Na contramão, indústria goiana desaba em abril e registra perda de 6,4% no ano

Publicado por: Lauro Veiga Filho | Postado em: 10 de junho de 2021

As dificuldades enfrentadas pelas indústrias de medicamentos, de produtos de metal e pela metalurgia em Goiás, afetadas pela desorganização da cadeia de suprimentos de insumos e matérias primas, podem explicar parte da retração observada desde o quarto trimestre do ano passado para a produção industrial. Mas não parecem oferecer explicação suficiente para entender os maus resultados do setor, que vieram, especialmente em abril, na contramão do comportamento observado para a indústria brasileira como um todo.

Outra parte da explicação parece estar no próprio perfil do setor em Goiás, que permitiu à produção sustentar taxas positivas de crescimento no segundo e no terceiro trimestres do ano passado. Especialmente porque os setores de fabricação de alimentos e produtos farmacêuticos mantiveram sua operação na fase mais dura das medidas de distanciamento social adotadas entre março e abril de 2020.

A pesquisa mensal da produção industrial regional do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)mostram queda no Estado na comparação entre abril e março deste ano, assim como frente a abril de 2020, passando a acumular uma retração importante no acumulado dos primeiros quatro meses deste ano. Em todo o País, a produção baixou 1,3% na saída de março para abril, com redução de 3,6% em Goiás, depois de avançar 1,8% em fevereiro e 0,8% em março – o que já demonstrava um desaquecimento no meio da crise, como este espaço havia apontado (O Hoje, 12/05/2021).

O tombo em relação a abril do ano passado foi ainda mais severo, numa retração de 8,7%. Para comparar, a produção brasileira saltou 34,7% por efeito da base muito baixa em abril de 2020. A indústria goiana, em abril do ano passado, ao contrário, havia avançado 6,6% em relação a abril de 2019, com alta de 5,4% no setor de transformação, que em abril deste ano despencou 9,1% (ainda na comparação com igual período do ano anterior).

Sinais trocados

Os sinais vieram invertidos, em abril deste ano, em outras áreas. Por exemplo, na indústria de produtos alimentícios, que havia avançado 3,8% no ano passado (abril de 2020 frente a igual mês de 2019), caiu 3,1% em abril deste ano. O setor de fabricação de medicamentos chegou a saltar 81,3% em abril de 2020 e, no mesmo mês deste ano, despencou 62,5%. É preciso destacar que a indústria farmacêutica tem sido afetada pela dificuldade de importação de insumos, o que pode ter atingido a atividade no setor. A produção de veículos, reboques e carrocerias, quase totalmente paralisada em abril do ano passado (num tombo de 98,2%), experimentou o incrível salto de 5.852,4% no mesmo mês deste ano, o que levou o setor a acumular alta de 41,0% no primeiro quadrimestre de 2021 diante dos primeiros quatro meses de 2020.

Balanço

  • A indústria de minerais não metálicos (cimento, concreto, telhas e estruturas utilizadas pela construção civil) experimentou salto de 55,5% em abril deste ano, o que se compara com a queda de 22,4% no mesmo mês de 2020. A mesma inversão pode ser observada no setor de outros produtos químicos (predominantemente adubos e fertilizantes), que sofreu perdas de 22,3% em abril de 2020 e passou a avançar 10,9% no mesmo mês deste ano.
  • No setor de biocombustíveis, o crescimento de 5,9% registrado em abril do ano passado deu espaço para a queda de 10,6%. Os dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) mostram elevação de 3,94% na produção de biodiesel em abril último, saindo de 70,160 milhões para 72,926 milhões de litros. Em quatro meses, de janeiro a abril, o Estado produziu 268,432 milhões de litros neste ano, praticamente repetindo os números de 2020, com 266,50 milhões de litros produzidos (variação de 0,72%).
  • Mas a produção de etanol mantém-se em queda, como reflexo do atraso no começo da safra de cana, baixa incidência de chuvas e da retração persistente na demanda por combustíveis. Em abril deste ano, as usinas goianas produziram 243,462 milhões de litros de etanol, o que significou redução de 23,2% em relação aos 316,905 milhões de litros produzidos no mesmo mês do ano passado.
  • Nos quatro primeiros meses deste ano, a produção atingiu 371,267 milhões de litros, em queda de quase 29,1% diante do mesmo quadrimestre em 2020, quando a produção havia somado 523,208 milhões de litros. Na soma dos dois combustíveis, a produção caiu 19,0% no acumulado entre janeiro e abril deste ano face a igual intervalo de 2020.
  • A observação das taxas trimestrais e quadrimestrais mostra uma piora na atividade industrial em Goiás deste os últimos meses de 2020. Depois de crescer 5,9% e 5,1% no primeiro e segundo trimestres do ano passado, em relação a igual período de 2019, a produção caiu 5,6% no último trimestre do ano e 5,5% no primeiro deste ano. E, em abril desabou mais 8,7%.
  • No País, a produção havia caído 8,3% e 8,8% respectivamente no primeiro e segundo quadrimestres do ano passado, diante de altas de 1,3% e de 5,1% em Goiás nos mesmos períodos. No terceiro quadrimestre de 2020 e no primeiro deste ano, a produção cresceu 3,5% e 10,5% em todo o País, mas entrou em queda no Estado, baixando 2,1% e 6,4% na mesma ordem.
  • Também divulgado ontem pelo IBGE, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) mostrou nova elevação, saindo de 0,31% em abril para 0,83% em maio, depois de atingir 0,44% nas quatro semanas encerradas em 15 de maio. A elevação, como se mostrará numa próxima coluna, pode ser explicada principalmente pela alta da energia elétrica e dos combustíveis, mas não por excessos supostos da demanda.
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