Indústria sofre baixas em cinco dos últimos sete meses e cai 5,2%

Publicado por: Lauro Veiga Filho | Postado em: 03 de setembro de 2021

A queda indicada para o Produto Interno Bruto (PIB) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)no segundo trimestre deste ano não foi um “evento fora da curva”, como gostam de afirmar economistas e quejandos. A pesquisa mensal sobre a produção industrial de julho mostra que as dificuldades para engrenar uma retomada continuam vigorando no começo do terceiro trimestre e sugerem que deverão perdurar por mais tempo do que gostariam o ministro dos mercados e sua equipe econômica. A queda persistente na produção do setor industrial pode ainda refletir problemas nas cadeias de suprimento de insumos e matérias-primas, desorganizadas em função das medidas para tentar conter a pandemia.

Nos primeiros sete meses deste ano, a indústria apresentou números negativos em cinco deles, avançando com certa modéstia em um deles e registrando estabilidade em outro (0,2% em janeiro), acumulando perdas em torno de 5,2% entre dezembro do ano passado e julho deste ano, segundo indicadores dessazonalizados pelo IBGE – quer dizer, com a exclusão de fatores específicos de cada mês do ano (como festas e feriados, por exemplo) para permitir uma comparação adequada e com menores distorções.

Na comparação com o mês imediatamente anterior, a produção sofreu baixa de 1,3% em julho, depois de recuar 0,2% em junho. A indústria de transformação, por sua vez, registrou seis meses de queda e apenas uma alta entre janeiro e julho, ao avançar 1,2% em maio. Para reforçar: houve perdas em todos os demais meses, o que levou o setor de transformação a acumular retração de 7,0% desde dezembro passado, com recuos de 0,7% e de 1,2% em junho e julho respectivamente. Como resume o Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), “para a indústria, a segunda metade de 2021 começou como havia terminado o semestre anterior, isto é, com grande dificuldade para crescer”.

As taxas estrondosamente elevadas anotadas pela pesquisa na comparação entre o ano passado e este ano estão severamente distorcidas pela base de comparação muito achatada. Mesmo neste caso, esse efeito vem se esgotando ao longo dos meses, como observa também o Iedi: “Na comparação com o mesmo período do ano anterior, bases baixas de comparação vinham produzindo variações positivas mais expressivas, mas este efeito estatístico também tende a perder importância neste segundo semestre.”

Saltos enganosos

Esse “fenômeno” torna-se mais nítido quando se observa a série estatística do IBGE. O “melhor” resultado do ano, até aqui, foi capturado em abril pela pesquisa, quando a produção experimentou salto de impressionantes 34,8%. O problema é que a indústria havia encolhido 27,7% em abril do ano passado, comparado a igual mês de 2019. Essa comparação explica em parte o salto observado neste ano. Na sequência, em maio, a produção cresceu em ritmo ligeiramente menor, saltando 24,1% sobre o mesmo mês de 2020, quando havia despencado 21,9%. O efeito já havia sido menor em junho deste ano, com a produção aumentando 12,0% sobre o sexto mês de 2020 (quando havia sofrido redução de 8,7%). Em julho, finalmente, a elevação bem mais comedida de 1,2% ocorreu sobre uma baixa de 2,7% em igual mês do ano passado. Como se pode observar, as altas mensais têm perdido fôlego na medida em que as perdas em 2020 seguem desacelerando, refletindo a revisão das medidas de distanciamento social adotadas nas primeiras semanas da pandemia.

Balanço

  • Comportamentos semelhantes podem ser anotados em relação a todos os grandes setores da indústria, abrindo-se exceção para o desempenho muito débil das indústrias de bens duráveis e de produção semi e não duráveis.
  • A indústria fabricante de bens duráveis havia sofrido perdas de 85,0% e 69,7% em abril e maio do ano passado e cresceu extraordinários 432,4% e 150,8% nos mesmos meses deste ano, sempre em relação a períodos idênticos do ano imediatamente anterior. Em junho deste ano, a produção no setor aumentou 31,4%, mas havia caído 34,8% no mesmo mês de 2020. Em julho passado, o “padrão” foi alterado e, embora a indústria de duráveis tenha sofrido perda de 16,5% em 2020, a produção despencou 10,3%, com tombos de 10,8% para a indústria de automóveis e de 14,4% no setor de eletrodomésticos.
  • Na indústria de bens de consumo semi e não duráveis, a tendência foi semelhante. O ritmo aqui já vinha desacelerando, saindo de altas de 18,3% e 14,2% abril e maio para uma variação de 2,1% em junho, o que se compara, pela ordem, com reduções de 25,9%, de 19,3% e de 5,0% naqueles mesmos meses de 2020. Os resultados de julho mostram queda de 4,7% em 2020, quase no mesmo nível daquela observada um mês antes, e redução de 1,9% em julho deste ano, influenciada pelos recuos de 5,0% e de 11,4% colhidos pelos setores de abate de suínos e aves e de produção de laticínios.
  • A indústria de alimentos, que havia se saído melhor na primeira metade do ano passado, aparentemente estaria neste ano sendo mais afetada pelo desemprego persistente e pela perda de renda das famílias, influenciada também pelo encarecimento da alimentação. A produção nesta área vem tropeçando desde setembro do ano passado, acumulando um retrocesso de 13,1% até julho deste ano. Em junho e julho, na comparação com os meses imediatamente anteriores, a produção caiu 2,0% e 1,8%.
  • Na comparação com 2020, as baixas na produção de alimentos têm se mostrado crescentes, com perdas de 5,4% em maio, de 8,4% em junho e finalmente de 10,3% em julho. Em relação a fevereiro de 2020, o setor apresentou recuo de 7,4% – muito acima da redução observada em média para o conjunto da indústria, que passou a apresentar queda de 2,1% frente ao último mês sem pandemia. Para completar, a indústria de produtos alimentícios demonstra dificuldades até mesmo para retomar os níveis observados em outubro de 2012, quando a produção atingiu seu melhor momento na série estatística do IBGE. Em julho deste ano, os volumes produzidos no setor encontravam-se 15,4% abaixo daqueles processados em outubro daquele ano.
  • A indústria de bens de capital, que de certa forma sinaliza os rumos do investimento na economia, tem sido destaque desde o final do ano passado, com taxas de dois e até três dígitos – desempenho igualmente explicado, ao menos em parte, pela base de comparação muito achatada. Além disso, mais recentemente, a velocidade de crescimento tem perdido ímpeto, saindo de 124,8% em abril para 33,1% em julho, sempre em relação aos mesmos meses de 2020.
  • Mês a mês, no entanto, a comparação tem sido menos lisonjeira com o setor, que tem concentrado seu crescimento nos setores mais relacionados à construção e ao agronegócio. Entre janeiro e julho deste ano, a produção recuou 4,1% e manteve-se ainda 16,4% acima de fevereiro do ano passado. Deve-se considerar, de qualquer forma, que os níveis observados no mês imediatamente anterior à chegada da pandemia por aqui estavam 23,1% mais baixos do que a produção média realizada em 2012. Desde setembro de 2013, quando atingiu seu recorde histórico, a indústria de bens de capital perdeu um quarto de sua produção, num tombo de 25,3%.
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