Dívida bancária das maiores empresas salta 88,7% e supera R$ 2,75 trilhões
Num trabalho divulgado ontem, com base em dados de balanço de 350 empresas não financeiras de capital aberto, o Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi) aponta um salto de 88,71% na dívida bancária e uma perda da capacidade de fazer frente a despesas financeiras, associada não apenas aos juros escorchantes impostos pelo Banco Central (BC) a toda a economia, mas também ao desaquecimento da atividade econômica resultante daquela política.
Os dados aferidos pelo instituto “indicam uma crescente fragilidade financeira entre as grandes empresas não financeiras de capital aberto no Brasil”, num processo agravado em 2025. Na avaliação do Iedi, “o principal diagnóstico é que essa deterioração não resulta de uma queda súbita na atividade operacional, mas sim da combinação de juros historicamente altos, da acumulação de dívidas desde a pandemia e do crescimento moderado da demanda interna”.
Para o conjunto das empresas analisadas, a dívida bancária total saltou de R$ 1,459 trilhão em 2019, antes da pandemia, para R$ 2,754 trilhões no fechamento do exercício de 2025, o que correspondeu a um incremento absoluto de R$ 1,295 trilhão em valores aproximados. Descontada a inflação, isso significou um crescimento real de 34,07% no período. Pouco mais da metade do aumento, agora em termos nominais, ocorreu entre 2019 e 2023, quando o saldo daquela dívida havia alcançado R$ 2,125 trilhões, algo como R$ 665,446 bilhões a mais, em alta nominal de 45,60%. Mas os dois seguintes mostraram ainda uma evolução ainda vigorosa, num avanço correspondente a R$ 629,164 bilhões.
Salto na indústria
As empresas do setor industrial, consideradas em seu conjunto, tiveram o endividamento elevado de R$ 826,319 bilhões em 2019 para R$ 1,476 trilhão apenas seis anos depois, numa alta de 78,64% (ou quase 26,92% depois de descontada a inflação). Mas se excluídos os números da Petrobrás e da Vale, que pelo seu tamanho geram distorções na comparação, a evolução mostrou-se ainda mais substancial. O saldo da dívida bancária aumentou de R$ 415,316 bilhões para R$ 988,646 bilhões, saltando 138,05% ainda sem descontar a variação acumulada pelos preços entre 2019 e 2025, algo na faixa de 40,75%. A valores de dezembro do ano passado, a variação real chegou a 69,12%.
Balanço
O resultado tem sido uma “deterioração silenciosa” da saúde financeira das maiores empresas. “As margens operacionais permaneceram pressionadas sem espaço para crescer e o peso do serviço da dívida gradualmente impactou os resultados líquidos, afetando a capacidade de pagar juros e, por fim, comprometendo o investimento das empresas”, constata o Iedi.
Ainda conforme o instituto, a conjuntura econômica no ano passado foi significativamente diversa daquela experimentada nos anos imediatamente posteriores à pandemia. “Em 2021 e 2022, os principais desafios estiveram associados aos choques de oferta, ao encarecimento dos insumos e às disrupções das cadeias globais de produção”.
Já em 2025, “ao contrário, a queda dos preços industriais e das matérias-primas reduziu as pressões de custos, mas a desaceleração do crescimento das receitas, a maior concorrência no mercado doméstico e o elevado custo do capital passaram a exercer um papel mais relevante sobre os resultados corporativos”, assinala o Iedi.
Na sua avaliação, o desafio central enfrentado pelas grandes empresas de capital aberto em 2025 “não esteve associado somente à capacidade de produzir ou vender, mas ao custo de financiar suas operações e investimentos”. Mais claramente, observa o Iedi, “a deterioração financeira observada no período decorreu muito mais da elevação do custo do capital do que de uma perda generalizada de eficiência operacional”.
Na amostra analisada pelo instituto, a margem operacional agregada sofreu algum recuo ao passar de algo em torno de 16% nos números de 2013 e 2014 para 14,1% no ano passado, ainda superando os níveis alcançados antes da pandemia, mais próximos de 13%. Na indústria, excluídas mais uma vez da Petrobrás e a Vale, a margem operacional baixou de 9,6% em 2024 para 8,1% no ano seguinte, ficando abaixo dos 9,3% anotados em 2019.
“No caso da indústria, a queda de preços de insumos aliviou parte dos custos, amenizando a evolução do desempenho operacional, mas não foi suficiente para compensar a fraqueza das receitas em um claro quadro de desaceleração do setor”, anota ainda o Iedi. O instituto relembra que o ritmo de crescimento da produção industrial havia refluído de 3,1% em 2024 para apenas 0,6% em 2025, com baixa de 0,7% no trimestre final do ano passado.
Outros indicadores mostram como um cenário de piora na situação financeira das grandes empresas brasileiras, com a relação entre dívida líquida e patrimônio líquido das indústrias (excluídas novamente Petrobrás e Vale) subindo de 96,1% em 2019 para 120,8% no ano passado. Isso significa que o tamanho da dívida superava o total de recursos à disposição dos acionistas para turbinar seu negócio e financiar o crescimento das empresas.
Mais “revelador” do cenário observado, prossegue o Iedi, a relação entre o chamado Ebitda (retorno das empresas antes de juros, impostos, amortizações e depreciação) e a despesa financeira bruta no setor industrial caiu para 0,98 no ano passado, “ficando abaixo de 1,0 ponto em todos os trimestres” de 2025, frente a 1,40 em 2019. Colocado de forma mais clara, aquela relação significa que a geração de caixa operacional “deixou de ser suficiente para cobrir integralmente suas despesas financeiras”.
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