sexta-feira, 15 de maio de 2026
Detox digital

Proibir o celular do filho não funciona; especialista aponta o que fazer no lugar

Psicólogo explica que bloqueio total desgasta a relação familiar e orienta estratégias de mediação ativa e detox digital planejado

Luana Avelarpor Luana Avelar em 15 de maio de 2026
celular
foto: istock

Noventa e dois por cento dos jovens brasileiros entre 9 e 17 anos acessam a internet diariamente, segundo o estudo TIC Kids Online 2025. O dado não surpreende quem convive com adolescentes, mas impõe uma pergunta que muitas famílias ainda não sabem responder: o que fazer diante do excesso de telas?

A resposta imediata de muitos pais é o bloqueio total do acesso. Para Leonardo Pestillo de Oliveira, doutor em Psicologia e professor do Programa de Pós-Graduação em Promoção da Saúde da UniCesumar, essa estratégia é obsoleta e tende a piorar o problema.

“Proibir totalmente o uso de telas atualmente é quase impossível, porque a vida gira em torno da internet, que é uma infraestrutura essencial para educação e socialização. Quando os pais tentam proibir o acesso, a relação se desgasta. Os adolescentes começam a esconder o que estão fazendo, tentam recuperar a conexão a qualquer custo e passam a usar a rede em locais sem nenhuma supervisão”, afirma.

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O que o celular fazem com o cérebro adolescente

As plataformas digitais foram desenvolvidas para fornecer recompensas neurológicas imprevisíveis, e o cérebro adolescente, ainda sem maturidade plena para controlar impulsos, é especialmente vulnerável a esse mecanismo. “Os adolescentes estão expostos a conteúdos irrealistas que afetam diretamente a identidade e a autoestima. Com a exposição constante, a ausência de validação imediata, como curtidas e comentários, passa a ser interpretada como uma rejeição social”, explica Oliveira.

O ambiente digital também abre espaço para riscos concretos: cyberbullying, aliciamento por adultos e compartilhamento impulsivo de imagens, que aumenta o risco de chantagens e vazamentos.

Detox digital e mediação ativa

Em vez do bloqueio, o especialista defende estratégias de mediação ativa. Limites de tempo de uso e filtros de classificação etária devem compor a rotina familiar, não como punição, mas como suporte. “Essas ferramentas são um suporte importante na mediação. O objetivo não é exatamente monitorar 100% do tempo, mas preparar os adolescentes para uma capacidade de autorregulação e maturidade no ambiente digital. É preciso ter transparência sobre o uso dessas tecnologias”, orienta.

O detox digital programado também é indicado como ação corretiva. “As pausas devem ser implementadas não como uma punição, mas como uma estratégia de saúde. Esse tipo de situação ajuda na recuperação da atenção e melhora a saúde mental, pois reduz os sintomas de ansiedade frente à necessidade constante de checar as telas. É importante que todos se permitam reconectar pessoalmente e melhorar a percepção sobre o mundo real”, acrescenta.

A base é a conversa

Para o psicólogo, a eficácia de qualquer estratégia depende da confiança construída dentro de casa. “Os pais devem participar desse momento, perguntar como os filhos jogam e como se comunicam, aprendendo sobre o universo deles. É preciso ensinar sobre os conteúdos consumidos e explicar os riscos reais. A manutenção de uma comunicação positiva e constante sempre é mais eficiente do que punições imediatas tomadas no calor de uma discussão”, conclui.

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