terça-feira, 14 de julho de 2026

Falta de recursos para o seguro rural pode agravar crise no campo

Lauro Veiga Filhopor Lauro Veiga Filho em 14 de julho de 2026 às 08:35
Falta de recursos para o seguro rural pode agravar crise no campo

O encurtamento das margens de lucratividade na agricultura, refletindo preços médios mais baixos e custos sob pressão, combinado com perdas na produção geradas pelo aumento na frequência de eventos climáticos extremos, reduziram o espaço no orçamento dos produtores para a contratação de seguros, no diagnóstico presidente da Comissão de Seguro Rural da Federação Nacional de Seguros Gerais (FenSeg), Gláucio Toyama. Neste cenário, encrespado ainda por juros “exorbitantes”, alta da inadimplência e dos casos de recuperação judicial, “o seguro acaba não entrando na planilha dos produtores”, reforça ele.

O quadro geral para 2026 complicou-se um tanto mais com o bloqueio de R$ 461,7 milhões no começo do ano, seguido do cancelamento de R$ 56,2 milhões de um orçamento já minguado fixado inicialmente em R$ 1,018 bilhão, praticamente repetindo a previsão orçamentária estabelecida para o ano passado. Diante dos cortes e bloqueios, os recursos disponíveis para a subvenção do seguro no campo acabaram reduzidos para algo ao redor de R$ 500,0 milhões – uma fração dos recursos necessários, o que tende a tornar a crise experimentada pelo setor ainda mais desafiadora.

Os primeiros números deste ano já haviam acendido o sinal de alerta na indústria de seguros, sugerindo para o restante do exercício desempenho inferior aos resultados de 2025, comenta Toyama. Os dados da Superintendência de Seguros Privados (Susep) mostram uma redução de 21,7% em termos reais na arrecadação de prêmios do seguro rural, quando excluídas as apólices do seguro de vida contratadas pelos produtores, depois de queda real de 16,06% na saída de 2024 para 2025.

 

Perdas

Em momentos de crise, na sua visão, o Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR) seria fundamental para a proteção especialmente de pequenos e médios produtores e de agricultores familiares. Nos últimos anos, no entanto, prossegue Toyama, a subvenção oficial ao seguro tem sido desidratada. No ano passado, nas estatísticas do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), o valor total dos prêmios desabou 55,1% em termos nominais em relação a 2024, encolhendo de R$ 3,549 bilhões para R$ 1,595 bilhão, enquanto a subvenção sofreu baixa de 46,2%, saindo de R$ 1,049 bilhão para R$ 565,357 milhões. A área segurada despencou de 7,088 milhões para apenas 3,203 milhões de hectares, a mais baixa desde 2015, correspondendo a menos de 3,0% da área plantada com lavouras e florestas no País, nos números do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

 

Balanço

A adoção de níveis mais elevados de subvenção ao prêmio, sustenta Toyama, certamente evitaria ou mitigaria pressões fiscais mais significativas de projetos recorrentes de securitização e de renegociação de dívidas no campo. Em setembro do ano passado, o governo autorizou a liberação de R$ 12,0 bilhões para renegociar dívidas de 100,0 mil pequenos e médios produtores prejudicados por eventos climáticos e, neste momento, o Senado examina a criação de uma linha com valor limitado a R$ 30,0 bilhões, para refinanciamento de dívidas rurais com recursos do Fundo Social do Pré-Sal – embora algumas estimativas coloquem o impacto fiscal dessa nova renegociação muito próximo de R$ 140 bilhões em uma década.

As restrições orçamentárias à subvenção dificultam a “previsibilidade e planejamento” das operações, “dado que políticas públicas continuam sendo um fator importante para expansão do seguro rural”, afirma Paulo Hora, superintendente executivo de seguros rurais e de resseguro da Brasilseg, empresa da BB Seguros. Líder de mercado, com participação de 62,2% no segmento de seguro rural, a Brasilseg espera um “ambiente ainda desafiador” neste ano.

Estrategicamente, resume Horta, a seguradora vai reforçar seu portfólio, apostando no crescimento do segmento pecuário, das carteiras de proteção ao patrimônio do produtor, assim como nas coberturas para a agricultura familiar, “em especial hortifrútis”.

Como parte dos investimentos em inovação, a Brasilseg “tem avançado em novo modelo de customização de seguro agrícola, com análise individualizada por fazenda”, assim como no desenvolvimento do seguro paramétrico, por enquanto baseado em índices climáticos, mas com novos projetos a caminho, adianta Hora. O seguro paramétrico também tem sido destinado para proteção de pastagens, além de nichos de mercado e na cobertura de catástrofes, principalmente em áreas nas quais o seguro tradicional não opera.

A BB Seguros, de acordo com Hora, toca ainda projetos ligados à agricultura regenerativa, num sistema baseado em coberturas e preços diferenciados conforme a adoção de práticas sustentáveis pelo produtor e tem investido na automação de processos para simplificar as etapas de venda e aprimorar o relacionamento com clientes no pós-venda.

Na visão de Fabio Damasceno, diretor de seguro rural da Mapfre, vice-líder no setor, o avanço desse setor no País depende, em larga medida, “de mecanismos de compartilhamento de riscos entre os setores público e privado” e de “políticas públicas bem desenhadas para permitir que o mercado privado opere com escala, diversidade de produtos e sustentabilidade técnica”.

Lançado neste ano durante a COP30, em Belém (PA), apresenta Damasceno, o biosseguro oferece proteção para projetos de restauração florestal e de crédito de carbono. No caso de incêndios ou de degradação de matas, exemplifica ele, “a cobertura não se limita à recomposição da área, mas busca preservar a continuidade do projeto, o que inclui, quando aplicável, a reposição de créditos de carbono”. No último ciclo agrícola, a Mapfre colocou em operação o seguro Faixa + Margem. Destinado a produtores médios e grandes do Centro-Oeste, o produto adota um sistema de proteção por faixas de produtividade, assegurando receita e rentabilidade ao produtor.

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