quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Mesmo com “tarifaço” e toda pressão dos EUA, saldo comercial salta 28,2%

Lauro Veiga Filhopor em
Mesmo com “tarifaço” e toda pressão dos EUA, saldo comercial salta 28,2%
Navio de petróleo - Foto Tânia Rêgo ABr

O saldo acumulado pela balança comercial brasileira entre janeiro e agosto deste ano atingiu o segundo melhor resultado da série histórica da Secretaria de Comércio Exterior (Secex) depois de avançar 28,17% na comparação com os mesmos oito meses do ano passado, saltando de US$ 43,158 bilhões para US$ 55,318 bilhões. Os números alcançados até aqui na área externa parecem deixar claro que o saldo comercial do País com o restante do mundo deverá experimentar crescimento na comparação com 2025, conforme constata igualmente o Indicador de Comércio Exterior (Icomex), do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV), divulgado ontem. Segundo o boletim, “uma das principais contribuições para esse resultado é da indústria extrativa, em especial, as vendas de petróleo bruto”.

Apenas para reforçar, textualmente, o Icomex registra que “a melhora do superávit da balança comercial de 2026 em relação a 2025 parece estar garantido”. Segundo a consultora Lia Valls Pereira, responsável pelo indicador, “os tarifaços de Trump não levaram a uma queda das exportações brasileiras no total, pois a China e outros parceiros aumentaram suas importações do Brasil”. Mas, pondera na sequência, “será preciso observar se, no encontro previsto entre o presidente dos Estados Unidos e o da China, não deverão ser acordados compromissos de compra dos chineses de produtos agropecuários estadunidenses, como já ocorreu no primeiro governo Trump”.

As projeções para a balança comercial (exportações menos importações) nos 12 meses deste ano têm apresentado ampla flutuação, a depender da fonte consultada, mas sempre em terreno positivo. Na mediana das previsões coletadas semanalmente pelo Banco Central (BC) por meio do relatório Focus, o mercado espera um saldo positivo de US$ 76,950 bilhões, diante de uma estimativa de US$ 86,0 bilhões feita pela equipe de macroeconomia do Itaú BBA. Comparando com o superávit de US$ 68,3 bilhões realizado em 2025, aquelas previsões sugerem altas entre 12,7% e 26% respectivamente. Mais otimista, o Ministério de Indústria, Comércio e Serviços (Midc) trabalha com a perspectiva de um saldo quase 32% mais elevado, algo em torno de US$ 90,0 bilhões.

 

Cenário ainda positivo

As perspectivas para o comércio global, a despeito da guerra comercial movida pela gestão Trump contra quase todo o resto do mundo e das guerras no Oriente Médio e na Ucrânia, parecem ser favoráveis, conforme anota a edição mais recente do Icomex, sob impulso principalmente dos setores de tecnologia da informação e de inteligência artificial. Segundo a publicação, o barômetro da Organização Mundial do Comércio (OMC) divulgado neste mês antecipa um incremento em volume de 1,9% para o comércio mundial de mercadorias, enquanto o Fundo Monetário Internacional (FMI) prevê um avanço de 3,5% para o comércio de mercadorias e de serviços. “As duas projeções sugerem desaceleração em relação a 2025, mas para o Brasil, em 2026, a corrente de comércio deverá aumentar impulsionada pelas exportações de commodities”, acrescenta o Icomex.

 

Balanço

O crescimento do saldo comercial nos primeiros oito meses deste ano refletiu um incremento de 10,31% nas exportações brasileiras totais, que subiram de US$ 227,408 bilhões para US$ 250,855 bilhões (em torno de US$ 23,447 bilhões a mais), diante de uma variação de 6,13% para as importações. As compras externas, sempre considerando o período entre janeiro e agosto, avançaram de US$ 184,249 bilhões para pouco menos de US$ 195,538 bilhões (algo como US$ 11,288 bilhões adicionais).

Na soma das exportações de petróleo bruto e derivados, o setor passou a responder por 18,46% das vendas externas totais do País, frente a 16,21% no ano passado, superando a soja. Nos dados da Secex, o Brasil exportou US$ 46,299 bilhões em petróleo e óleos combustíveis entre janeiro e agosto deste ano, o que se compara com US$ 36,868 bilhões em igual intervalo de 2025, crescendo 25,58%. Em termos absolutos, observou-se um ganho de US$ 9,431 bilhões, o que explicou 40,22% do crescimento registrado pelas exportações totais.

As compras de petróleo e seus derivados cresceram 21,73% na mesma comparação, passando de US$ 14,344 bilhões para US$ 17,449 bilhões, algo como US$ 3,115 bilhões a mais – o que correspondeu a 27,6% do aumento geral registado pelas importações brasileiras. O saldo na balança comercial do petróleo e derivados experimentou alta de 28,03% ao avançar de US$ 22,534 bilhões para US$ 28,850 bilhões, mantendo a participação do segmento no superávit comercial total na faixa de 52,2%. Houve aqui uma variação de US$ 6,316 bilhões, numa contribuição de 51,94% para o crescimento do saldo total.

Destino de 30,7% das exportações realizadas pelo Brasil, a China comprou algo como US$ 77,070 bilhões em produtos brasileiros entre janeiro e agosto deste ano, frente a US$ 67,040 bilhões em igual período do ano passado, numa variação de quase 15,0% (ou US$ 9,431 bilhões a mais). As importações de mercadorias chinesas pelo Brasil cresceram 9,52% em igual intervalo, avançando de US$ 47,080 bilhões para US$ 51,561 bilhões.

Como resultado, o mercado chinês foi responsável por 45,64% do incremento acumulado pelo saldo comercial brasileiro em oito meses. O superávit no comércio com os chineses saltou 27,80% neste ano, na medição acumulada até agosto, saindo de US$ 19,960 bilhões para US$ 25,509 bilhões, em torno de 46,1% do saldo total.

Aqui dentro, a pesquisa mensal do comércio, conduzida pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), as vendas do varejo restrito recuaram 0,8% em julho, na comparação com o mês imediatamente anterior, encerrando um curto período de dois meses de crescimento (0,2% em maio e 0,3% em junho). No varejo ampliado, depois de três baixas mensais consecutivas, na série de dados dessazonalizados, a pesquisa trouxe um leve ganho de 0,4% em julho.

Na comparação com o mesmo período do ano passado, as vendas no varejo restrito perderam fôlego, saindo de um avanço de 2,8% em junho para 1,2% no mês seguinte. Houve movimento semelhante no varejo ampliado, com a taxa de crescimento saindo de 4,9% em junho para uma variação de 1,8% em julho.

Em Goiás, no varejo restrito, as vendas chegaram a apresentar variação de 0,2% em junho, depois de perda de 2,7% em maio. Mas voltaram a recuar 1,3% em julho. O volume de vendas no varejo ampliado chegou à terceira baixa consecutiva em julho, com baixa de 2,5% em julho (depois de perdas de 4,9% em maio e de 0,7% em junho). Na comparação com abril, também na série dessazonalizada, registra-se uma perda acumulada de praticamente 8,0%.

Diante de julho do ano passado, o varejo restrito – que já não havia crescido em junho – recuou 1,0%, com variação de 1,4% para as vendas no varejo ampliado, depois de um salto de 8,6% em junho igualmente em relação ao mesmo mês de 2025.

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