sábado, 26 de setembro de 2026

Dois terços dos países acompanhados pelo FMI fecharão 2024 com déficit

Lauro Veiga Filhopor em
Dois terços dos países acompanhados pelo FMI fecharão 2024 com déficit
Dois terços dos países acompanhados pelo FMI fecharão 2024 com déficit

No mundo muito além do fantasioso universo cobiçado por dez em cada dez economistas, analistas e comentaristas alinhados à “esquadrilha austericida”, que domina há décadas o pensamento econômico e a grande imprensa corporativa, a maioria dos governos ao redor do globo vai fechar o ano com rombos em suas contas primárias. Quer dizer, em português claro e estridente, as receitas não serão suficientes para fazer frente a todas as despesas, já excluídos os gastos com juros e amortizações das dívidas do setor público. Nada muito diferente do que o cenário projetado para o Brasil.

Mas só aqui o mundo parece desfrutar seus últimos suspiros, com a economia condenada ao abismo final porque – atenção, atenção – a meta anteriormente fixada pela equipe econômica para 2025 e 2026 foi alterada, saindo de saldos positivos de 0,5% e 1,0% respectivamente para um equilíbrio entre receitas e despesas no ano que vem e um superávit de 0,25% no exercício seguinte. Foi o suficiente para despertar a ira sagrada dos mercados, embora no restante da economia global os dados do setor público demonstrem um quadro geral de desequilíbrios entre despesas e receitas e dívidas elevadas – em vários casos, muito mais elevadas do que a dos governos no País.

A mais recente edição do Monitor Fiscal do Fundo Monetário Internacional (FMI) mostra, por exemplo, que 123 países entre 185 com dados projetados pela instituição continuarão com governos deficitários, o que significa dizer que praticamente 66,5% deles fecharão o exercício deste ano com rombos. Na média global, o déficit primário dos governos deverá alcançar algo em torno de 3,40% do Produto Interno Bruto (PIB), repetindo o rombo realizado em 2023. O acompanhamento do fundo mostra ainda que, na maioria dos casos, os governos não conseguiram retomar a relação observada antes da pandemia, quando o déficit primário global (aquele que desconsidera as despesas com juros, para deixar claro) havia atingido algo em torno de 2,7% do total de riquezas produzidas pelo lado real da economia em todo o planeta.

Distantes de 2019

Em 2020, como reflexo das medidas adotadas para socorrer as vítimas do vírus Sars-Cov-19, reforçar a assistência à saúde e dar suporte à economia, o rombo global havia saltado para 6,9% do PIB, com a dívida bruta dos governos passando a somar 99,4% do produto diante de 84,2% um ano antes. O grupo das sete economias mais avançadas, reunidas no G7, teve seu rombo elevado de 2,11% para 10,04% na passagem de 2019 e 2020, enquanto a dívida pública bruta avançou de 118,02% para 139,58% do PIB no mesmo intervalo. Com a reabertura dos negócios e a recuperação da economia e o fim dos gastos extraordinários gerados pela pandemia, o superávit primário chegou a baixar para 1,78% do PIB em 2022, mas voltou a se elevar até 4,69% no ano seguinte, projetando-se para este ano um déficit menor, na faixa de 2,96%, mas ainda superior àquele observado imediatamente antes da pandemia. A relação entre dívida bruta e PIB recuou para 126,15% no ano passado e tende a atingir 126,53% neste ano, mantendo-se bem acima dos valores registrados em 2019.

Balanço

  • No Brasil, o setor público experimentou movimentos semelhantes, chegando a gerar um (enganoso) superávit primário em 2022, último ano da gestão desastrosa do inelegível. Na contabilidade do FMI, que difere das séries estatísticas do Banco Central (BC) e da Secretaria do Tesouro Nacional (STN), o governo geral havia anotado ligeiro déficit de 0,34% em 2019, percentual que disparou para 7,86% no primeiro ano da pandemia.
  • Em igual período, a dívida bruta do governo geral saiu de 87,12% em 2019, quando havia superado a média global, para 96,01% do PIB em 2020, passando a ficar abaixo do índice médio observado no restante do mundo e mantendo-se assim nos anos seguintes. Mais claramente, a relação entre dívida e PIB continuou relativamente mais baixa no Brasil do que na média planetária, caindo para 83,94% em 2022.
  • Um ano depois, o mundo reduziu seu endividamento público para 94,70% em 2022 e daí para 91,30% no ano passado, com o FMI projetando ligeira elevação até o final deste ano, para algo em torno de 93,20%. A dívida do governo brasileiro alcançou 84,68% em 2023 e tende a se aproximar de 86,72% até o final deste ano, na previsão do fundo, que chegou a revisar ligeiramente para baixo a estimativa feita em outubro passado para a dívida pública brasileira, projetada então em 90,3% do PIB.
  • Ainda de acordo com o monitor do FMI, o sinal do resultado primário do governo geral no País foi revertido em 2022, com o setor público passando a gerar um superávit de 2,11% do PIB por conta principalmente de receitas não recorrentes, explicadas pelo crescimento exponencial das transferências de dividendos e participações, concessões e contribuições sobre a exploração de recursos minerais.
  • Nos dados da STN, a soma daqueles três itens trouxe uma arrecadação líquida, já descontada as remessas para governos estaduais e prefeituras, de R$ 188,215 bilhões em 2022, perto de 1,87% do PIB. Na média de 2017 a 2021, aquelas receitas haviam somado R$ 74,366 bilhões, representando 0,99% do PIB. A comparação entre os dois períodos mostra um salto de 153,09%. Caso a mesma participação em torno de 1,0% do PIB fosse mantida em 2022, a arrecadação naquelas áreas sofreria uma frustração de R$ 88,215 bilhões, o que transformaria o superávit primário do governo central, anunciado em 0,55% do PIB, em déficit de 0,33% (perto de R$ 33,480 bilhões).
  • Para este ano, o FMI espera uma redução do déficit para 0,64% do produto bruto, o que corresponderia a um corte de 1,28% em relação ao rombo calculado pelo fundo para 2023.
  • Entre os 20 principais países emergentes, ainda de acordo com o fundo, o déficit do governo geral subiu de 3,35% em 2019 para 7,53% em 2020, baixando para 4,08% em 2022. No ano seguinte, houve leve avanço para 4,18% (duas vezes maior do que o déficit no Brasil) e espera-se, para este ano, um discreto recuo para 4,11% do PIB, quer dizer, 6,4 vezes mais do que o resultado do setor aqui dentro.

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