Rendimento real cresce em Goiás, mas desigualdade avança entre 2022 e 2025
Reduzir a concentração da renda, melhorar sua distribuição em benefício dos mais pobres e, portanto, enfrentar os níveis ainda escandalosos das desigualdades no País parecem ser mais efetivos no combate à pobreza e à extrema pobreza, sugere estudo recente realizado por uma equipe de pesquisadores do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV). Os resultados tendem a ser incrementados especialmente quando aquelas ações são associadas à valorização dos rendimentos dos trabalhadores, ao estímulo a empregos de maior especialização, assim como a políticas públicas nas áreas da saúde, educação, cuidados sociais e moradia, com expansão e maior acesso a serviços públicos – pontos no entanto apenas tangenciados pelo trabalho, que de fato não tem esse objetivo.
“Crescimento da renda basta para reduzir a pobreza? Evidências das unidades da federação entre 2022 e 2025”, já sugere o título do estudo, conduzido pelos economistas Flávio Ataliba Barreto, Vitor Hugo Miro, João Mário Santos de França e Thiago Freitas. O trabalho indica que o aumento do rendimento real médio dos trabalhadores não parece suficiente para explicar a redução observada para a taxas de pobreza e de extrema pobreza no período analisado. A queda na concentração da renda, nesta linha, aparentemente teria sido mais relevante para derrubar os níveis de pobreza e miséria, embora essa correlação deva ser tomada com cautela, segundo os analistas que assinam o trabalho.
As relações entre as variáveis analisadas, consideram os especialistas do Ibre/FGV, “não identificam relações de causa e efeito. Outros fatores, como a composição do mercado de trabalho, a cobertura de programas sociais e a dinâmica demográfica, também podem influenciar as trajetórias estaduais”. A análise considera os dados estabelecidos pelo Banco Mundial para as linhas de pobreza e de extrema pobreza, que correspondem, pela ordem, a qualquer coisa em torno de R$ 775 e R$ 280 por mês.
Mais desigualdade
O caso goiano, igualmente analisado pelo trabalho, mostra como a alta do rendimento médio não necessariamente produz redução proporcional da pobreza e da extrema pobreza. Em Goiás, o rendimento real médio para o total da população ocupada, conforme dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio Contínua (PNADC), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), cresceu 33,4% entre 2022 e 2025, saindo de R$ 1.782 para R$ 2.378. Foi a terceira maior alta entre as 27 unidades da federação. Mas as taxas de pobreza e de extrema pobreza apresentaram apenas a terceira menor redução. Mais claramente, o Estado apresentou o terceiro pior desempenho naquelas áreas. Um dos motivos parece estar no aumento da concentração de renda no mesmo período, medida pelo índice de Gini, que varia de zero a um, ou seja, da igualdade total até a desigualdade máxima, respectivamente.
Balanço
“No período analisado, portanto, unidades da federação com reduções maiores da desigualdade tenderam também a apresentar quedas mais acentuadas da pobreza, mas a intensidade dessa relação dependeu da medida considerada”, reforça o trabalho.
O indicador da desigualdade nos rendimentos totais da população ocupada avançou em Goiás de 0,455 para 0,479 entre 2022 e 2025, num acréscimo de 0,024 pontos. Foi a segunda maior alta entre os 13 Estados que experimentaram piora naquele indicador, atrás apenas do Distrito Federal (que teve o índice elevado de 0,536 para 0,570).
Entre as 27 unidades federativas, a velocidade de redução da taxa de pobreza em Goiás esteve entre as mais baixas. Na verdade, foi a 23ª maior baixa, recuando de 25,4% para 19,1%. Olhando de trás para frente, foi a quinta menor variação negativa, o que significa dizer que 22 Estados conseguiram resultados melhores do que Goiás. A Paraíba anotou a maior baixa, seguido por Bahia, Roraima e Tocantins.
A taxa de extrema pobreza foi reduzida de 3,5% para 2,8% naquele mesmo período, ainda em Goiás, com 24 Estados apresentando quedas mais expressivas. A hipótese levantada pelos economistas do Ibre/FGV parece aproximar taxas de desigualdades mais baixas a ritmos mais intensos de melhoria nos indicadores de pobreza e, com menor impacto, das taxas de pobreza extrema, ainda que uma série de fatores estruturais e mesmo conjunturais possam igualmente interferir no processo e influir nas tendências de fato observadas de baixa nas populações em pobreza e extrema pobreza.
Mais do que reajustes salariais, portanto, “os resultados [do estudo] sugerem que políticas voltadas ao crescimento da renda podem produzir efeitos distintos conforme a forma como seus ganhos se distribuem”, registram os analistas do Ibre/FGV. “A análise do crescimento médio deve, portanto, ser acompanhada por atenção específica à base da distribuição e por instrumentos capazes de alcançar os grupos mais vulneráveis”, acrescentam.
Vale dizer, políticas de redistribuição da renda e das riquezas, com melhoras de fato no sistema de cobrança de impostos, com maior taxação das faixas de renda mais alta, associadas a políticas públicas que beneficiem as faixas da população de renda mais baixa são fundamentais para sustentar e ampliar as melhoras nos índices que medem a miséria no País.
Ainda na visão dos pesquisadores do Ibre/FGV, sob o ponto de vista das políticas públicas, “os resultados reforçam a importância de acompanhar conjuntamente o crescimento da renda, sua distribuição e as diferentes medidas de pobreza”. Entre 2022 e 2025, consideram os mesmos analistas, “taxas semelhantes de crescimento da renda coexistiram com reduções bastante distintas da pobreza entre os Estados. Nas comparações realizadas, a variação da pobreza apresentou associação de maior magnitude com a variação do Índice de Gini do que com o crescimento da renda”, acrescentam ainda.
A análise realizada ali, de todo modo, não permite “avaliar a eficácia de instrumentos específicos de política pública”, mas os pesquisadores sugerem que estratégias “como a focalização de transferências [de renda], o acompanhamento individualizado de famílias vulneráveis e a articulação entre serviços sociais constituem possibilidades relevantes”.
No caso das famílias em extrema pobreza, os mesmos economistas sugerem que “barreiras relacionadas a saúde, educação, trabalho, moradia, cuidados e acesso aos serviços públicos podem limitar a capacidade das transferências monetárias de produzir mudanças duradouras”. Uma correlação, de resto, não testada ao longo do estudo.
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