sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Dados do varejo reforçam tendência de desaceleração em toda a economia

Lauro Veiga Filhopor em
Dados do varejo reforçam tendência de desaceleração em toda a economia
Foto: Tomaz Silva/ABr

O volume de vendas no comércio varejista tradicional e no chamado varejo ampliado não conseguiu sustentar os níveis recordes alcançados em março deste ano, na série de estatísticas dessazonalizadas trabalhadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em sua pesquisa mensal sobre o setor. Descontados eventos e fatores que ocorrem sempre à mesma época todos os anos, os volumes vendidos baixaram respectivamente 1,3% e 2,1% na saída de março para agosto deste ano, em mais um sinal de acomodação da atividade econômica ao longo dos últimos meses – reforçado pelos dados do setor de serviços divulgados na quarta-feira (O Hoje, 14/10/2026).

Os sinais emitidos pelo lado real da economia nos principais setores de atividade – indústria, serviços e comércio – indicam com clareza a perda de ímpeto da atividade, sob efeito combinado do arrocho promovido pelos juros extorsivos, pressões externas geradas por uma conjuntura internacional ainda bastante incerta e turbulenta e as incertezas que sempre acompanham os processos eleitorais no Brasil, especialmente a partir do final da primeira metade da década passada.

Há uma aparente ausência de sintonia entre a realidade retratada pelas estatísticas do IBGE e as avaliações que têm levado a o Banco Central (BC) a impor um ritmo excessivamente moderado na sua política de revisão da taxa básica de juros, com cortes que pouco ou quase nada alteram nos custos explosivos do crédito. Com influência praticamente nula, portanto, nas tendências de maior endividamento de famílias e empresas, avanço da inadimplência e comprometimento crescente da renda familiar com pagamento de juros e das prestações das dívidas contratadas no setor bancário. Colocado de outra forma, a redução mais acelerada dos juros básicos provavelmente não causaria impactos indesejados sobre os preços em geral, mas ajudaria a aliviar a situação de endividamento de trabalhadores e empresas.

Desempenho

Os resultados do comércio em agosto vieram abaixo das projeções do setor financeiro, que não vinha demonstrando muito otimismo em relação ao desempenho da atividade neste semestre – uma atitude de fato recorrente no setor, que tem tido desmentidas suas previsões mais negativas para economia ao longo do tempo. O fato de os dados do IBGE terem vindo abaixo das expectativas, assim, parece sugerir alguma coisa. Na comparação mês sobre mês imediatamente anterior, já com ajustes sazonais, os volumes vendidos pelo varejo restrito praticamente não avançaram, variando apenas 0,1% em agosto diante de julho deste ano, quando chegou a recuar 0,8%, No chamado varejo ampliado, que inclui concessionárias de motos e veículos, lojas de autopeças, o atacarejo de materiais de construção, alimentos, bebidas e fumo, registrou-se recuo de 0,2% em igual período.

 

Balanço

  • As previsões do mercado financeiro sugeriam elevação de 0,8% para as vendas no varejo mais convencional e alta entre 1,0% e 1,2% para o comércio varejista em seu conceito mais amplo. “O dado divulgado hoje (ontem) veio abaixo das expectativas, reforçando o processo de desaceleração do consumo das famílias. A fraqueza foi disseminada entre as diferentes categorias, com destaque para os segmentos mais sensíveis ao crédito. O resultado de hoje reforça nossa avaliação de moderação da demanda doméstica e adiciona um viés baixista para a projeção de crescimento do PIB no terceiro trimestre”, comentam as economistas Natalia Cotarelli e Marina Garrido, da área de pesquisa macroeconômica do Itaú.
  • As perdas foram mais intensas, ainda na comparação com julho, nos segmentos de móveis e eletrodomésticos, em baixa de 4,2%, de materiais de construção, numa redução de 2,0%, e de veículos, motos e autopeças, em recuo de 1,0%. Proporcionalmente, dada a maior fatia ocupada pelo setor no varejo como um todo, a maior contribuição negativa veio do recuo de 0,3% nas vendas de hipermercados e supermercados, produtos alimentícios, bebidas e fumo.
  • Ainda com base na série de dados dessazonalizados, o comércio varejista goiano chegou ao quinto mês consecutivo sem crescimento, com números negativos em quatro deles e avanço nulo em junho. As vendas no segmento mais convencional do varejo recuaram 0,8% em agosto diante de julho, mês que já havia anotado baixa de 1,6%. Desde de março, os volumes vendidos nesta área encolheram 8,3%.
  • Os números não foram melhores para o varejo ampliado, que teve suas vendas reduzidas em 0,9% em agosto, na quarta queda mensal consecutiva. No período, o setor afundou em queda de 9,0%.
  • A comparação com agosto do ano passado, em todo o País, aponta elevação de 0,4% no varejo tradicional e quase estagnação no setor varejista ampliado, numa variação de apenas 0,1% em relação ao mesmo mês de 2025. No primeiro segmento, o desempenho foi sustentado por hiper e supermercados, com elevação de 0,5% (abaixo da taxa de 2,9% alcançada em julho), artigos farmacêuticos, médicos, ortopédicos e de perfumaria, num salto de 4,8%, passando a somar 42 meses de alta em sequência, e pelo salto de 10,2% nas vendas de equipamentos e materiais de escritório, informática e comunicação.
  • Segundo o IBGE, apenas supermercados e farmácias contribuíram com 0,8 pontos para o crescimento das vendas, o que significa dizer que os demais ramos do setor varejista teriam experimentado em conjunto baixa de 0,4%.
  • No varejo ampliado, ainda nos dados nacionais, a queda estagnação refletiu as baixas de 3,8% e de 1,4% respectivamente nas lojas de materiais de construção e no atacarejo de alimentos, bebidas e cigarros. As vendas de veículos, motos e autopeças, que chegaram a avançar 11,8% e 5,0% em junho e julho, desaceleraram para 1,5% em agosto.
  • O comércio varejista em Goiás teve o pior desempenho entre as regiões acompanhadas pelo IBGE, com tombo de 4,5% em agosto, ainda em relação ao mesmo mês do ano passado, quarto mês de baixas ou crescimento nulo para o setor mais tradicional do varejo. Com exceção para livrarias, papelarias, materiais de escritório e informática e outros artigos de uso pessoal (com altas de 2,7%, de 17,4% e de 1,7% naquela mesma ordem), todos os demais setores do varejo tradicional tiveram perdas.
  • As vendas de tecidos, roupas e calçados foram as mais afetadas, num tombo de 8,1% em agosto, na sequência de queda de 7,7% em julho. O ramo de produtos farmacêuticos, ortopédicos e perfumaria, que já vinha de baixas de 8,8% em junho e de 6,5% em julho, caiu mais 7,5% em agosto, sempre em relação aos mesmos meses de 2025. Nos super e hipermercados, a queda chegou a 4,5%, com baixa ainda de 4,6% para combustíveis e lubrificantes.
  • No varejo ampliado, as vendas caíram 5,4% no Estado, no segundo pior desempenho regional, “superado” apenas pela retração de 5,8% em Mato Grosso. As concessionárias de veículos e motos e lojas de peças tiveram as vendas reduzidas em 11,8%, com recuo de 1,1% para materiais de construção. Como exceção, o atacarejo de alimentos, bebidas e fumo apresentou avanço de 4,1%.

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