Segunda-feira, 15 de julho de 2024

Coluna

Enquanto ministro dos mercados sonha com Santo Graal, indústria namora com recessão

Publicado por: Sheyla Sousa | Postado em: 03 de julho de 2019

Como
esta coluna havia antecipado (O Hoje, 08.06.19), os números de maio da pesquisa
do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) sobre a produção
industrial trazem um ganho ilusório na comparação com igual mês do ano passado,
mostrando um salto de 7,1%. Para recordar, em maio do ano passado, como reflexo
direto da greve dos caminhoneiros, a produção havia desabado 11% frente a abril
e 6,3% em relação a maio de 2017. Isso não evitou que a produção prossiga em
trajetória de queda em relação ao mês imediatamente anterior, consolidando um
retrocesso de praticamente uma década e meia.

A
produção realizada pela indústria de uma forma geral encontrava-se, em maio,
perto de 17,5% abaixo do seu melhor momento na série histórica, alcançado em
maio de 2011, e equiparava-se, na média, aos níveis observados em junho e julho
de 2004. Você leu corretamente, caro leitor, cara leitora. Em uma década e meia
a indústria brasileira não saiu do lugar e namora perigosamente com novo
mergulho na recessão, enquanto o ministro dos mercados sonha com o Santo Graal
e aposta tudo na reforma “salvadora” da Previdência (que não se prestará a
encaminhar soluções para os graves problemas de curto prazo enfrentados pela
economia em geral e pela indústria, particularmente).

Mesmo
o aparentemente vigoroso avanço registrado em maio pode ser relativizado, de
certa forma. Ainda que 21 dos 26 setores da indústria tenham apresentado
números positivos, três segmentos explicam praticamente 85% da alta de 7,1%
observada na comparação com maio do ano passado, o mês da greve (só para
relembrar). As indústrias de alimentos e bebidas e de veículos cresceram, pela
ordem, 16,2%, 23,9% e 37,1%. Uma enormidade que só se justifica pela base
bastante reduzida de comparação. Somados, os setores de bens alimentícios e de
bebidas responderam por 3,05 pontos no crescimento de 7,1% registrado pela
indústria geral (contribuição de 42,96%). A contribuição da indústria de
automóveis, reboques e carrocerias chegou a 2,98 pontos (41,97%). Na soma dos
três setores, chega-se a uma contribuição agregada de 84,93%.

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O disco furado

Na
média, a produção industrial tem apresentado taxas de crescimento muito
próximas de zero desde o segundo semestre do ano passado, na comparação com o
mês imediatamente anterior, tendência mantida ao longo dos cinco primeiros
meses do ano. Esse comportamento explica porque o setor, na média, não cresceu
no acumulado dos últimos 12 meses. Economistas e analistas mais ortodoxos (ou
mais “identificados” com os mercados) sugerem que não haveria falta de demanda,
mas uma “carência de oferta agregada”. Nesta linha, a economia e a indústria em
particular teriam realizado investimentos equivocados nos últimos anos e
enfrentariam, agora, “baixa eficiência produtiva”, o que impediria seu
crescimento. Desconsideram, assim, estudos e dados estatísticos que apontam a falta
de demanda como causa e principal fator a explicar a debilidade não só na
indústria como do conjunto da economia, conclusões reforçadas pelo desemprego
elevado e pela grande ociosidade no setor industrial.

Balanço

·  
A
pesquisa do IBGE retrata a perda evidente de dinamismo da indústria também
neste ano. O salto de 7,1% frente a maio do ano passado não se traduziu em
qualquer alívio na comparação com o mês imediatamente anterior. Ao contrário, a
produção recuou 0,2% (numa avaliação mais condescendente, não saiu do lugar).
Isso significa dizer que o nível da produção se manteve muito baixo (e sequer
conseguiu repor toda a perda de maio de 2018, registrando baixa de 3,7% frente
a abril daquele ano).

·  
O
recuo mensal esteve associado principalmente às indústrias de fabricação de
bens duráveis e de semi e não duráveis, com perdas de 1,4% e de 1,6% na
passagem de abril para maio.

·  
“Coração”
da indústria como um todo, o setor de bens intermediários chegou a crescer
1,3%, depois de uma sequência de quatro meses de resultados negativos, o que
levou o segmento, que produz insumos e matérias-primas utilizados por toda a
indústria em seu processo produtivo, a acumular retração de 2,0% nos cinco
primeiros meses do ano em relação a idêntico período de 2018.

·  
Esse
resultado contribuiu para que a produção da indústria como um todo sofresse
recuo de 0,7% no acumulado dos primeiros cinco meses do ano. Parte desse
resultado veio da queda de 13,2% na indústria extrativa, muito influenciada
pela redução na produção de minério de ferro em consequência do desastre em
Brumadinho (MG).

A indústria de transformação avançou 11,2% sobre
maio do ano passado (resultado da base de comparação reduzida), depois de
quedas de 5,1% e de 1,0% em março e abril. Nos cinco meses, registrou avanço de
1,2% (e de 0,6% nos 12 meses encerrados em maio deste ano).