Incerteza política adia decisões de investimento e de gasto na economia

Publicado por: Lauro Veiga Filho | Postado em: 25 de agosto de 2021

Uma combinação muito negativa de fatores vai tornando a cada dia mais penosa a pretendida retomada do crescimento econômico no País, juntando no mesmo pacote níveis recordes de desemprego, perda de renda para as famílias, especialmente para as muito pobres, mais penalizadas pela retomada da inflação, que tem servido como pretexto para o aumento dos juros – o que, por sua vez, contribui para gerar mais despesas, maior endividamento público e ainda para desestimular decisões de investimento e de gasto pelas empresas e pessoas físicas. Para complicar, como se não sobrassem motivos, o cenário de crescente instabilidade política acirra o clima de incertezas na economia, anota a economista Silvia Matos, coordenadora do Boletim de Conjuntura do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV).

No cenário enfrentado neste momento pela economia, prossegue a economista, o agravamento da percepção de risco em relação ao futuro imediato e mesmo no médio prazo as empresas não investem, por falta de perspectivas mais concretas de crescimento da demanda, e o consumidor segura seus gastos por temer a perda do emprego, o que termina agravando a falta de demanda. Num primeiro momento puxada pelos preços dos alimentos e agora comandada pelos aumentos dos combustíveis e do gás de cozinha, mas com elevação de preços igualmente no setor de serviços, a taxa de inflação para as famílias de renda mais baixa, registra Silvia, supera os 9,0% no acumulado em 12 meses até julho, impondo mais perdas.

Cenário dramático

A pandemia demonstrou ser “intensiva em políticas fiscais”, como define a economista, indicando a necessidade de políticas ativas de transferência de renda pelo setor público em favor de empresas e das famílias mais vulneráveis, como de resto ocorreu em praticamente todo o mundo. A necessidade desse tipo de atuação do setor público revelou-se mais premente por aqui já que o desemprego, perto dos 12,0%, já era muito elevado antes da crise, assim como a informalidade, o que deixou quase metade da população ocupada fora dos programas públicos de manutenção do emprego acionados durante o desastre sanitário brasileiro. “A pandemia deixa cicatrizes porque não será possível resolver o (problema do) mercado de trabalho de uma hora para outra. O cenário é dramático. As pessoas que perderam o emprego vão ficar muitos anos sem conseguir voltar ao mercado de trabalho”, comenta Silvia.

Balanço

  • “A debilidade persistente do mercado de trabalho”, sugere nada mais, nada menos do que o Fundo Monetário Internacional (FMI), pode gerar o que se chama de histerese no setor, tornando mais duradouros os efeitos do desemprego. Mais claramente, sem empregos por um período mais longo, esses trabalhadores enfrentarão dificuldades cada vez maiores de conseguir recolocação no mercado, seja por mudanças no perfil do emprego e da economia, seja por desatualização, agravada pela perda do contato diário com o chão de fábrica.
  • Vinda do FMI, em paper produzido em julho deste ano pelo economista sênior do fundo, Marian Moszoro, a colocação não deixa de surpreender, já que tem sido associada a correntes do pensamento econômico consideradas “desenvolvimentistas” (ou heterodoxas, para recorrer a um jargão mais antigo no meio econômico).
  • O trabalho surpreende ainda pelo fato de o staff do fundo reconhecer a importância de investimentos públicos bem calibrados para combater o desemprego, ao estimular o aumento do emprego em setores amplos da economia. Os cálculos econométricos conduzidos por Moszoro mostram que os efeitos são ainda maiores nas economias emergentes e nos países pouco desenvolvidos, assim como os impactos mostraram-se mais relevantes no caso de investimentos em projetos de reconversão dos países em direção a uma economia mais “verde”, menos poluente, especialmente na área de energias renováveis.
  • Conforme o texto, no ano passado, comparado ao quarto trimestre de 2019, o mundo todo liquidou em torno de 255,0 milhões de empregos de tempo integral, significando uma redução de 8,8% no total de horas trabalhadas globalmente. Para se ter uma ideia, as perdas foram aproximadamente quatro vezes maiores do que aquelas sofridas pelo mercado mundial de trabalho na crise financeira de 2009. Mesmo com a recuperação esperada para este ano em toda a economia mundial, o artigo projeta que o mundo ainda terá 130,0 milhões de empregos a menos do que no trimestre final de 2019.
  • Os resultados alcançados pelo trabalho mostram que o aumento nos investimentos públicos de um ponto de porcentagem sobre o Produto Interno Bruto (PIB) global poderia criar mais de 7,0 milhões de empregos diretos em todo o mundo, cerca de 5,4% dos empregos de tempo integral perdidos em 2021 (ainda em relação ao final de 2019). Considerando efeitos macroeconômicos diretos e indiretos acionados pelo investimento público adicional de um ponto do PIB, reforce-se, poderiam ser gerados entre 20,0 milhões a 33,0 milhões de empregos.
  • Na mesma linha, o estudo mostra que um investimento extra de US$ 1,0 milhão realizado pelo setor público em infraestrutura teria como efeito a criação de três a 6,6 empregos nas economias mais avançadas; entre 10,4 a 17,2 empregos nos países emergentes; e 16 a 30,2 empregos novos nos países em desenvolvimento de baixa renda.
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