quarta-feira, 13 de maio de 2026

Em meio à guerra, inflação da FGV cede em abril (mas incerteza persiste)

Lauro Veiga Filhopor Lauro Veiga Filho em 5 de maio de 2026
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Nas duas últimas semanas de abril, o ritmo de elevação dos preços em geral experimentou alguma desaceleração, no acompanhamento quadrissemanal realizado pelo Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV), responsável pelo cálculo do Índice de Preços ao Consumidor Semanal (IPC-S). Em meio à guerra e a todas as incertezas a partir dali, não deixa de ser uma notícia relativamente positiva, embora não autorize projeções automáticas para o restante do ano – precisamente por conta do cenário geral de turbulências e insegurança na economia mundial. Sugere, por exemplo, que focos inflacionários não estão necessariamente consolidados e que o comportamento futuro dos preços aqui dentro não está inteiramente “contratado”, num termo muito utilizado por consultores e analistas do setor financeiro. Assim como não há garantias, por enquanto, de que a inflação seguirá em baixa nas próximas semanas.

Ontem, num exemplo mais evidente, os preços do barril do petróleo mais leve, tipo Brent, ensaiavam alta de quase 5,3% em relação ao fechamento imediatamente anterior, aproximando-se de US$ 114 para acumular variação de 87,3% desde janeiro. Os desajustes gerados pela guerra no Oriente Médio e pelo fechamento do estreito de Ormuz, responsável pelo escoamento de um quinto do petróleo consumido em todo o mundo, tornam quaisquer projeções pouco realistas, para reafirmar o óbvio.

Ainda assim, na quadrissemana finalizada em 30 de abril, quinta-feira da semana passada, o IPC apresentou variação de 0,88%, com o índice acumulado em 12 meses recuando modestamente para 3,83% na medição do Ibre/FGV frente a 3,92% nas quatro semanas concluídas ao final da primeira quinzena de abril. Neste mesmo período, o IPC-S havia apontado elevação de 0,96%. Quer dizer, nas duas semanas seguintes, o índice cedeu algo como 0,08 ponto percentual.

Pode-se considerar que foi apenas uma oscilação num quadro de pressões inflacionárias aquecidas pelo conflito armado pelos governos dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã. Olhando para o “copo cheio”, ao menos não se configurou, até aqui, uma escalada inflacionária, com focos altistas bem delimitados e pouco “transbordamento” (daquelas altas) para os demais preços na economia, ao que sugerem os dados.

Combustíveis

O grupo “transportes” registrou a maior influência para a perda de vigor na alta do IPC-S de abril, de acordo com o Ibre/FGV, com a inflação no setor saindo de 2,46% na leitura da segunda quadrissemana do mês passado (entre 14 de março e 15 de abril) para 2,20% nas quatro semanas terminadas no dia 22 e daí para 1,47%. No caso da gasolina, os preços chegaram a subir 5,98% na terceira quadrissemana e passaram a apresentar variação de 3,84% no fechamento de abril. Como parece muito evidente, não há certezas sobre o comportamento dos preços dos combustíveis nas próximas semanas diante das fortes oscilações observadas no mercado internacional para o barril de petróleo.

Balanço

Aqui dentro, pelo menos um fator tende a atual na contramão daquelas altas, já que os preços do etanol hidratado nas usinas paulistas encerraram abril em baixa de 21,5% frente a semana final de março, com queda de 18,9% para o anidro, segundo acompanhamento semanal realizado pelo Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), vinculado à Escola Superior de Agricultura ‘Luiz de Queiroz’ da Universidade de São Paulo (Esalq/USP). Em Goiás, na mesma comparação, os preços do litro do etanol hidratado nas vendas internas cederam 19,6% diante de redução de 17,8% para o anidro.

Na marcação do Ibre/FGV, os preços dos alimentos mantiveram ritmo relativamente acelerado, com variação de 1,19% em abril, depois de experimentar alta de 1,56% na primeira quadrissemana do mesmo mês. Mas houve alguma aceleração quando considerada a taxa de 1,09% registrada em 30 dias até 22 de abril.

Ainda no mês passado, os custos da habitação apresentaram variação de 0,46% depois de anotar elevação de 0,35% na primeira quadrissemana de abril. A velocidade de alta da tarifa média da eletricidade residencial chegou a apresentar desaceleração entre a terceira e a quatro quadrissemana do mês passado, passando de 0,78% para 0,71%. Mas em maio espera-se alguma pressão adicional em função da entrada em vigor a bandeira amarela, o que deverá corresponder a um custo adicional de R$ 1,88 a cada 100 kWh consumidos, com ligeira pressão sobre o índice inflacionário do grupo.

Setores da mídia, identificados equivocadamente como de uma imprensa autodenominada independente (embora sob controle de instituições financeiras), decidiram destacar supostos recordes tanto para o déficit nominal quanto para o resultado primário do setor público nos dados acumulados em 12 meses até março deste ano.

Seguindo esse critério, o déficit nominal do setor público como um todo, incluindo as despesas com juros, de fato cresceu 28,37% entre março do ano passado e igual mês deste ano, avançando de R$ 948,478 bilhões para aproximadamente R$ 1,218 trilhão, variando R$ 269,053 bilhões. O governo central contribuiu com 88,43% para esse crescimento, já que o déficit nominal nesta área aumentou de R$ 861,207 bilhões para R$ 1,099 trilhão, crescendo 27,63% (perto de R$ 237,927 bilhões a mais).

O diligente jornalista deixou de observar um dado central para a análise daqueles números: na esfera federal, quase 89% do aumento do déficit nominal acumulado em 12 meses concentraram-se em um único mês. Na comparação entre março deste ano e igual mês do ano passado, o governo central elevou seu déficit nominal de R$ 69,562 bilhões para R$ 187,216 bilhões, num incremento de R$ 117,654 bilhões, ou seja, 169,14% a mais.

Esse desempenho negativo reflete igualmente o aumento do déficit primário de um único na área federal, por conta do pagamento extraordinário de sentenças judiciais e precatórios. O déficit cresceu 24,4 vezes ao disparar de R$ 3,070 bilhões para R$ 75,061 bilhões entre março do ano passado e idêntico mês deste ano, subindo R$ 71,991 bilhões.

Ainda na esfera federal, o déficit primário medido em 12 meses cresceu 528,2% entre março de 2025 e igual período deste ano, subindo de R$ 21,264 bilhões para R$ 135,849 bilhões, quer dizer, em torno de R$ 114,225 bilhões a mais. Como mostram os dados, apenas um mês respondeu por quase dois terços (63,0% mais precisamente) de todo o aumento registrado ao longo de 12 meses – o que não referenda uma tendência de explosão de despesas ou de aumento da “gastança” como prefere a esquadrilha austericida.

Os supostos recordes não resistem a uma comparação mais atenta. O déficit nominal havia alcançado 9,86% do Produto Interno Bruto (PIB) para o total do setor público em julho de 2024, no acumulado em 12 meses, chegando a 9,41% em março deste ano (mas acima da participação de 7,88% registrada em março de 2025). O déficit primário havia atingido 2,49% do PIB em maio de 2024, mas fechou em 1,06% entre abril de 2025 e março de 2026 (mas subiu quase 10 vezes frente a março do ano passado, quando havia se limitado a 0,11% do PIB).

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