sexta-feira, 15 de maio de 2026

Inflação recua em abril, com menor alta para alimentos e combustíveis

Lauro Veiga Filhopor Lauro Veiga Filho em 13 de maio de 2026

O mercado internacional continua em ritmo de incertezas e turbulências em série, alimentadas pela guerra no Oriente Médio e pelo comportamento extremamente errática do governo estadunidense, o que tem contribuído para manter acirradas as expectativas inflacionárias em todo o globo. A despeito de todo esse cenário, a inflação brasileira fechou abril com alguma desaceleração em relação à medição anterior, trazendo algum refresco para a carestia num momento em que o Banco Central (BC) está sob pressão para mais uma vez alterar os rumos da política monetária de forma a interromper a trajetória de redução muito gradual dos juros básicos, iniciada apenas recentemente.

Ao longo dos 30 dias do mês passado, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), no cálculo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), apontou variação de 0,67%, abaixo da taxa de 0,89% registrada entre os dias 18 de março e 15 de abril, embora superior à inflação de abril do ano passado, na faixa de 0,43%. A grande diferença está na taxa acumulada em 12 meses, que havia atingido 5,53% em abril do ano passado e atualmente encontra-se mais próxima de 4,39%. No ano passado, ainda tomando o IPCA anual, o índice inflacionário chegou a variar em torno de 4,50% no primeiro mês de 2025, passando a flutuar ao redor de 5,30% entre maio e meados de julho, desacelerando desde lá para 4,26% no encerramento daquele ano.

A inflação anual inaugurou 2026 em 4,50% e baixou até 3,81% em fevereiro. O início da guerra contra o Irã no final daquele mês trouxe o IPCA para os atuais 4,39% no acumulado em 12 meses até abril, ainda ligeiramente inferior ao teto da meta inflacionária, fixada em 3,0% para este ano, com tolerância de um ponto percentual e meio para cima ou para baixo. Desde as primeiras semanas de março, os focos de alta têm se concentrado principalmente nos preços dos alimentos, com destaque mais recentemente para algumas variedades de tubérculos e legumes, além de carnes e leite longa vida, e combustíveis, diretamente influenciados pelos conflitos no Oriente Médio e consequente alta dos preços do barril de petróleo no mercado internacional.

Desafogo

O desafogo registrado nas duas semanas finais de abril sugerem que, quando a guerra estiver finalmente encerrada, num horizonte ainda muito incerto, a inflação finalmente tenderá a uma normalização, retomando a tendência mais bem-comportada que vinha sendo observada nas primeiras semanas deste ano e que havia levado o BC a finalmente repensar sua política de juros extorsivos. Na medição realizada entre as duas semanas finais de fevereiro e as duas primeiras de março, o IPCA-15 havia alcançado 0,44%, acumulando 3,90% em 12 meses. Mas a taxa dobrou em apenas uma quinzena, elevando o índice fechado nas quatro semanas de março para 0,88%. Na aferição realizada pelo IBGE entre 18 de março e 15 de abril, o indicador chegou a demonstrar certa estabilização na alta, com variação de 0,89%. Nas duas semanas seguintes, o IPCA “cheio” de abril passou a anotar variação de 0,67%, numa desaceleração correspondente a 0,22 pontos percentuais em uma quinzena.

Balanço

A perda de velocidade na alta dos preços em geral veio embalada pela menor elevação dos custos dos alimentos e dos combustíveis, mas com pressão adicional dos medicamentos, que tiveram seus preços reajustados em até 3,81% a partir de 1° de abril. O grupo alimentação e bebidas, que havia registrado elevação de 1,46% nas quatro semanas finalizadas em 15 de abril, passou a subir num ritmo mensal de 1,34% nos 30 dias do mês passado.

No caso dos combustíveis, dada a metodologia adotada para cálculo dos índices inflacionários, que compararam valores médios registrados nos 30 dias em que a medição ocorre com as quatro semanas imediatamente anteriores, pode-se inferir que os preços chegaram a experimentar alguma redução efetiva nas duas semanas finais de abril.

Até o dia 15 daquele mês, sempre tomando períodos quadrissemanais, os preços dos combustíveis haviam sido aumentados em 6,60%. Nas quatro semanas de abril, no entanto, passaram a apontar elevação de “apenas” 1,80%. Isso apenas ocorreria se os preços tivessem anotado queda nos 15 dias finais do mês, de forma a “compensar” o salto observado até o final da primeira quinzena.

Na quadrissemana terminada em 15 de abril, os preços dos combustíveis haviam respondido por 41,26% do IPCA-15, contribuição reduzida para 16,94% no fechamento de abril.

Os preços da gasolina e do etanol, que haviam saltado respectivamente 6,23% e 2,17% em 30 dias até 15 de abril, encerraram o mês com altas de 1,86% e de 0,62%. Isso não significa que o setor estaria em processo de desinflação prolongada, até porque a guerra e o fechamento do estreito de Ormuz, por onde circulavam 20% da oferta global de petróleo, continuam produzindo fortes oscilações nos preços do petróleo, o que tende ainda a continuar influindo nos preços cobrados aqui dentro.

No caso do etanol, a safra de cana em pleno curso deve continuar pressionando os preços para baixo (ainda que os postos tenham adotado uma nítida política de ampliação de margens no setor, mantendo preços no alto e mesmo reajustando o custo imposto ao consumidor nas bombas a despeito da queda dos preços do etanol nas usinas). Em São Paulo e em Goiás, os preços médios cobrados pelas usinas para o etanol sofreu baixas de 22,7% e de 23,6% entre a primeira semana de março e igual período de maio, segundo acompanhamento realizado pelo Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), vinculado à Escola Superior de Agricultura ‘Luiz de Queiroz’ da Universidade de São Paulo (Esalq/USP).

Ainda assim, o IPCA em Goiânia atingiu 1,12% em abril, o mais alto entre todas as capitais pesquisadas pelo IBGE, saindo de 0,65% na quadrissemana encerrada no dia 15 do mesmo mês. O avanço foi puxado principalmente pela alta de 5,79% nos preços médios dos combustíveis (que haviam recuado 0,75% na medição anterior), numa contribuição de 41,12% na composição do índice geral.

Os preços médios dos alimentos consumidos no domicílio pelas famílias goianienses subiram 2,05% em abril, acima do índice de 1,74% registrado na quadrissemana encerrada no dia 15 do mesmo mês, passando a contribuir com 28,26% na formação do IPCA “cheio”. Combustíveis e a alimentação no domicílio foram responsáveis, portanto, por 69,38% na composição da inflação mensal em Goiânia.

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