sexta-feira, 9 de outubro de 2026
BEM-ESTAR

Contato com a natureza ajuda corpo e mente a desacelerar

Pesquisas associam áreas naturais à redução do estresse, à recuperação da atenção e a respostas fisiológicas de relaxamento

Luana Avelarpor em
Contato com a natureza ajuda corpo e mente a desacelerar

Um banco sob árvores, uma caminhada por uma praça ou alguns minutos diante de uma paisagem podem parecer pouco diante de um dia marcado por ruído, trânsito e pressa. Pesquisas acumuladas ao longo de décadas, porém, associam o contato com ambientes naturais à redução da ansiedade, à queda da pressão arterial e à melhora da atenção. A questão agora é entender por que esse efeito acontece e por que varia entre as pessoas.

Uma das evidências mais citadas surgiu nos anos 1980. Pacientes submetidos a cirurgia de vesícula que podiam ver árvores pela janela receberam alta, em média, quase um dia antes daqueles cujo quarto tinha vista para uma parede de tijolos. Também precisaram de analgésicos menos fortes. O resultado abriu espaço para pesquisas sobre o papel do ambiente na recuperação.

Hoje, duas hipóteses ajudam a explicar esse efeito. A primeira envolve o sistema nervoso parassimpático, ligado ao repouso do organismo. Em ambientes naturais, sua atividade pode aumentar, favorecendo respostas como redução da frequência cardíaca e menor estado de alerta. A segunda trata da atenção. Cidades exigem foco constante para lidar com trânsito, barulho, deslocamentos e estímulos sucessivos. Esse esforço se desgasta ao longo do dia.

Na natureza, parte da atenção é capturada de maneira menos exigente por sons, movimento, luz e profundidade da paisagem. Isso favorece a chamada restauração da atenção, recuperação da capacidade de se concentrar com menos esforço.

Pesquisas da Universidade de Washington compararam pessoas que caminharam por 50 minutos em ambientes naturais com outras que fizeram o mesmo em áreas urbanas. Além da redução em indicadores de ansiedade, o grupo exposto à natureza teve desempenho melhor em uma tarefa de memória de trabalho. Os participantes precisavam guardar sequências de letras enquanto resolviam equações e lembraram, em média, nove ou dez letras a mais.

Os dois mecanismos podem atuar ao mesmo tempo. Reduzir o estresse e recuperar a atenção não são efeitos concorrentes, e essa combinação ajuda a explicar por que uma caminhada curta pode mudar a percepção de um dia saturado de estímulos.

Nem toda paisagem produz o mesmo efeito

A resposta, porém, não é automática. Em um estudo japonês, cerca de 80% dos jovens expostos a uma floresta apresentaram aumento em um indicador de atividade do sistema nervoso parassimpático. Nos demais, esse indicador caiu.

Outra pesquisa, realizada em El Paso, no Texas, testou a recuperação do estresse em três cenários de realidade virtual: uma paisagem verde, uma paisagem desértica e um escritório. A expectativa era de que a vegetação produzisse o melhor resultado. O ambiente desértico, porém, apresentou efeito semelhante.

O achado sugere que familiaridade, memória e sensação de pertencimento também pesam na maneira como cada pessoa reage à paisagem. Para alguém acostumado a uma região árida, o deserto pode transmitir segurança tão bem quanto uma área arborizada para outra pessoa. A natureza, portanto, não funciona como fórmula universal.

As pesquisas também apontam que exposições repetidas, mesmo breves, podem acumular efeitos ao longo do tempo. A discussão ganha dimensão urbana num mundo em que mais de 80% da população vive em vilas e cidades, segundo a Organização das Nações Unidas.

Se parques, árvores e outros ambientes naturais ajudam a reduzir o estresse e a recuperar a atenção, seu acesso deixa de ser apenas escolha individual e passa também pelo desenho de bairros, escolas e serviços de saúde. Isso não transforma uma caminhada em tratamento nem substitui acompanhamento médico. Mostra, porém, que o ambiente em que se vive também participa da forma como corpo e mente respondem ao cotidiano.

A sensação de alívio depois de alguns minutos entre árvores pode ter uma explicação menos abstrata do que parece. Ela começa na forma como o organismo desacelera, passa pela recuperação da atenção e termina em algo simples: por alguns instantes, o corpo precisa gastar menos energia para responder ao mundo.

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