, a exemplo das crises recorrentemente observadas desde o começo dos anos 1980.

O País detinha, até quarta-feira, dia 28, reservas equivalentes a US$ 355,07 bilhões, quase 17% mais do que toda a dívida externa bruta do País. Na verdade, essas reservas foram acumuladas entre 2003 e 2011, quando saltaram de apenas US$ 37,823 bilhões em dezembro de 2002, para US$ 352,012 bilhões no final de 2011, crescendo 9,3 vezes no período. Na crise cambial sofrida na virada de 1999 para 2000, aquelas reservas chegaram a ficar pouco acima de US$ 28,2 bilhões, uma fração dos valores mantidos desde o começo da década passada, com oscilações para cima e para baixo ao longo do período.

Paradoxalmente, parte relevante do ajuste mais recente nas contas externas ocorreu como consequência direta da crise sofrida a partir da recessão de 2015/16 e das dificuldades enfrentadas pela economia para retomar o crescimento, agravadas, desde o ano passado, pela pandemia do novo coronavírus, que derrubou as remessas de lucros para fora do País, fez murchar literalmente as despesas com viagens internacionais e ainda achatou as despesas com aluguel de equipamentos importados. Na contramão do ajuste, as receitas do Brasil com a exportação de serviços de engenharia, arquitetura e outros negócios despencaram nos últimos anos, diante da destruição quase total das grandes empresas de engenharia e infraestrutura de bandeira brasileira, que vinham ocupando espaços crescentes no mercado mundial de serviços de engenharia, altamente disputado pelas maiores economias do globo.

Reviravolta na balança

O rombo na conta de transações correntes, que inclui todos os gastos e as receitas que o País realiza no exterior, incluindo o saldo entre exportações e importações de bens, despesas com viagens internacionais, aluguel de equipamentos lá fora, royalties, gastos com juros e amortizações da dívida externa, remessas de lucros e dividendos, desabou de US$ 90,502 bilhões nos 12 meses entre julho de 2014 e junho de 2015 para US$ 19,637 bilhões nos 12 meses encerrados em junho de 2021. O corte no déficit, portando, chegou a nada menos do que US$ 70,865 bilhões. Praticamente 58,0% dessa redução deveram-se à virada na balança comercial de bens e mercadorias, que saiu de um déficit de US$ 1,990 bilhão entre meados de 2014 e 2015 para um superávit (exportações maiores do que importações) de US$ 39,124 bilhões nos 12 meses finalizados em junho deste ano (ou seja, uma virada de US$ 41,114 bilhões).

Balanço

  • O ganho na balança comercial veio principalmente do aumento de 18,9% nas exportações, que subiram de US$ 207,792 bilhões em 2014/15 para US$ 247,023 bilhões em 2020/21, num ganho próximo de US$ 39,231 bilhões, influenciado largamente pelo crescimento nos embarques de minério de ferro, petróleo em bruto, soja e derivados, milho, açúcar e outros produtos agrícolas. As vendas externas foram impulsionadas pelo novo ciclo de alta nos preços internacionais das commodities, desde o petróleo e o minério à soja, verificado a partir da segunda metade do ano passado.
  • Mas a taxa de câmbio ajudou fortemente. Na média entre julho de 2014 e junho de 2015, o dólar médio havia estacionado em algo próximo a R$ 2,69 de acordo com as séries de dados do Banco Central (BC). Entre julho de 2020 e junho deste ano, a taxa dobrou em valores nominais, atingindo perto de R$ 5,39.
  • A alta do dólar encareceu proporcionalmente as viagens internacionais, impactadas da mesma forma pelas restrições à circulação de pessoas impostas pelos países para enfrentar a pandemia e tentar impedir, em muito sucesso, a disseminação do Sars-CoV-2. As despesas nesta área minguaram de US$ 16,861 bilhões em 2014/15 para apenas US$ 1,372 bilhão de julho do ano passado a junho deste ano, num tombo de 91,9% (quer dizer, US$ 15,489 bilhões a menos).
  • Os gastos com o aluguel de equipamentos utilizados por diversos setores da indústria seguiram caminho semelhante, influenciados parcialmente pelo dólar mais caro, mas também pela retração experimentada pela atividade industrial aqui dentro. O aluguel de equipamentos havia exigido o desembolso de US$ 23,455 bilhões entre julho de 2014 e junho do ano seguinte, despesa reduzida para US$ 8,820 bilhões nos 12 meses encerrados em junho deste ano – uma queda de 62,4% (US$ 14,635 bilhões a menos).
  • As despesas com transportes de pessoas e cargas sofreram baixa de 61,7% na mesma comparação, saindo de US$ 7,909 bilhões para US$ 3,031 bilhões (uma queda equivalente a US$ 4,878 bilhões).
  • O comportamento daquelas contas contribuiu para a redução de 60,3% experimentada pela conta de serviços do País com o restante do mundo. O déficit nesta área caiu de US$ 46,125 bilhões para US$ 18,303 bilhões, numa diminuição de US$ 27,822 bilhões (o que representou uma contribuição de 39,3% para a redução do rombo nas transações correntes).
  • Na contramão dessa tendência, as despesas com telecomunicações, computação e informações saltaram 94,0% no período analisado, saindo de US$ 1,986 bilhão para US$ 3,853 bilhões, quer dizer, US$ 1,867 bilhão a mais. As receitas com serviços de engenharia, arquitetura e outros desabaram 72,1% na mesma comparação, encolhendo de US$ 12,044 bilhões para US$ 3,359 bilhões, um dos valores mais baixos da série.
  • A queda nas remessas de lucros e dividendos, influenciada pela redução na rentabilidade dos investimentos diretos e das aplicações financeiras, com a baixa nos juros internos, ajudou no processo. Essas remessas caíram 31,0%, saindo de US$ 22,794 bilhões para US$ 15,726 bilhões (ou seja, US$ 7,068 bilhões a menos).
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