terça-feira, 29 de setembro de 2026
SAÚDE DA MULHER

Papanicolau ainda é exceção para a maioria das brasileiras; dados revelam lacuna na prevenção

Pesquisa mostra que 61% das mulheres não fizeram o exame no último ano e 39% não foram vacinadas contra o HPV

Luana Avelarpor em
Papanicolau

Uma em cada três brasileiras de 18 a 45 anos não se considera parte do grupo de risco para o câncer do colo do útero. O dado ajuda a explicar por que um tumor com ferramentas de prevenção e rastreamento disponíveis ainda encontra tantas mulheres fora do acompanhamento. Em levantamento nacional, 61% das entrevistadas não haviam feito o Papanicolau nos 12 meses anteriores.

A pesquisa, conduzida pelo Grupo Brasileiro de Tumores Ginecológicos (EVA) em parceria com o Instituto Locomotiva, ouviu 800 mulheres de todas as regiões do país. Além da baixa realização do exame, 26% disseram não saber exatamente para que ele serve.

O Papanicolau identifica alterações nas células do colo do útero que podem anteceder o câncer. Essa é justamente a vantagem do rastreamento: encontrar lesões antes que a doença esteja instalada. O principal agente envolvido nesse processo é o HPV, vírus sexualmente transmissível presente em 99% dos casos de câncer do colo do útero.

A prevenção brasileira atravessa agora uma mudança de método. O teste de DNA-HPV, capaz de detectar diretamente tipos do vírus associados ao desenvolvimento do tumor, passou a ser o exame primário de rastreamento no Sistema Único de Saúde (SUS), com implantação gradual.

A presença do novo teste cresceu de um ano para o outro, mas ainda alcança uma parcela pequena das entrevistadas. Em 2026, 22% disseram ter feito o DNA-HPV nos 12 meses anteriores. Em 2025, eram 13%. O avanço mostra que a tecnologia começa a chegar à rotina, embora a cobertura ainda esteja distante de alcançar a maioria.

Saber que existe não basta

A vacinação contra o HPV revela outra parte do problema. Entre as mulheres ouvidas, 39% não haviam sido vacinadas ou não sabiam informar se tinham recebido o imunizante. Entre as não vacinadas, apareceu com frequência a crença de que a vacina não seria indicada para mulheres adultas.

O contraste está nas próprias respostas: 44% afirmaram conhecer bem o tema da vacinação. A diferença sugere que informação declarada e prática preventiva não caminham necessariamente juntas. Saber que a vacina existe ou reconhecer sua importância não garante que ela faça parte do cuidado cotidiano.

A distância entre prevenção disponível e prevenção efetiva ganha peso diante das projeções do Instituto Nacional de Câncer (INCA). Para o período de 2026 a 2028, são esperados mais de 19 mil novos casos de câncer do colo do útero por ano no Brasil, cerca de 14% acima da estimativa do triênio anterior.

O enfrentamento da doença depende de três frentes que se complementam: vacinação, rastreamento e tratamento das lesões pré-cancerosas. Nenhuma delas funciona isoladamente, e todas perdem força quando a mulher chega ao sistema de saúde apenas depois do aparecimento de sintomas.

Nesse cenário, o dado mais incômodo da pesquisa talvez não seja apenas o número de exames que deixaram de ser feitos, mas a parcela de mulheres que ainda não se reconhece como alguém que precisa desse acompanhamento. Entre a existência do Papanicolau, a chegada do DNA-HPV ao SUS e a vacinação, permanece uma lacuna decisiva: fazer com que a prevenção saia da recomendação e entre, de fato, na rotina.

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