sexta-feira, 15 de maio de 2026

Queda de ocupações qualificadas reduz emprego. Mas rendimento bate recorde

Lauro Veiga Filhopor Lauro Veiga Filho em 15 de maio de 2026

As estatísticas apuradas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em sua Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNADC) mostram uma mudança qualitativa no mercado de trabalho no início deste ano, em Goiás. Os dados mostram redução de ocupações que demandam maior qualificação e, em menor proporção, uma queda no número de trabalhadores na informalidade, com efeitos negativos sobre o total de ocupados em todo o Estado, produzindo mais desemprego e um avanço na taxa de desocupação.

Parte das alterações em curso ao longo do primeiro trimestre teria aparentemente refletido movimentos sazonais relacionados a cortes de vagas temporárias abertas para atender ao avanço da demanda durante o período de festas de fim de ano. Os ajustes mais severos, no entanto, alcançaram setores que não operam diretamente na ponta final do consumo, a exemplo do comércio (que, na classificação do IBGE, surge agrupado ao segmento de reparação de veículos e motos).

No dado consolidado, o total de ocupações em Goiás foi reduzido de 3,872 milhões no último trimestre do ano passado para 3,838 milhões nos três primeiros meses deste ano, significando um corte de 34,0 mil vagas, num recuo de 0,9%. Como 14,0 mil trabalhadores passaram a fazer parte da força de trabalho, elevando aquele contingente de 4,030 milhões para 4,044 milhões entre o quarto trimestre de 2025 e o primeiro deste ano, o resultado foi um salto de 30,3% no número de desempregados, que avançou de 158,0 mil para 206,0 mil (48,0 mil a mais). A taxa de desemprego, que havia baixado para 3,9% no encerramento do ano passado, a menor da série histórica, voltou a se elevar, atingindo 5,1% – mas abaixo dos 5,3% registrados no primeiro trimestre do ano passado.

Maiores impactos

A perda de empregos afetou mais duramente a indústria em geral, os setores de informação, comunicação, atividades financeiras e imobiliárias, profissionais e administrativas e ainda a administração pública, incluindo segmentos de defesa, seguridade social, educação, saúde e serviços sociais. Em conjunto, o número de trabalhadores empregados naquelas áreas baixou de 1,636 milhão nos três meses finais de 2025 para 1,556 milhão entre janeiro e março deste ano, numa queda de 4,9%. Foram demitidos 80,0 mil trabalhadores, em valores aproximados. O comércio, de outro lado, contratou mais 55,0 mil trabalhadores, elevando o número de ocupados no setor de 791,0 mil para 846,0 mil, ou seja, 7,0% a mais. O desempenho aqui parece contrariar a sazonalidade do período. Mas, como trata-se ainda de um único trimestre, os próximos dados deverão permitir avaliações mais assertivas sobre as tendências em curso no mercado de trabalho.

Balanço

Por enquanto, a edição mais recente da PNADC trimestral mostra, entre outros dados, uma redução igualmente relevante no número de informais, com impacto direto sobre a ocupação geral. Os trabalhadores sem carteira assinada, sem direitos trabalhistas, e sem registro no Cadastro Nacional de Pessoas Jurídicas, incluindo trabalhadores por conta própria e empregadores, haviam encerrado 2025 na faixa de 1,358 milhão e baixaram para 1,314 milhão. Registrou-se portanto uma redução de 3,2% com afastamento de 44,0 mil trabalhadores.

A queda foi compensada parcialmente pelo avanço no total de trabalhadores formais, com direito ao Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), férias e aposentadoria. O lado formal do mercado contratou mais 25,0 mil trabalhadores na passagem do quarto trimestre de 2025 para o primeiro deste ano, com o total avançando de 2,389 milhões para 2,414 milhões, em torno de 1,0% a mais.

Entre as principais categorias da ocupação, o setor público goiano respondeu por pouco mais de 94% do total de trabalhadores demitidos entre aqueles dois trimestres, com destaque para militares, estatutários e sem carteira assinada. No geral, o número de empregados no serviço público estadual foi reduzido de 458,0 mil para 426,0 ml, numa queda de 7,0%. Foram afastados perto de 32,0 mil funcionários, entre esses, 15,0 mil militares e/ou estatutários e mais 15,0 mil sem carteira assinada.

Em 12 meses, persiste um avanço modesto de 0,5% no total de pessoas ocupadas, correspondendo à contração de 20,0 mil trabalhadores além dos 3,818 milhões que se encontravam empregados em algum tipo de ocupação no primeiro trimestre do ano passado. O número de desocupados recuou 4,1% ao longo do mesmo período, com redução de 9,0 mil sobre o total de 214,0 mil desempregados nos três meses iniciais de 2025.

A informalidade registrou baixa de 2,4% nos mesmos 12 meses, com a saída de 33,0 mil trabalhadores informais no período. Para comparação, aquele total chegava a 1,347 milhão no primeiro trimestre de 2025. O percentual de informais sobre o total de ocupados recuou de 35,3% para 34,2% – ainda assim, um percentual ainda elevado.

As atividades que demandam maior qualificação registraram 13,0 mil demissões naqueles 12 meses, sobre um total de 1,569 milhão de ocupados nos três meses iniciais de 2025. A participação daquelas atividades no total de ocupados recuou de 41,1% para 40,5% no trimestre inicial deste ano, depois de ter alcançado 42,3% ao final do ano passado.

Essa (aparentemente) nova dinâmica no mercado tem produzido certo crescimento no total de trabalhadores fora da força de trabalho, num avanço daqueles que não apenas perderam a ocupação, mas desistiram de procurar uma nova. Esse contingente, que chegou a se aproximar de 1,955 milhão no primeiro trimestre do ano passado, subiu para 2,048 milhões, crescendo 4,8% (ou 93,0 mil a mais). Foi o número mais elevado desde o primeiro trimestre de 2021, num momento em que os trabalhadores fora da força haviam somado 2,102 milhões.

Como proporção da população com 14 anos ou mais, o número de trabalhadores fora da força alcançou um percentual de 33,62% nos primeiros três meses deste ano, diante de 32,65% em igual intervalo de 2025 (mas abaixo dos 36,8% alcançados no primeiro trimestre de 2021).

A despeito das mudanças em curso, o rendimento real médio mensal dos trabalhadores goianos aumentou 4,4% em relação ao quarto trimestre de 2025, num avanço ainda de 12,5% diante dos três primeiros meses daquele mesmo ano, atingindo R$ 3.878 – novo recorde. O rendimento no Estado passou a superar a média do País a partir do terceiro trimestre do ano passado e subiu 8,5% desde lá, frente a um incremento de 4,1% na média nacional. Numa comparação mais longa, a partir do quarto trimestre de 2019, antes da pandemia, o rendimento saltou 30,1% em Goiás e 13,2% na média do País.

A massa de rendimentos reais, igualmente recorde, cresceu 3,4% entre o último trimestre de 2025 e o primeiro deste ano, subindo 13,1% em 12 meses, para R$ 14,806 bilhões. Comparada ao quarto trimestre de 2019, enquanto a massa de rendimentos cresceu 24,1% na média brasileira, em Goiás registrou-se alta de 48,2%, com avanços de 8,6% para o total de ocupados no País e de 13,3% no Estado.

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