segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Déficit dos Estados salta mais de seis vezes em junho deste ano

Lauro Veiga Filhopor Lauro Veiga Filho em
Déficit dos Estados salta mais de seis vezes em junho deste ano

A proximidade das eleições e do período de restrições eleitorais a gastos públicos e a inaugurações de obras parecem ter animado os governadores a imprimir forte ritmo às despesas especialmente em junho deste ano, fazendo escalar o déficit primário regional. Quando excluídas receitas e despesas de caráter financeiro, a exemplo dos juros, os Estados registraram déficit de R$ 8,189 bilhões em junho deste ano, no pior desempeno das contas estaduais na série histórica do Banco Central (BC), iniciada em 2001. Diante de um resultado negativo de R$ 1,354 bilhão no mesmo mês do ano passado, o dado mostra um salto de 504,80%, correspondendo a uma elevação absoluta de R$ 6,835 bilhões.

Para comparação, as prefeituras conseguiram quase quadruplicar o superávit primário naquela mesma comparação, o que parece sugerir que a “febre eleitoreira” teria sido de fato a mola propulsora dos déficits estaduais, já que não haverá eleições municipais pelo menos até 2028. As gestões municipais, no dado consolidado pelo BC, aumentaram o superávit primário – receitas acima de despesas, excluídos gastos com juros – de R$ 400,152 milhões para R$ 1,581 bilhão, num salto de 295,02%. Houve um ganho, portanto, de R$ 1,181 bilhão.

Não que as gestões municipais sejam mais virtuosas. Em junho de 2023, por exemplo, os governos municipais haviam anotado um rombo de R$ 3,593 bilhões, o que se comparava então a um superávit de R$ 2,348 bilhões no mesmo mês de 2022. De toda maneira, o bom desempenho dos gestores municipais em junho deste ano não foi suficiente para “amortecer” o estrago causado pelas administrações estaduais, claramente contaminadas pela “febre eleitoreira”. As contas regionais, incluindo Estados, municípios e suas respectivas estatais, mostraram déficit de R$ 6,609 bilhões no sexto mês deste ano, o que se compara com um déficit primário de apenas R$ 953,950 milhões em igual mês do ano passado, o que correspondeu a um salto de 592,77%, subindo praticamente R$ 5,655 bilhões.

 

Diferenças

Para comparação, o governo central, que inclui as contas da União, Previdência e do próprio BC, teve o déficit elevado em 8,52% em valores correntes, quer dizer, sem atualização com base em indicadores inflacionários, saindo de R$ 43,527 bilhões para R$ 47,236 bilhões, correspondendo a um incremento absoluto de R$ 3,709 bilhões. O resultado, portanto, foi mais de sete vezes maior do que o rombo dos governos regionais, o que é fato, mas quando se compara a variação daqueles dois resultados, a relação inverte-se. O déficit regional apresentou um incremento 52,5% mais elevado do que a variação realizada no governo central, quando comparados os valores absolutos.

 

Balanço

Além daquela relação, a nota de política fiscal elaborada pelo BC e divulgada ontem, 31, mostra que a deterioração das contas regionais respondeu ainda por quase 69% do crescimento do déficit primário no setor público como um todo, que avançou de R$ 47,091 bilhões em junho do ano passado para R$ 55,313 bilhões em igual período deste ano. Nessa comparação, houve um aumento de 17,46%, o que correspondeu a um acréscimo de R$ 8,822 bilhões.

Ao contrário do que ocorreu no nível federal do setor público, os números primários foram mais decisivos para Estados e prefeituras na definição do chamado resultado nominal em junho, agora incluindo a conta de juros. As contas nominais dos governos estaduais mostram um salto de 81,90% no déficit nesta área, aumentando de R$ 9,298 bilhões em junho do ano passado para R$ 16,913 bilhões, algo como R$ 7,615 bilhões a mais.

Para as prefeituras, seguindo ainda caminho inverso, o déficit de R$ 333,478 milhões realizado em junho do ano passado transformou-se em um saldo positivo de R$ 707,356 milhões. Quer dizer, essa virada de sinais correspondeu a um ganho de R$ 1,041 bilhão, impulsionado pela variação de R$ 1,181 bilhão no saldo primário.

O governo central teve suas contas atingidas duplamente, e de forma negativa nos dois casos, pelo aumento das despesas com juros do Tesouro e pelas perdas do BC no mercado cambial, que acabam influindo na conta de juros. No governo federal, incluindo a Previdência, as despesas com juros subiram 25,35% no período analisado, subindo de R$ 60,764 bilhões para R$ 76,145 bilhões – um aumento de quase R$ 15,381 bilhões.

Em suas operações, o ganho de R$ 8,801 bilhões realizado em junho do ano passado pelo BC foi anulado neste ano por uma perda de R$ 24,307 bilhões, num impacto de R$ 33,108 bilhões na conta de juros do governo central. Vale dizer, essa mudança foi responsável por 68,3% do aumento dos gastos com juros no governo central. Neste caso, os desembolsos meramente financeiros saltaram 93,31% entre junho de 2025 e igual mês deste ano, saindo de R$ 51,963 bilhões para R$ 100,452 bilhões, quer dizer, nada menos do que R$ 48,489 bilhões a mais.

Na soma de todo o setor público, os juros consumiram R$ 110,653 bilhões em junho deste ano, o que se compara com R$ 61,016 bilhões no sexto mês de 2025, significando R$ 49,637 bilhões a mais, numa alta de 81,35%.

O aumento das despesas com juros foi responsável por 85,8% e por 92,9% do aumento do déficit nominal respectivamente no conjunto do setor público e no governo central. Na área federal, incluindo o BC, o déficit nominal subiu de R$ 95,490 bilhões para R$ 147,688 bilhões, correspondendo a uma alta de 54,66% (em torno de R$ 52,198 bilhões a mais, lembrando que a despesa com juros nesta área cresceu R$ 48,489 bilhões).

No conjunto do setor público, o déficit nominal passou de R$ 108,107 bilhões para R$ 165,966 bilhões, variando 53,52%. Quer dizer, a variação chegou a R$ 57,859 bilhões, dos quais, apenas para relembrar, perto de R$ 49,637 bilhões vieram do aumento dos juros.

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