Déficit dos Estados salta mais de seis vezes em junho deste ano

Lauro Veiga Filhopor Lauro Veiga Filho em 1 de agosto de 2026 às 10:26
Déficit dos Estados salta mais de seis vezes em junho deste ano

A proximidade das eleições e do período de restrições eleitorais a gastos públicos e a inaugurações de obras parecem ter animado os governadores a imprimir forte ritmo às despesas especialmente em junho deste ano, fazendo escalar o déficit primário regional. Quando excluídas receitas e despesas de caráter financeiro, a exemplo dos juros, os Estados registraram déficit de R$ 8,189 bilhões em junho deste ano, no pior desempeno das contas estaduais na série histórica do Banco Central (BC), iniciada em 2001. Diante de um resultado negativo de R$ 1,354 bilhão no mesmo mês do ano passado, o dado mostra um salto de 504,80%, correspondendo a uma elevação absoluta de R$ 6,835 bilhões.

Para comparação, as prefeituras conseguiram quase quadruplicar o superávit primário naquela mesma comparação, o que parece sugerir que a “febre eleitoreira” teria sido de fato a mola propulsora dos déficits estaduais, já que não haverá eleições municipais pelo menos até 2028. As gestões municipais, no dado consolidado pelo BC, aumentaram o superávit primário – receitas acima de despesas, excluídos gastos com juros – de R$ 400,152 milhões para R$ 1,581 bilhão, num salto de 295,02%. Houve um ganho, portanto, de R$ 1,181 bilhão.

Não que as gestões municipais sejam mais virtuosas. Em junho de 2023, por exemplo, os governos municipais haviam anotado um rombo de R$ 3,593 bilhões, o que se comparava então a um superávit de R$ 2,348 bilhões no mesmo mês de 2022. De toda maneira, o bom desempenho dos gestores municipais em junho deste ano não foi suficiente para “amortecer” o estrago causado pelas administrações estaduais, claramente contaminadas pela “febre eleitoreira”. As contas regionais, incluindo Estados, municípios e suas respectivas estatais, mostraram déficit de R$ 6,609 bilhões no sexto mês deste ano, o que se compara com um déficit primário de apenas R$ 953,950 milhões em igual mês do ano passado, o que correspondeu a um salto de 592,77%, subindo praticamente R$ 5,655 bilhões.

 

Diferenças

Para comparação, o governo central, que inclui as contas da União, Previdência e do próprio BC, teve o déficit elevado em 8,52% em valores correntes, quer dizer, sem atualização com base em indicadores inflacionários, saindo de R$ 43,527 bilhões para R$ 47,236 bilhões, correspondendo a um incremento absoluto de R$ 3,709 bilhões. O resultado, portanto, foi mais de sete vezes maior do que o rombo dos governos regionais, o que é fato, mas quando se compara a variação daqueles dois resultados, a relação inverte-se. O déficit regional apresentou um incremento 52,5% mais elevado do que a variação realizada no governo central, quando comparados os valores absolutos.

 

Balanço

Além daquela relação, a nota de política fiscal elaborada pelo BC e divulgada ontem, 31, mostra que a deterioração das contas regionais respondeu ainda por quase 69% do crescimento do déficit primário no setor público como um todo, que avançou de R$ 47,091 bilhões em junho do ano passado para R$ 55,313 bilhões em igual período deste ano. Nessa comparação, houve um aumento de 17,46%, o que correspondeu a um acréscimo de R$ 8,822 bilhões.

Ao contrário do que ocorreu no nível federal do setor público, os números primários foram mais decisivos para Estados e prefeituras na definição do chamado resultado nominal em junho, agora incluindo a conta de juros. As contas nominais dos governos estaduais mostram um salto de 81,90% no déficit nesta área, aumentando de R$ 9,298 bilhões em junho do ano passado para R$ 16,913 bilhões, algo como R$ 7,615 bilhões a mais.

Para as prefeituras, seguindo ainda caminho inverso, o déficit de R$ 333,478 milhões realizado em junho do ano passado transformou-se em um saldo positivo de R$ 707,356 milhões. Quer dizer, essa virada de sinais correspondeu a um ganho de R$ 1,041 bilhão, impulsionado pela variação de R$ 1,181 bilhão no saldo primário.

O governo central teve suas contas atingidas duplamente, e de forma negativa nos dois casos, pelo aumento das despesas com juros do Tesouro e pelas perdas do BC no mercado cambial, que acabam influindo na conta de juros. No governo federal, incluindo a Previdência, as despesas com juros subiram 25,35% no período analisado, subindo de R$ 60,764 bilhões para R$ 76,145 bilhões – um aumento de quase R$ 15,381 bilhões.

Em suas operações, o ganho de R$ 8,801 bilhões realizado em junho do ano passado pelo BC foi anulado neste ano por uma perda de R$ 24,307 bilhões, num impacto de R$ 33,108 bilhões na conta de juros do governo central. Vale dizer, essa mudança foi responsável por 68,3% do aumento dos gastos com juros no governo central. Neste caso, os desembolsos meramente financeiros saltaram 93,31% entre junho de 2025 e igual mês deste ano, saindo de R$ 51,963 bilhões para R$ 100,452 bilhões, quer dizer, nada menos do que R$ 48,489 bilhões a mais.

Na soma de todo o setor público, os juros consumiram R$ 110,653 bilhões em junho deste ano, o que se compara com R$ 61,016 bilhões no sexto mês de 2025, significando R$ 49,637 bilhões a mais, numa alta de 81,35%.

O aumento das despesas com juros foi responsável por 85,8% e por 92,9% do aumento do déficit nominal respectivamente no conjunto do setor público e no governo central. Na área federal, incluindo o BC, o déficit nominal subiu de R$ 95,490 bilhões para R$ 147,688 bilhões, correspondendo a uma alta de 54,66% (em torno de R$ 52,198 bilhões a mais, lembrando que a despesa com juros nesta área cresceu R$ 48,489 bilhões).

No conjunto do setor público, o déficit nominal passou de R$ 108,107 bilhões para R$ 165,966 bilhões, variando 53,52%. Quer dizer, a variação chegou a R$ 57,859 bilhões, dos quais, apenas para relembrar, perto de R$ 49,637 bilhões vieram do aumento dos juros.

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