“Organizar” cultura não é papel da polícia, é obrigação do Estado

Publicado por: Venceslau Pimentel | Postado em: 02 de setembro de 2019

Se não bastasse deixar de lado
importantes produções culturais no Estado, como o Festival Internacional de
Cinema e Vídeo Ambiental (Fica), o Governo de Goiás tem orientado as forças
policiais a “organizarem” eventos públicos na Capital. A ação da Polícia
Militar da última sexta-feira (30) foi percebida como um balde de água fria por
freqüentadores, artistas e organizadores do ‘Grande Hotel Vive o Choro’, o
Chorinho, que ocorre desde 2007 no centro da cidade. Ao mesmo tempo, revela
incoerência do inquilino da Praça Cívica, que defendeu anteriormente o uso dos
espaços públicos como espaço de lazer e divertimento. 

O evento aparece como uma perigosa
ação do Governo, que relembra tristes episódios do nosso País. Desqualificar
movimentos artísticos é o primeiro passo para se estabelecer regimes
autoritários e é preciso que o governador de Goiás, Ronaldo Caiado
(Democratas), se empenhe em organizar a pasta dedicada à Cultura do povo goiano
antes de permitir, ou mesmo incentivar, que agentes da segurança impeçam práticas
que divirtam a população mais vulnerável da maior cidade do estado.

Não cabe à polícia de Goiás atuar
como promotora de eventos nem realizar o trabalho dos fiscais de posturas do
município, mas sim garantir que a lei seja cumprida. O Art. 215 da
Constituição Federal reza que o Estado garantirá a todos o pleno exercício dos
direitos culturais (…) e apoiará e incentivará a valorização e a difusão das
manifestações culturais. Sem muito a mostrar, apesar da recriação da Secretaria
de Cultura e de ações pontuais a favor do tema, o Governo culpa a gestão
anterior por ter deixado dívidas na ordem de R$ 60 milhões. Mas não interferir
no que funciona bem é um começo e não custa nada.

O posicionamento truculento de
viaturas serve o propósito de empurrar para fora do espaço o público a que se
destina a produção de arte gratuita. A proibição do comércio de bebidas se
manifesta como uma ordem autoritária – mesmo que os vendedores ambulantes
atuassem em desconformidade com a lei orgânica da cidade. Nesse caso, é
prerrogativa dos agentes do município a verificação e a pronta correção que a
matéria merece.

Apesar de incômodo, o susto a que
os goianienses foram submetidos se articulou como um ato de resistência,
principalmente por vozes que qualificam e impulsionam a cultura local. E,
claro, posicionamentos firmes são sempre muito bem-vindos em tempos de
cerceamento. Para combater o ataque, o coordenador do Chorinho, jornalista Carlos
Brandão se dirigiu ao governador nas redes sociais. Em tom crítico,
escreveu: “Eu acho que o senhor deveria, antes de sair pela cidade metendo o
bedelho em atividades culturais, cuidar da sua própria secretaria de cultura, que
até hoje não disse a que veio. A sua polícia, senhor Ronaldo Caiado, não deve
sair pela cidade se arvorando de curadora de atividades culturais e definindo o
que pode e o que não pode acontecer”.

O recado de Brandão ecoa e
representa a voz silenciada de rapazes e moças da periferia. É a essa população
que eventos públicos servem. Aos que não têm dinheiro para alcançar cultura em
espetáculos privados. Aos que passam longe de festas promovidas com recursos
públicos, a exemplo da festa junina beneficente do Palácio das Esmeraldas, com
ingressos de R$ 300 e show de Israel e Rodolfo. Aos que mais precisam.

Estes esperam que a recém-chegada Força Nacional
e as demais forças de segurança do Estado foquem seu trabalho no combate aos
crimes que atazanam a sociedade, como os furtos a residências que ainda não
foram atacados a contento pelo Executivo. E deixem a cultura para quem sabe
fazer. Como escreveu Carlos Brandão ao governador, “a cidade e os
produtores de Cultura não precisam do “auxílio luxuoso” da PM para realizarem
suas atividades culturais [porque] como dizem: cada qual no seu quadrado. Ado.
Ado. Ado!”.  

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