Coluna

Jogo de pressões no Banco Central pode trazer de volta a alta dos juros

Publicado por: Sheyla Sousa | Postado em: 26 de fevereiro de 2020

A
divisão instalou-se no Comitê de Política Monetária (Copom) em sua reunião mais
recente, ocorrida entre os dias 4 e 5 deste mês. A “dicotomia” (para usar uma
definição do economista Fernando Veloso, pesquisador do Instituto Brasileiro de
Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV) e professor da Escola de
Pós-Graduação em Economia também da FGV, ambas do Rio de Janeiro) colocou em
lados opostos uma corrente aparentemente mais “pró-mercado” do que a outra, se é
que essa classificação é possível numa instituição dominada pela “turma da
bufunfa” (agora apelando para uma classificação mais “popular” do economista
Paulo Nogueira Batista Júnior). Até aqui, há indícios de que a “bufunfa” possa vir
a falar mais alto e impor, não só a interrupção nos cortes dos juros, como já
confirmado pelo Banco Central (BC), mas até a volta das altas que ajudaram a
economia a afundar no baixo crescimento dos últimos anos.

Em
resumo, um dos lados sustenta que a forte recessão, que se estendeu de 2014 a
2016, numa avaliação mais alongada, teria causado a destruição, não apenas de
empregos, mas de fábricas, com a deterioração de máquinas e equipamentos,
reduzindo a “capacidade de oferta” na economia. Em outros termos, a indústria
hoje já não teria capacidade para produzir em volumes equivalentes àqueles
operados antes da crise e, portanto, teria perdido capacidade de acompanhar a
demanda – ainda que essa demanda esteja tão debilitada que, da mesma forma, sequer
tenha retomado os níveis anteriores à recessão, mesmo 38 meses depois de encerrada
a crise.

Essa
“restrição de oferta”, se verdadeira (o que não parece ser o caso), tenderia a
criar espaço favorável a aumentos de preços em toda a economia. Assim, a ameaçade
novas altas da inflação, daqui em diante, recomendaria mais cautela na condução
da política de juros, quem sabe até com possibilidade de retomada das altas que
marcaram os anos anteriores.

Outro lado

A
outra corrente argumenta na direção inversa, embora utilizando outra sorte de
fatores e dados. “Outros membros do Copom ressaltaram que a dinâmica dos
núcleos de inflação, não obstante os recentes efeitos do choque de preços de
proteína, sinaliza que a ociosidade dos fatores de produção ainda é elevada”,
acrescenta a ata do Copom liberada pelo BC no dia 11 passado. Quer dizer,
haveria espaço suficiente para um crescimento até mais intenso da atividade
econômica, sem que isso produza qualquer tipo de estrago sobre as taxas de
inflação, o que permitiria ao BC persistir na política de cortes das taxas
básicas de juros (ou pelo menos na manutenção dos níveis atuais, com a taxa
estabelecida em 4,25% ao ano, por um período mais prolongado, até que o
crescimento apresente uma retomada real e de fato).

Balanço

·  
Os
sinais parecem, até aqui, contrariar fortemente o primeiro grupo, formado pelo
pessoal que acredita que a economia não teria condições de voltar a crescer
mais intensamente sem uma recaída inflacionária, aparentemente inevitável – a
não ser que os juros, claro, voltem a subir para “esfriar” a demanda. Um
contrassenso, diante dos indicadores recentes na economia.

·  
Esse
grupo argumenta, como evidência da destruição da capacidade de produção da
indústria, que a atividade econômica não estaria reagindo na velocidade
esperada a despeito do “crescimento” demonstrado pelo mercado de trabalho. Esse
avanço deveria, assim, ter vindo acompanhado de mais crescimento. Ou, no
“economês” da turma do Copom: “Nesse sentido, a dicotomia dos últimos dados
sugere que pode haver menos espaço de ociosidade do que o mensurado por métodos
tradicionais”.

·  

dois fatores a ponderar aqui. Primeiro, esse “crescimento” tem sido
excessivamente modesto, num ritmo muito compatível com a fase de baixo
desempenho da atividade econômica como um todo. Segundo, o emprego tem sido
influenciado pela criação de empregos de baixíssima qualidade e salários achatados,
com predominância do setor de serviços de baixa sofisticação e produtividade
reduzida (o que pode estar por trás das estatísticas que têm apontado queda na
produtividade).

·  
Na
média de 2019, de acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios
Contínua (PNADC), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE),
entre 2018 e 2019, o total de ocupados cresceu em torno de 2,0%, saindo de 91,6
milhões para 93,4 milhões, num acréscimo de 1,819 milhão de pessoas. Desse
total, os serviços (excluídos os segmentos do comércio e de reparação de
veículos) responderam por 77%.

·  
O
Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo-15 (IPCA-15) de fevereiro, que
atingiu 0,22%, alcançando o nível mais baixo para o mês desde 1994, quando foi
lançado o Plano Real, parece dar suporte mais forte ao segundo grupo do Copom.
Até porque, como mostra a medição feita pela equipe de macroeconomia do Itaú
Unibanco, o “núcleo” do IPCA-15 formado por setores mais sensíveis ao
comportamento de curto prazo da economia apresentou leve retração de 0,1% nos
30 dias encerrados em 15 de fevereiro e acumulava, em 12 meses, variação de
apenas 2,6% (diante da taxa de 4,0% fixada como meta para a inflação em 2020).

 

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