PIB para de crescer e consumo das famílias recua aos níveis de 2013

Publicado por: Lauro Veiga Filho | Postado em: 02 de setembro de 2021

O grande motor da economia parou de rodar. Tropeçou em mais uma onda da pandemia, na lentidão das vacinas, no desemprego elevado, na alta dos preços dos alimentos, do gás de cozinha, da energia elétrica, na incerteza em relação ao futuro. O consumo das famílias enfrentou o segundo trimestre consecutivo de crescimento nulo ou muito perto disso, contribuindo para a estagnação virtual do Produto Interno Bruto (PIB), a soma de todos os bens e serviços produzidos pela economia, no segundo trimestre deste ano, numa tendência evidente de desaquecimento em meio à crise instalada desde a chegada do Sars-CoV-2 em março do ano passado.

Na comparação com o trimestre imediatamente anterior, os gastos de consumo das famílias já haviam registrado variação muito próxima de zero nos três primeiros meses deste ano – mais objetivamente, “subiram” 0,1% frente ao último trimestre de 2020, já com os devidos ajustes à sazonalidade do período, marcado pelos feriados do Natal e do réveillon, com gastos típicos dessa fase do ano. No segundo trimestre, nem isso. A variação foi zero mesmo.

A série ajustada de dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que ontem divulgou os números mais recentes do PIB, mostra que o consumo das famílias acumulou queda de 3,0% frente ao trimestre final de 2019 e encontrava-se, no segundo trimestre deste ano, perto de 4,4% abaixo de seu melhor momento, alcançado no quarto trimestre de 2014. Conforme as mesmas estatísticas, as famílias consumiram praticamente o mesmo volume consumido no primeiro trimestre de 2013, há pouco mais de oito anos, portanto. A população cresceu desde então, assim como suas necessidades, o que permite concluir que, pelo menos para as milhões de famílias situadas na base da pirâmide da renda, essas necessidades não foram atendidas integralmente, agravando o quadro de desigualdades e de exclusão.

Desmanchando

Ainda sobre os gastos de consumo das famílias brasileiras, sua participação no PIB vem encolhendo mais recentemente, desabando de 64,5% no primeiro semestre de 2019 para 59,3% na primeira metade deste ano, o que corresponde a uma perda de 5,2 pontos de porcentagem sobre o volume das “riquezas” produzidas pela economia. Como o PIB atingiu R$ 4,191 trilhões no acumulado dos seis primeiros meses deste ano, pode-se estimar que as famílias foram privadas de um consumo equivalente a quase R$ 218,0 bilhões, dinheiro que deixou de circular, de gerar produção e empregos, que ajudariam, mais adiante, a produzir novos empregos, mais renda e mais consumo. Esse será mais um fator a inibir todo o restante da economia nos próximos trimestres, somando-se aos riscos de novo agravamento na pandemia, associado ao surgimento de novas variantes do vírus, à crise hídrica, que já encarece os custos da energia e vai gerar mais inflação adiante, levando o Banco Central (BC) a promover novos aumentos dos juros básicos, com efeitos mais uma vez depressores sobre a atividade econômica. Por óbvio, a crise política e institucional armada pelo desgoverno instalado em Brasília reduz ainda mais as possibilidades de crescimento, pelo nível dramático de incertezas que acrescenta ao cenário político, com impactos sobre decisões de investimento, consumo e produção em toda a economia.

Balanço

  • O avanço das ocupações neste ano tem sido puxado quase exclusivamente pelos empregos informais, que pagam salários relativamente mais baixos, derrubando o rendimento médio dos trabalhadores – que já vêm sendo corroídos pela inflação crescente, gerando carestia e inibindo o consumo das famílias, como já mostram os dados do PIB. A massa de rendimentos efetivamente recebidos pelos trabalhadores, ainda de acordo com o IBGE, despencou 15,4% entre o primeiro trimestre de 2020 e o segundo trimestre deste ano, saindo de R$ 254,344 bilhões para R$ 215,084 bilhões em valores reais (quer dizer, descontada a inflação), numa perda de R$ 39,260 bilhões.
  • O Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi) agrega mais um fator aos já apontados neste espaço. Ao analisar o número negativo do PIB no segundo trimestre, o instituto acrescenta ao atraso da vacinação e à piora da pandemia, à aceleração inflacionária e ao “ambiente de alto desemprego”, o “desarranjo persistente” entre as cadeias do setor produtivo, o que “continua impondo gargalos na obtenção de insumos”.
  • Ainda na leitura do Iedi, corroborando a análise expressa pela coluna, a paralisia observada para o consumo das famílias nos dois primeiros trimestres deste ano “tem sido o maior obstáculo para um desempenho superior do PIB”. Na visão do instituto, dado o cenário de desemprego em níveis historicamente elevados e de corrosão “há meses” do poder de compra das famílias “pela inflação de bens essenciais, como alimentos, gás e combustíveis e, agora, energia elétrica”, os números consolidados para a atividade econômica não poderiam ser diferentes. A situação piora ainda em função “da própria dinâmica da pandemia” e da “reedição (tardia) do auxílio emergencial” em valores muito mais baixos do que em 2020. Os investimentos em toda a economia caíram 3,6% no segundo trimestre de 2021, depois de terem subido 4,8% no primeiro.
  • Pelo lado da produção (oferta), sempre na comparação com o primeiro trimestre deste ano, a agropecuária encolheu 2,8% afetada diretamente pela seca, que derrubou a safra de milho e cana, além de piorar o quadro de menor produção de café, determinado pela “bianualidade” da cultura (que historicamente alterna períodos positivos e negativos, com anos de boa safra seguidos de ciclos de menor colheita por uma questão meramente agronômica). O ano de baixa, agora em 2021, foi agravado pela estiagem, num primeiro momento, e pelas geadas.
  • O PIB da indústria em geral experimentou leve recuo de 0,2%, mas a indústria de transformação sofreu tombo de 2,2% no segundo trimestre. A perda foi parcialmente compensada pela alta de 5,3% registrada pela indústria extrativa, favorecida pelo avanço na produção de minério de ferro (mineral que tem liderado a alta das exportações brasileiras), e ainda pelo crescimento de 2,7% na indústria da construção.
  • O afrouxamento das medidas de restrição à movimentação de pessoas ajudou a elevar o PIB dos serviços em 0,7% no segundo trimestre, com a contribuição principalmente do setor de informação e comunicação, que apresentou elevação de 5,6%.
  • As comparações com 2020, evidentemente, ficam comprometidas pela base muito reduzida, achatada pelas medidas mais duras de distanciamento social adotadas entre março e abril. O PIB como um todo, por exemplo, chegou a crescer 12,4% no segundo trimestre deste ano frente a igual período do ano passado (quando havia desabado 10,9%). Comparado ao primeiro trimestre de 2014, o produto ainda acumula baixa de 3,2%.
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