Inflação veio abaixo do esperado na primeira quinzena de abril
Medido entre 18 de março a 15 de abril, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15) deste mês veio abaixo das previsões de consultores e analistas a soldo do mercado financeiro, que esperavam, nas apostas mais frequentes do setor, alguma coisa ao redor de 0,98%. Mas a taxa efetivamente registrada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) ficou em 0,89%, índice muito próximo do IPCA de março, na faixa de 0,88%, com apuração entre os dias 4 e 31 do mês passado. Nessa comparação, a despeito das pressões inflacionárias desencadeadas pelo conflito no Oriente Médio, os preços em geral aqui dentro experimentaram certa estabilidade nas duas primeiras semanas de abril.
A guerra continua gerando mortes e turbulências, com fortes oscilações nos preços do petróleo, com o barril do óleo tipo Brent aproximando-se de US$ 111,10 na cotação de ontem, acumulando alta de 53,1% desde o começo do começo dos ataques de Estados Unidos e Israel contra o Irã, no final de fevereiro. A escalada, como se poderia esperar, tem puxado os preços dos combustíveis aqui dentro, gerando pressões sobre os índices inflacionários desde o mês passado. Divulgado no primeiro dia da reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), a ser encerrada hoje, quarta-feira, 29, com o anúncio sobre o futuro da taxa de juros – pelo menos até a próxima reunião, agendada para os dias 16 e 17 de junho.
Em março, os combustíveis responderam por quase 31% do IPCA, contribuição elevada agora, nas duas primeiras semanas de abril, para 41,3%. A alta surge mais nitidamente quando analisada a variação média dos preços dos combustíveis desde o final de fevereiro, quando o IBGE havia registrado recuo de 0,47%. O IPCA-15 de março, cobrindo as duas semanas finais de fevereiro e a primeira quinzena do mês seguinte, trouxe modesto recuo de 0,03% (já indicando alguma elevação nos 15 dias iniciais de março). O aumento nos preços nesta área surgiria com maior nitidez apenas nas medições posteriores, dada a metodologia adotada no cálculo das taxas de inflação, que consideram alterações nos preços médios de produtos e serviços no curso de quatro semanas.
Ritmo altista
No fechamento de março e na quadrissemana encerrada em 15 de abril, os combustíveis chegaram a subir, respectivamente, 4,47% e 6,06%, com altas de 4,59% e de 6,23% naqueles mesmos intervalos para a gasolina. O diesel havia anotado variação de 0,23% em fevereiro, anotando aceleração para 3,77% nas duas semanas iniciais de março e fechando aquele mês com alta de 13,90%, quer dizer, numa elevação de 10,13 pontos em duas semanas. O ritmo de alta anotou alguma inflexão, mas os preços nas bombas saltaram 16,0% nas quatro semanas concluídas em 15 de abril (mais 2,1 pontos percentuais). Mas o peso direto do diesel no custo de vida, sem considerar efeitos de segunda ordem, a exemplo de impactos sobre preços de frete e sobre custos de distribuição, é inferior à influência da gasolina na composição geral do IPCA. Para comparar, enquanto a alta da gasolina influiu diretamente com 35,49% na formação do IPCA-15 de março, a contribuição do diesel no índice geral variou em torno de 4,17%.
Balanço
Os preços do etanol nos postos, conforme acompanhamento do IBGE, haviam anotado baixa de 0,61% na medição realizada entre a quinzena final de fevereiro e as primeiras duas semanas de março, mas subiram 0,93% nos 30 dias de março e apresentaram elevação de 2,17% nas quatro semanas finalizadas em 15 de abril, muito embora os preços pagos nas usinas tenham apresentado queda de 12,5% entre as semanas encerradas em 20 de março e 17 de abril.
Em quatro semanas, aferidas até 24 de abril, conforme acompanhamento do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), vinculado à Escola Superior de Agricultura ‘Luiz de Queiroz’ da Universidade de São Paulo (Esalq/USP), os preços médios do etanol hidratado haviam despencado 16,9% nas usinas paulistas, que concentram perto de 38,4% da produção brasileira e definem tendências para o restante do País.
Os preços cobrados dos consumidores finais pelo litro do etanol parecem refletir, como sugere o acompanhamento realizado pelo IBGE, as altas registradas pela gasolina, concorrente mais direto do biocombustível, o que abriria espaço para os postos cobrarem mais caro pelo etanol. A persistente tendência de queda nas usinas, no entanto, tende a aliviar aquelas pressões de alta daqui em diante, a depender dos desdobramentos da guerra e do que deverá ocorrer no mercado de combustíveis fósseis daqui para a frente. Concretamente, parece já haver espaço para uma revisão para baixo dos preços do etanol, a despeito das incertezas no mercado.
O segundo fator de alta do IPCA-15 deste mês esteve concentrado nos preços de alimentos e bebidas, com uma anotação positiva: a alta observada na quadrissemana finalizada em 15 de abril, próxima de 1,46%, já veio ligeiramente abaixo do aumento de 1,56% registrado nas quatro semanas de março, refletindo especialmente a desaceleração observada para os preços da alimentação no domicílio. Neste último grupo, a variação média dos preços saiu de 1,94% em março para 1,77% nas duas semanas iniciais de abril.
Na segunda quadrissemana deste mês, como mostram as estatísticas do IBGE, meia dúzia de itens – cebola, cenoura, tomate, leite longa vida, lanches e refeições fora de casa – responderam por pouco mais 68% da inflação dos alimentos.
Os focos altistas foram parcialmente compensados pela queda de 14,32% nos preços das passagens aéreas, que haviam subido 6,08% em março. As oscilações das tarifas são uma constante no setor, que parece ter decidido “devolver” a alta ocorrida em março, que havia de certa forma “surpreendido” os mercados.
No setor de serviços, onde os preços têm demonstrado maior resiliência, a inflação desabou para 0,02% nas quatro semanas terminadas em 15 de abril, depois de alta de 0,53% em março, conforme registra a economista Luciana Rabelo, do Itaú BBA. O mercado antecipava alguma desaceleração, mas num ritmo ligeiramente menos intenso do que aquela registrada pelo IBGE.
Não deixa de ser uma boa notícia em meio a incertezas e a inseguranças aguçadas pela guerra. Serve pelo menos como um aceno para a turma do Copom, ao reforçar que os focos de pressão estão especialmente concentrados nos setores mais diretamente afetados pelo conflito. Mais diretamente, a manutenção dos juros nos níveis atuais e, pior ainda, qualquer elevação da taxa básica na reunião ainda em curso no Copom, tenderia a ser contraproducente, agravando as condições de endividamento e de comprometimento da renda das famílias com o pagamento de dívidas, produzindo maior inadimplência e arrocho sobre o consumo. Sem que o estrago produzido resulte em qualquer melhoria para setores que, ao final e ao cabo, têm seus preços definidos pelo mercado internacional.