Queda no total de informais responde por 61% da perda de empregos no ano
As flutuações no número de pessoas com algum tipo de ocupação e do total de desempregados no primeiro trimestre do ano refletem, de certa forma, a sazonalidade do período, já que o comércio e atividades relacionadas às vendas passam a demitir trabalhadores contratados no final do ano anterior para reforçar a mão de obra naquelas áreas, em função do incremento do consumo durante as festas de Natal e do réveillon. Entre outras “novidades” trazidas pela edição mais recente da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNADC), divulgada ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), incluem-se uma participação menos intensa dos trabalhadores informais na queda do emprego e uma contribuição maior da administração pública para a redução do número total de ocupações.
Como tendência geral, considerando a evolução dos mesmos indicadores no primeiro trimestre do ano passado, a pesquisa aponta uma redução sazonal das ocupações, acompanhada pelo avanço relativo do desemprego. Há uma nota a ser necessariamente acrescida aqui: os indicadores da desocupação mantêm uma distância considerável do quadro experimentado, por exemplo, no começo de 2021, ainda sob os impactos da pandemia, e mesmo quando a comparação se dá com idênticos períodos dos anos seguintes.
Mas o que mostram as estatísticas coletadas pelo IBGE por meio de sua PNADC? Ao final do primeiro trimestre deste ano, a economia registrava 101,976 milhões de ocupados, em queda de quase 1,0% frente ao quarto trimestre do ano passado, quando o total de trabalhadores com alguma ocupação havia alcançado 102,998 milhões. Houve, portanto, uma perda de 1,022 milhão de postos de trabalho no período, mas persistindo um incremento de 1,5% em relação a 100,511 milhões de ocupados no trimestre inicial de 2025, correspondendo à abertura de 1,465 milhão de vagas em 12 meses.
O total de trabalhadores informais — ou seja, sem carteira assinada e sem registro no Cadastro Nacional de Pessoas Jurídicas (CNPJ), no caso de empregadores e trabalhadores por conta própria — recuou de 38,707 milhões no trimestre final de 2025 para 38,084 milhões, em baixa de 1,6%.
Neste caso, cerca de 623 mil trabalhadores informais deixaram sua ocupação, passando a engrossar o desemprego. Esse número correspondeu a praticamente 61% das vagas perdidas no período. Uma contribuição de quase 27,2% veio do fechamento de empregos sem carteira no setor público, enquanto o segmento formal registrou virtual estabilidade, embora em leve recuo. O total de trabalhadores formais caiu de 60,908 milhões no quarto trimestre de 2025 para 60,786 milhões, uma redução de cerca de 122 mil postos, equivalente a 11,9% do total de demissões no intervalo.
Balanço
O número de desocupados avançou 19,6% no período, passando de 5,503 milhões para 6,579 milhões — um aumento de aproximadamente 1,077 milhão de pessoas. Esse movimento, associado principalmente ao crescimento do desemprego no setor informal, elevou a taxa de desemprego de 5,1% para 6,1%. Ainda assim, na comparação com o primeiro trimestre do ano passado, houve uma redução de 13% no número de desocupados, quando a taxa girava em torno de 7%.
Considerando sempre o primeiro trimestre de cada ano, a taxa de desocupação havia atingido um pico negativo de 14,9% em 2021, recuando para 11,1% em 2022. Nos dois anos seguintes, caiu de 8,8% para 7,9%. Esse movimento evidencia uma melhora consistente no mercado de trabalho, impulsionada também pelos ganhos de renda e pelo aumento da massa salarial em termos reais.
Na passagem do quarto trimestre de 2024 para o primeiro de 2025, o mercado de trabalho também apresentou queda no emprego e aumento do desemprego, porém com intensidades diferentes. O total de ocupados recuou 1,3%, enquanto o número de desempregados cresceu 13,2%. A desocupação passou de 6,684 milhões para 7,566 milhões de trabalhadores.
Naquele período, a informalidade teve peso ainda maior na perda de vagas, respondendo por cerca de 84,6% da queda da ocupação. O número de informais caiu de 39,307 milhões — o maior da série histórica — para 38,189 milhões, com o fechamento de 1,118 milhão de vagas, uma redução de 2,8%.
Portanto, há um componente sazonal no comportamento do mercado de trabalho no primeiro trimestre deste ano, mas com uma elevação mais significativa do desemprego em termos absolutos, o que pode indicar um leve esfriamento do setor. Essa tendência pode estar relacionada ao cenário econômico mais restritivo, marcado por juros elevados, alto endividamento das famílias e maior comprometimento da renda com despesas financeiras, além do aumento de gastos com apostas, que reduzem a renda disponível para consumo.
Apesar disso, o rendimento médio real dos trabalhadores e a massa total de rendimentos atingiram novos recordes na série da PNADC, iniciada em 2012. O rendimento médio cresceu 1,6% em relação ao trimestre anterior, chegando a R$ 3.722, com alta de 5,5% em 12 meses.
A massa de rendimentos passou de R$ 372,506 bilhões no último trimestre de 2025 para R$ 374,819 bilhões no primeiro trimestre deste ano, uma alta de 0,6%. Na comparação anual, o crescimento foi de 7,1%, equivalente a cerca de R$ 24,842 bilhões — o maior ganho para o período desde 2023, quando a alta havia sido de 10,6%.