PIB desacelera no segundo trimestre com queda no consumo das famílias
A política de juros extorsivos teve ampliados seus efeitos sobre a demanda doméstica no segundo trimestre deste ano, causando forte desaceleração dos investimentos e baixa no consumo das famílias na comparação com o trimestre imediatamente anterior. Como resultado, o Produto Interno Bruto (PIB) passou a apresentar variação de 0,5% no segundo trimestre, depois de ter registrado um avanço de 1,1% no trimestre anterior, quando a economia chegou a registrar seu melhor momento na série histórica, iniciada em 1995. A comparação ocorre sempre em relação aos três meses imediatamente anteriores, na série de dados dessazonalizados, quer dizer, excluídos fatores e eventos que se repetem sempre nas mesmas épocas todos os anos, conforme dados trazidos ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Ainda na mesma série, o consumo das famílias havia crescido 0,8% no primeiro trimestre, mas passou a recuar 0,4% no trimestre seguinte, no “pior resultado desde o final de 2024, quando a taxa básica de juros (Selic) começou a subir”, aponta o Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi). O desaquecimento veio na sequência de um processo de piora no endividamento das famílias e no aumento da parcela da renda familiar comprometida com o pagamento de juros e amortizações de suas dívidas, como também acentua o instituto.
“A despeito da baixa taxa de desemprego e do rendimento real em elevação, o peso do endividamento das famílias está em patamares recordes, colocando muitas delas em delicada situação financeira, funcionando, assim, como obstáculo às decisões de consumo”, comenta a equipe de analistas do Iedi. A dívida bancária total tem se mantido ao redor de 49,8% da renda nacional disponível bruta das famílias acumulada em doze meses. A soma dos pagamentos de juros e amortizações, acrescenta o Iedi, “não para de subir” e havia atingido, em junho deste ano, 28,85% do ganho familiar total, diante de 27,17% em igual mês do ano passado.
Impacto no consumo
A renda familiar bruta disponível na série trimestral ajustada sazonalmente e a valores atualizados pela inflação avançou de R$ 799,793 bilhões para R$ 819,770 bilhões, indicando um ganho de R$ 19,977 bilhões e alta real de 2,50%. Considerando o percentual do comprometimento indicado pelo BC, o pagamento de juros e amortizações teria exigido perto de R$ 217,304 bilhões no trimestre encerrado em junho do ano passado, valor elevado em 8,83% no mesmo período deste ano, para R$ 236,504 bilhões, ou seja, em torno de R$ 19,2 bilhões a mais – o que significa dizer que 96,1% do aumento da renda das famílias teriam sido destinados ao pagamento do serviço de sua dívida, reduzindo a capacidade de consumo. Entre outros resultados, a inadimplência no segmento de crédito livre, retoma o Iedi, subiu para 7,8% em julho, recorde desde o início desse tipo de levantamento pelo BC, em março de 2011. A pesquisa da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), por sua vez, prossegue o instituto, “mostrou que 29,9% das famílias tinham contas em atraso em junho de 2026 e 19% declararam comprometer mais da metade da renda com dívidas”.
Balanço
O investimento, medida pelo que os economistas enquadram como “formação bruta de capital fixo”, apresentou de fato crescimento de 1,2% no segundo trimestre, taxa que se compara com a alta de 3,4% observada na saída do quarto trimestre de 2025 para o primeiro trimestre deste ano – embora tenha apresentado elevação de 1,4% em relação com o segundo trimestre do ano passado, na sequência de dois trimestres de resultados negativos, com baixas de 3,1% no quarto trimestre de 2025 e de 1,4% nos três primeiros meses deste ano, também na comparação com iguais período do ano anterior.
Nesse tipo de comparação, o consumo das famílias saiu de um incremento de 1,7% no primeiro trimestre deste ano para uma variação de 0,5% no trimestre seguinte (diante do segundo trimestre de 2025). No encerramento do primeiro semestre, o investimento mostrou estagnação, com variação nula (quer dizer, repetindo o mesmo nível observado na primeira metade do ano passado), diante de uma variação acumulada de 1,1% para o consumo das famílias.
Ainda na análise do Iedi, o tropeço do consumo no segundo trimestre “rebateu no lado da oferta”, afetando o desempenho do comércio, que não saiu do zero no período, comparado agora ao primeiro trimestre deste ano, mesmo comportamento observado no grupo “outras atividades de serviços, que reúnem muitos serviços pessoais”, conforme o Iedi. “Isso contribuiu para o que os serviços como um todo ficassem igualmente muito perto da estabilidade”, numa variação de apenas 0,2% na série com ajuste sazonal.
As restrições enfrentadas no lado da demanda, como mostram os dados do consumo das famílias e do investimento, atingiram igualmente a indústria de transformação, “inclusive porque muitos de seus bens têm mercados baseados em crédito e, logo, sujeitos aos níveis de juros”, conforme registra o Iedi. O setor apresentou recuo de 0,4% no segundo trimestre em relação aos três meses imediatamente anteriores, quando já não havia experimentado crescimento. Em 12 meses, a indústria de transformação encolheu 1,1%.
A atividade industrial como um todo saiu de uma crescimento de 1,2% no primeiro trimestre para quase estabilidade no segundo, quando apresentou variação de 0,1% sob influência principalmente do desempenho negativo no setor de transformação. Mas não somente. Nesta área ainda, a construção e o setor de eletricidade, gás, água esgoto e gestão de resíduos experimentaram, respectivamente, baixas de 0,4% e de 1,1%. Mas a indústria extrativa, puxada principalmente pelo setor de petróleo, cresceu 3,4% (saltando ainda 12,0% na comparação com o segundo trimestre do ano passado).
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