Indicadores da indústria melhoram, mas revelam desigualdades no setor

Publicado por: Lauro Veiga Filho | Postado em: 24 de junho de 2021

O cenário estampado pela mais recente edição da sondagem industrial da Confederação Nacional da Indústria (CNI), divulgada ontem, sugere alguma melhoria para o desempenho da indústria, setor que tem experimentado retrocessos em série desde a primeira metade da década passada, bombardeado pela excessiva valorização do real frente ao dólar, juros altíssimos e perda de espaço nos mercados doméstico e internacional. Essa melhoria, no entanto, parece reforçar as desigualdades dentro do setor, favorecendo em intensidade maior as grandes empresas industriais. Adicionalmente, percebe-se que a melhoria parece mais orientada para as expectativas em relação aos próximos seis meses e surge em proporções mais reduzidas quando as empresas entrevistadas avaliam as condições atuais na economia.

Os números parecem embalados ainda pelo crescimento da produção, até certo ponto enganoso, frente a um período bastante deprimido ao longo dos meses iniciais da pandemia no País. Na “margem”, como dizem os economistas, os dados da pesquisa industrial mensal do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostraram recuo de 1,3% na produção em abril frente a março e um salto de 34,7% diante de abril do ano passado, acumulando alta de 10,5% nos quatro primeiros meses deste ano em relação a igual intervalo de 2020. Como já registrado, a produção acabou sendo deprimida no ano passado porque as medidas de restrição ao funcionamento de setores importantes da indústria e à circulação de pessoas foram mais duras e efetivas do que neste ano, o que permitiu algum fôlego – mas bastante relativo, que não repõe a produção sequer nos níveis registrados antes da recessão de 2015/16.

Otimismo relativo

O Índice de Confiança do Empresário Industrial (ICEI), aferido mensalmente pela CNI, saiu de 58,5 para 61,7 pontos. Na escala definida pela pesquisa, o índice varia de zero a 100 e dados acima de 50 pontos sugerem crescimento da confiança. O indicador é composto pela percepção das empresas em relação às condições atuais de operação da economia e pelas expectativas para os próximos seis meses. Mais uma vez, o otimismo em relação ao futuro supera a visão da realidade expressa pelas empresas para o momento atual. O indicador das condições atuais saiu de 50,2 para 54,8 pontos entre maio e junho deste ano, diante de um avanço de 62,6 para 65,1 pontos registrado pelo indicador de expectativas frente ao futuro imediato.

Balanço

  • Ao avaliar as expectativas daqui para frente, as empresas parecem mais otimistas com a própria operação do que com o futuro da economia em seu conjunto. Assim, o índice de expectativas em relação à economia atingiu 61,9 pontos, mas chega a 66,8 pontos quando se trata de avaliar como deverão ser os próximos meses para a própria empresa.
  • Ainda na mesma área, as expectativas em relação à produção, empregos e nível de utilização da capacidade instalada mostram as discrepâncias dentro do setor e mostram uma visão muito mais otimista entre as grandes empresas. A saber, entre as pequenas indústrias, os indicadores para produção, empregos e uso da capacidade alcançaram, pela ordem, 50,7 pontos, 49,9 e 63 pontos. Entre as grandes, os mesmos indicadores bateram em 54,9 pontos, 52,1 e 74 pontos.
  • Na visão geral da indústria, as expectativas em relação à demanda futura atingiram níveis superiores aos 50 pontos, indicando uma aposta no crescimento (a ser conferida adiante), já que o indicador chegou a 59,9 pontos. O cenário para o acesso do setor a matérias-primas sugere ainda que a fase de maior desorganização das cadeias de suprimento vai sendo superada, com o indicador alcançando 57,4 pontos.
  • O emprego não caminha tão bem e reforçam as avaliações segundo as quais o mercado de trabalho não tem acompanhado as melhorias observadas para alguns setores em relação aos níveis muito baixos observados no ano passado. Em maio deste ano, o indicador ficou acima dos 50 pontos pela primeira vez em 11 meses, chegando a 51,1 pontos.
  • O índice de utilização da capacidade instalada avançou para 70,0% e ficou ainda abaixo da média registrada entre 2011 e 2014 (mais próxima de 73,0%). De qualquer forma, a CNI destaca o fato de o indicador ter alcançado em maio deste ano o nível mais elevado para o mês desde maio de 2014 (71,0%). Mesmo assim, a ociosidade das fábricas continua muito próxima de 30,0%.
  • Os estoques voltaram a se posicionar muito próximos dos níveis planejados pelas empresas industriais em maio, com a sondagem apontando 49,9 pontos (considerando-se 50 como o nível considerado adequado).
  • A intenção de investimento na indústria saiu de 55,8 para 57,0 pontos entre maio e junho deste ano e, mais uma vez, a elevação foi impulsionada pelas grandes empresas. Neste segmento, o indicador passou de 52,5 para 64,9 pontos. Mas manteve-se abaixo dos 50 pontos entre as pequenas indústrias, onde alcançou apenas 45,8 pontos (indicando a intenção de reduzir investimentos), mas 1,8 pontos acima dos 43,0 registrados em maio. Para as médias empresas, o índice manteve-se praticamente estável, saindo de 52,4 par 52,5 pontos.
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