Investimento externo salta 65,9% em abril e atinge quase US$ 30 bi no ano
O crescimento do déficit externo abril foi compensado com larga folga pelo salto registrado para o investimento estrangeiro no País, num desempenho que parece contrariar o senso comum, em geral alimentado por cenários e relatórios mais negativos sobre as perspectivas para a economia brasileira produzidos por consultorias e agentes em sua maioria ligados ou patrocinados diretamente por instituições do sistema financeiro. Num dado nitidamente negativo, a entrada de dólares para especulação no cassino financeiro nacional também disparou, diante das possibilidades de ganhos fáceis providos pela política brasileira de juros estratosféricos.
Em abril deste ano, dados mais recente liberado pelo Banco Central (BC), o investimento direto no País alcançou US$ 8,912 bilhões, num salto de 65,92% frente a US$ 5,371 bilhões em igual mês do ano passado, algo como US$ 3,541 bilhões a mais. O déficit na conta de transações correntes anotou variação de 7,84% naquela mesma comparação, avançando de US$ 1,636 bilhão para US$ 1,765 bilhão, quer dizer, um incremento de US$ 128,341 milhões. O valor investido por estrangeiros foi, portanto, praticamente 5,05 vezes maior do que o déficit externo.
Para registro, a conta de transações correntes contempla o saldo da balança comercial (exportações menos importações de bens e mercadorias), gastos líquidos do País (descontadas as receitas) com serviços no exterior, incluindo viagens internacionais, transporte de cargas e de passageiros e aluguel de equipamentos importados, pagamentos de royalties pelo uso de tecnologias importadas, entre outros. Somam-se àquela conta gastos com juros e remessas de lucros e dividendos para fora do País.
Alta especulação
Diante de uma conjuntura internacional turbulenta, com guerras e conflitos armados em regiões sensíveis do globo, com impactos diretos sobre a produção e a logística de distribuição de petróleo no Oriente Médio, e a atuação atribulada e imprevisível da presidência dos Estados Unidos, o Brasil passou a atrair recursos da alta especulação internacional por conta de sua política de juros altos. Apenas em abril, os títulos de dívida – incluindo papéis públicos e privados – atraíram perto de US$ 4,287 bilhões, correspondendo a um aumento de 92,49% em relação a US$ 2,227 bilhões no mesmo mês do ano passado, equivalente a um acréscimo de US$ 2,060 bilhões aproximadamente.
Balanço
Proporcionalmente, o chamado “investimento em carteira”, que inclui ainda aplicações em ações e em cotas de fundos de investimento, além de títulos de dívida, aumentou de forma ainda mais acelerada ao sair de apenas US$ 790,684 milhões em abril do ano passado para US$ 5,387 bilhões – ou seja, quase seis vezes a mais.
O baixo desempenho em abril de 2025 está relacionado sobretudo à saída do País de US$ 1,437 bilhão anteriormente alocados em fundos e ações. Os fundos haviam perdido US$ 633,978 milhões, enquanto o mercado de ações chegou a anotar a saída líquida de US$ 802,715 milhões. No mesmo mês deste ano, os fundos registraram a entrada líquida de US$ 113,233 milhões, com as ações recebendo maior injeção, num total de US$ 985,936 milhões. Ainda assim, uma fração dos US$ 4,287 bilhões destinados aos títulos de dívida, que oferecem remuneração mais generosa, já que lastreada na taxa básica de juros calibrada pelo BC.
O crescimento do déficit em transações correntes ainda em abril deste ano esteve tracionado pela conta de renda primária, que inclui basicamente remessas de lucros e dividendos e gastos com juros no mercado internacional. As despesas líquidas do País nesta área aumentaram 35,53%, saindo de US$ 5,018 bilhões para US$ 6,801 bilhões, equivalente a uma variação absoluta de US$ 1,783 bilhão.
Tomando ainda abril de 2025 como base, as remessas de lucros e dividendos avançou de US$ 3,375 bilhões, a valores aproximados, para US$ 4,558 bilhões, crescendo 35,07% (mais US$ 1,183 bilhão). As despesas líquidas com juros aumentaram 36,37%, passando de US$ 1,667 bilhão para US$ 2,273 bilhões (algo como US$ 606,271 milhões adicionais).
Os gastos com serviços subiram de US$ 4,091 bilhões para US$ 5,044 bilhões, num incremento de 23,30% (em torno de US$ 953,296 milhões a mais). O avanço foi puxado pelas despesas crescentes com viagens internacionais, possivelmente impulsionadas pelo dólar relativamente mais barato. Esse tipo de gasto disparou de US$ 875,008 milhões para pouco mais de US$ 1,456 bilhão, crescendo 66,42% (perto de US$ 581,178 milhões a mais).
O segundo maior foco de pressão sobre a conta dos serviços veio das remessas para remunerar serviços de telecomunicações, comunicação e informações, numa elevação de 25,95% entre abril de 2025 e igual mês deste ano, passando de US$ 666,220 milhões para US$ 839,170 milhões.
O aluguel de equipamentos exigiu o desembolsos líquido de praticamente US$ 1,130 bilhão apenas em abril deste ano, o que se compara com US$ 972,605 milhões em idêntico período de 2025, significando uma alta de 16,14% (em torno de US$ 157,020 milhões a mais).
O pagamento por serviços de propriedade intelectual (royalties e outras formas de direito de uso de marcas e patentes registradas no exterior) cresceu apenas marginalmente em relação às demais contas, numa variação de 3,18%, com gastos líquidos variando de US$ 1,056 bilhão para US$ 1,089 bilhão (num acréscimo de US$ 33,540 milhões).
Para contrabalançar, o País registrou um incremento de 22,24% nas receitas associadas à prestação de “outros serviços de negócios”, categoria que inclui, entre outros, a exportação de projetos de arquitetura e engenharia. Os ganhos nesta área subiram de US$ 599,151 milhões para US$ 732,392 milhões, numa variação de algo como US$ 133,241 milhões.