Indústria derrapa em março e regista variação perto de zero
Descontados os impactos sazonalmente produzidos por eventos e outros fatores que costumam afetar a atividade econômica sempre na mesma época todos os anos, a produção industrial derrapou, derrapou mas praticamente não saiu do lugar em março. Depois de dois meses de resultados positivos, com altas de 2,1% e de 0,9% – já prenunciando uma desaceleração na comparação com os meses imediatamente anteriores –, os volumes produzidos pela indústria em março anotaram variação de apenas 0,1% diante de fevereiro, num avanço acumulado de 3,1% desde dezembro do ano passado, quando o setor havia anotado perdas de 1,9% em relação a novembro.
Na análise do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), a desaceleração verificada em março foi “puxada pelos ramos de bens de capital e de (bens) intermediários”, que haviam crescido, respectivamente, 2,8% e de 1,2% em fevereiro, passando a anotar variações, na mesma ordem, de 0,6% e de 0,5%. Embora afetado mais duramente pela política de juros escorchantes, que acaba sacrificando decisões de investimento das empresas em geral e das famílias, o setor de fabricação de bens de capital conseguiu crescer 6,4% na comparação entre março deste ano e dezembro do ano passado, com base em dados ajustados sazonalmente.
A comparação com iguais períodos de 2025, no entanto, o desempenho da indústria de bens de capital tem deixado a desejar, a despeito do avanço de 6,5% anotado em março, que interrompeu um ciclo de nove meses de perdas no setor. Para comparar, nos três meses anteriores, a produção havia sofrido baixas de 8,2%, de 11,9% e 13,6% respectivamente em dezembro, janeiro e fevereiro. A reação aparente anotada em março, dado o cenário ainda de alto risco e custos de capital exorbitantes, pode ter fôlego curto, no entanto.
Perdas trimestrais
Os dados trimestrais para o setor mostram uma tendência de aprofundamento das perdas. A produção de bens de capital, central para os rumos do investimento no País, havia caído 2,8% e 2,5% no segundo e terceiro trimestres de 2025, na comparação com idênticos períodos de 2024, acelerando o ritmo de queda para 5,3% no quarto trimestre e para 6,3% no primeiro trimestre deste ano. No período, todos os seis segmentos da indústria de bens de capital sofreram baixas diante do primeiro trimestre do ano passado, com perdas mais severas na produção de bens de capital para a agricultura (numa retração de 13,9%) e para aqueles de uso misto (menos 14,2%). No caso da produção de bens de capital destinados à indústria e ao setor de construção, em ambos os casos, a baixa foi de 5,3%, com recuos menos intensos nos segmentos de transporte (menos 2,1%) e de energia (menos 0,6%).
Balanço
Na comparação com março do ano passado, a indústria como um todo apresentou alta de 4,3% e reverteu a perda de 0,7% observado em fevereiro, encerrando o primeiro trimestre do ano com variação positiva de 1,3%. O resultado pode ser integralmente explicado pela alta também de 1,3% na indústria extrativa, já que o setor de transformação limitou-se a repetir os números acumulados nos três primeiros meses do ano passado, com avanço literalmente zero.
Ainda em março, quatro segmentos explicaram 76,3% do aumento realizado pelo conjunto da indústria. O salto de 18,7% na produção de veículos automotores, reboques e carrocerias respondeu por 27,2% do crescimento geral, seguido pela contribuição de 19,3% da indústria de alimentos, que apresentou elevação de 5,7% frente a março do ano passado.
Na sequência, num incremento de 4,3% em igual comparação, o setor extrativo, liderado pelo petróleo, contribuiu com 17,2% para o aumento total da produção na indústria, com influência ainda de 12,6% para o setor de produção de coque, derivados de petróleo e biocombustíveis, que apresentou elevação de 4,2% no mês.
Na avaliação do Iedi, o resultado acumulado no primeiro trimestre deste ano respondeu ainda ao “efeito calendário positivo” registrado em março, o que ajudou a retirar “a indústria como um todo do vermelho”, embora a produção de bens de captais tenha ficado para trás, na versão do instituto, sob influência dos juros elevados.
Os dados do IBGE para o primeiro trimestre mostram que 15 setores sofreram perdas, com dez outros apresentando alta na comparação com os três meses iniciais do ano passado. No lado mais negativo, as principais perdas vieram das indústrias de máquinas e equipamentos, num tombo de 9,4%, e de confecções, que apresentou perda de 6,5%. Para compensar, a produção de farmacêuticos e farmoquímicos saltou 14,3%, com avanços ainda de 2,6% para alimentos e, de forma mais discreta, de 0,9% para veículos automotores.
O excesso de chuvas em fevereiro e março adiou a colheita da soja nas principais regiões produtoras e atrasou o plantio da segunda safra de milho, conforme a consultoria Agroconsult, que organiza o Rally da Safra. Em Goiás, na estimativa da consultoria, em torno de 46% das lavouras de segunda safra foram semeadas fora da janela ideal de clima, “num calendário considerado de alto risco”, na avaliação da empresa. Mas 95% das áreas no oeste e médio norte de Mato Grosso foram cultivadas dentro do que se considera como janela ideal e, portanto, de risco mais baixo.
Em abril, no entanto, o cenário climático mostrou-se mais hostil, com algumas regiões registrando até 30 dias sem precipitações. Segundo acompanhamento do Rally da Safra, em Goiás e Mato Grosso do Sul, até o momento, apenas 39% das lavouras implantadas conseguiam manter alto potencial produtivo, o que se compara com uma proporção respectivamente de 62% e 53% na safra passada. O quadro parece mais favorável em Mato Grosso, com 80% das lavouras preservando condições de potencial produtivo elevado.
Com área estimada em 18,3 milhões de hectares, em torno de 1,5% maior do que na safra anterior, a produção de milho na segunda safra está estimada em 112,1 milhões de toneladas, perto de 9,5% abaixo da colheita realizada no ano passado, na faixa de 123,9 milhões de toneladas, com queda produtividade média para 101,9 sacas por hectares, quase 11,0% mais baixa do que aquela estimada antes do Rally, mais próxima de 114,4 sacas.